Copom vê a economia esfriar, mas não dá ao mercado a resposta que ele mais quer sobre os juros
Por Monique Lima — Seu Dinheiro

A taxa Selic caiu para 13,75% ao ano na semana passada. Mas, para quem já comemorava a perspectiva de juros cada vez menores pela frente, a ata do Copom divulgada nesta terça-feira (22) deu um banho de água fria.
O Banco Central até vê mais sinais de que a economia está esfriando, segundo o documento, mas ainda não está convencido de que pode acelerar o ritmo de cortes nos juros.
A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) trouxe evidências de que os juros altos estão funcionando: a atividade econômica perdeu força, o crédito começa a desacelerar e a inflação segue em trajetória de queda.
Ainda assim, o Copom deixou claro que continua incomodado com um problema que não melhora na mesma velocidade que os demais indicadores: as expectativas de inflação — as projeções do mercado para a inflação futura.
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A leitura dos economistas a partir da ata é que o Banco Central vê espaço para continuar cortando juros, mas não necessariamente para acelerar esse movimento.
O Relatório Focus, que reúne as projeções do mercado para os principais indicadores da economia, de ontem (21) trouxe pela primeira vez a leitura de uma Selic terminal de 13,50% ao ano em 2026.
Até a semana passada, antes da reunião do Copom, o mercado ainda via os juros em 13,75% ao final deste ano. Isso significa que os agentes financeiros esperam pelo menos mais um corte de 0,25 ponto percentual neste ano — seja em novembro ou dezembro.
O freio dos juros está funcionando
A principal novidade da ata em relação ao comunicado da semana passada foi o trecho sobre o mercado de crédito.
Pela primeira vez, o Copom destacou com mais detalhes que o crédito livre — aquele em que o banco determina livremente as condições de empréstimo —, especialmente nas modalidades de prazo mais longo e mais sensíveis aos juros, está desacelerando.
A ata também ressaltou que a perda de ritmo da economia está mais evidente justamente nos setores mais dependentes do ciclo econômico.
O diagnóstico reforça a avaliação de que a política monetária restritiva está fazendo o trabalho esperado.
Para Caio Megale, economista-chefe da XP, a inclusão desse trecho foi a principal novidade do documento e reforça a leitura de que a economia está entrando em uma fase mais clara de desaceleração.
O mesmo vale para a inflação. Segundo a ata, tanto o índice cheio quanto a média dos núcleos desaceleraram e já se encontram abaixo do teto da meta (de 4,5%), embora ainda acima do centro do objetivo perseguido pelo Banco Central (de 3%).
Em última instância, isso significa que os sinais que normalmente justificariam mais cortes de juros estão aparecendo.
Então por que o BC ainda fala em cautela?
Porque, na visão do Copom, a inflação futura continua sendo motivo de preocupação.
A ata repete que as expectativas de inflação permanecem acima da meta em todos os horizontes analisados e faz uma afirmação importante:
“A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do Comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”, disso o comunicado.
Hoje, a dificuldade do Banco Central não está exatamente na inflação corrente — aquela que o IBGE divulga todos os meses e que dá sinais de melhora.
O desafio está em convencer empresas, consumidores, investidores e economistas de que a inflação voltará para a meta nos próximos anos.
Alberto Ramos, economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina, afirma que a ata foi “amplamente neutra” em relação aos próximos passos da política monetária.
Segundo ele, embora o BC reconheça a desaceleração da atividade e os efeitos dos juros altos sobre a economia, os diretores continuam preocupados com as expectativas de inflação e com um balanço de riscos desfavorável, que pende para um risco de elevação dos preços novamente.
Os riscos mapeados são:
- alta do preço do petróleo e seus derivados,
- os efeitos climáticos do El Niño na produção de alimentos,
- um eventual enfraquecimento do real frente ao dólar, e
- estímulos à demanda por parte do governo que possam dificultar o trabalho do Banco Central.
Juros vão continuar caindo ou não?
Quem esperava uma pista mais clara sobre a reunião de novembro do Copom provavelmente saiu frustrado.
Os principais trechos da ata sobre a estratégia de política monetária permaneceram praticamente inalterados em relação ao encontro anterior.
O Copom voltou a afirmar que ajustará o ritmo de calibragem dos juros de acordo com a evolução do cenário econômico. Ou seja, todas as opções continuam sobre a mesa.
Para Diogo Guillen, economista-chefe do Itaú Unibanco, a ata preserva a “opcionalidade” do Banco Central e não traz sinais mais claros sobre os próximos passos da Selic.
Já a XP continua apostando em um novo corte de 0,25 ponto percentual na reunião de novembro, argumentando que a atividade econômica deve perder força de maneira ainda mais visível nos próximos meses.
E o próprio relatório do Banco Central, que reúne as projeções dos participantes do mercado, o relatório Focus, indica mais um corte na Selic.
No documento da última segunda-feira (21), a projeção para a Selic ao final do ano caiu dos 13,75% atuais para 13,50%. Isso significa que o mercado espera mais esse ajuste nos juros em novembro.
Para o investidor, há sinais de que o ciclo de cortes continua vivo. Talvez continue a conta-gotas, de 0,25 em 0,25 ponto percentual, mas seguindo.
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Fonte: Seu Dinheiro