Cui bono? Dark Horse e a tentativa de decapitar a Polícia Federal

0

Por Marcos PędłowskiBlog do Pedlowski

Operação da PF sobre o financiamento de Dark Horse torna ainda mais inquietante a tentativa de André Mendonça de afastar simultaneamente os responsáveis pela direção e pela inteligência da instituição

A operação deflagrada nesta quinta-feira (10) pela Polícia Federal acrescentou uma peça importante ao quebra-cabeça que envolve o Banco Master, Vorcaro, o filme Dark Horse e a crise instalada no Supremo Tribunal Federal. A Operação Make Up cumpriu 49 mandados de busca e apreensão e atingiu, entre outros, o deputado federal Mario Frias e Karina Gama, produtora do filme sobre Jair Bolsonaro. A investigação, autorizada pelo ministro Flávio Dino e realizada em conjunto com a Controladoria-Geral da União, apura suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares e movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas.

O que torna a operação particularmente relevante é que Dark Horse aparece em duas frentes investigativas distintas. Enquanto a investigação sob relatoria de Flávio Dino procura esclarecer o possível uso irregular de recursos públicos, outra apuração, inserida no caso Master e sob relatoria de André Mendonça, investiga repasses relacionados ao financiamento privado do filme e sua conexão com  Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro.

É diante desse cenário que a tentativa de André Mendonça de afastar simultaneamente Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Leandro Almada, diretor de Inteligência da instituição, precisa ser examinada com especial atenção.  André Mendonça justificou sua decisão afirmando ter sido vítima de um “monitoramento sistemático” e ilegal realizado pela inteligência da PF. É uma acusação grave e que evidentemente precisa ser investigada. O problema começa quando aquele que se considera vítima dos atos investigados utiliza seus poderes jurisdicionais para afastar justamente os dirigentes da instituição responsável pela produção das informações que o atingem.

Foi precisamente essa contradição que Flávio Dino apontou ao determinar a reintegração dos dois delegados. Segundo Dino, André Mendonça não poderia transformar a defesa de seus próprios direitos em fundamento para uma decisão “em causa própria”, sobretudo quando o efeito concreto seria interferir na continuidade de investigações em andamento.   O ministro Flávio Dino destacou ainda que a substituição abrupta da direção e da inteligência da PF poderia comprometer equipes, fluxos de informação e o cumprimento das próprias determinações judiciais.

E aqui chegamos à velha pergunta latina: cui bono? A quem beneficia?  Não é necessário afirmar que André Mendonça decidiu afastar Andrei Rodrigues e Leandro Almada com a intenção de proteger  Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro personagem das investigações. Não existem, até este momento, elementos públicos suficientes para fazer essa afirmação. Mas existe uma pergunta perfeitamente legítima sobre os efeitos objetivos da decisão: quem seria beneficiado pela desorganização da direção da Polícia Federal justamente quando diferentes investigações começam a convergir sobre Dark Horse, recursos públicos, Vorcaro e personagens politicamente ligados ao bolsonarismo?

A operação desta quinta-feira torna essa pergunta ainda mais incômoda. Andrei Rodrigues chegou a argumentar perante Flávio Dino que seu afastamento estava interferindo diretamente na organização da equipe responsável pelo caso Dark Horse, retardando o acesso ao material investigado e comprometendo a rapidez da apuração.  Portanto, já não estamos discutindo uma consequência abstrata. O próprio diretor-geral da PF afirmou judicialmente que a decisão de André Mendonça estava produzindo efeitos sobre uma investigação concreta que agora resulta em 49 mandados de busca e apreensão.

Há ainda outra dimensão que não pode ser ignorada. André Mendonça é o relator do caso Master e, ao mesmo tempo, tornou-se personagem da controvérsia produzida pelos relatórios da inteligência da Polícia Federal. Com sua decisão, passou a ocupar simultaneamente as posições de autoridade atingida pelos relatórios, julgador da legalidade desses documentos e responsável pelo afastamento daqueles que comandavam a instituição que os produziu. Juristas ouvidos pelo UOL apontaram justamente essa sobreposição como uma das vulnerabilidades da decisão.

Nada disso prova que André Mendonça esteja tentando proteger alguém. Mas demonstra por que a aparência de conflito de interesses tornou-se praticamente incontornável.  E existe uma coincidência temporal difícil de ignorar: menos de 48 horas depois da tentativa de decapitar a direção e a inteligência da Polícia Federal, a instituição colocou nas ruas uma operação que alcança justamente o universo político e financeiro de Dark Horse.  Talvez seja por isso que a pergunta mais importante neste momento não seja descobrir antecipadamente quais eram as intenções de André Mendonça. Em instituições republicanas, intenções são difíceis de demonstrar; consequências são muito mais fáceis de observar.

E a consequência potencial daquela decisão era bastante concreta: retirar simultaneamente o diretor-geral e o diretor de Inteligência de uma Polícia Federal que está investigando alguns dos personagens política e financeiramente mais poderosos do país.  Por isso, diante da Operação Make Up, vale repetir a velha pergunta que costuma ser particularmente útil quando dinheiro, poder e política começam a circular pelos mesmos corredores: 

Cui bono? Quem ganharia com uma Polícia Federal decapitada justamente agora?

Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).


Visualizar Perfil Completo →

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Assinar

Continuar lendo

Fonte: Blog do Pedlowski

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *