Como uma rede extremista no X articulou a falsa associação de Lula à pedofilia
Por Aos Fatos — Núcleo Jornalismo

Levou poucas horas para uma fala de Lula (PT) sobre exames de prevenção ao câncer de próstata ser transformada em uma acusação de pedofilia contra o presidente nesta semana. Um monitoramento de 1.819 posts no X, obtido e verificado pelo Aos Fatos, reconstitui como essa desinformação foi plantada e colhida por usuários bolsonaristas nas redes sociais entre segunda (28) e terça-feira (29).
A distorção do sentido da fala de Lula surgiu na esteira de uma falsa associação à pedofilia que já vinha sendo impulsionada horas antes do discurso do petista em Belém (PA). Usuários manipularam perguntas ao Grok, assistente de inteligência artificial do X, para fazê-lo afirmar que “Lula consome CP” — sigla em inglês para child pornography, ou pornografia infantil.

O próprio chatbot disse posteriormente que a frase era resultado de um jogo de palavras e que não havia registro que sustentasse a afirmação. Contudo, o recorte do discurso de Lula deu novo impulso à narrativa.
Além de pedidos para fazer viralizar o vídeo e mobilizar influenciadores, publicações recuperaram rapidamente episódios antigos e personagens sem relação com a fala de Lula para sustentar teorias que associam o presidente à pedofilia.
No comício na capital paraense na noite de segunda, o petista falava sobre prevenção ao câncer e criticava a resistência dos homens a exames de próstata, comparando os cuidados com a saúde entre mulheres que, segundo ele, realizam exames ginecológicos desde a infância.
O início
Entre as publicações de maior alcance identificadas no levantamento, uma das primeiras a recortar a declaração de Lula foi feita às 23h59 do dia 28 pela influenciadora Pâm, fundadora do portal bolsonarista The Incorrupt e integrante do Estúdio 5, um hub de produção de conteúdo pró-Bolsonaro alinhado ao catolicismo.
À 0h28 do dia 29, o perfil Space Liberdade publicou outro recorte da declaração. Bastou um minuto para que a interpretação se transformasse em acusação explícita. À 0h29, duas publicações registradas na base já chamavam o presidente de “pedófilo”; uma delas acrescentava pedidos para que usuários passassem essa leitura à frente.

Nas horas seguintes, diversos usuários passaram a atuar para ampliar o alcance da acusação. Houve publicações com pedidos para baixar e republicar o vídeo, sugestões para levantar a hashtag #LULAPEDOFILO e mensagens como “tem que viralizar”. Às 2h48, um perfil propôs escolher duas frases do discurso do Lula, definir uma hashtag e mobilizar de dez a 20 influenciadores.

A acusação encontrou ainda um repertório que já circulava antes do discurso. Cerca de cinco horas antes da publicação de Pâm, usuários ligados à chamada “bolha da resenha” já faziam experimentos com o Grok para forçar a ferramenta a associar Lula à pedofilia.
O termo é usado para descrever um ecossistema de perfis, em grande parte anônimos, que combina humor agressivo, conteúdo político extremista e reproduz a estética de chans, fóruns anônimos reconhecidos como um dos principais berços da extrema-direita atual.
Um primeiro usuário partiu das palavras “cerveja e picanha” e pediu que a ferramenta reduzisse a expressão às iniciais e juntasse as duas letras, manipulando-a a escrever que “Lula consome CP” — sigla para child pornography, ou pornografia infantil. Em seguida, outros perfis deram novas instruções que fizeram o chatbot produzir frases semelhantes.
As duas histórias se encontraram durante a madrugada. Às 3h39, um usuário compartilhou o corte com a fala sobre o “toque” e perguntou ao Grok se Lula seria “viciado em CP”. Às 4h10, outro reutilizou a associação ao comentar a publicação do Space Liberdade.

O levantamento também encontrou referências a códigos como “Jack”, “CPzeiro” e “menino do MEP”, além de slogans como “PROTEJAM AS CRIANÇAS” e “LULA NÃO TOQUE NAS CRIANÇAS”. Ao todo, 746 das publicações analisadas (43%) faziam acusações diretas de pedofilia ou, além de acusar Lula, incentivavam a propagação da alegação.
A narrativa já estava formada quando chegou a perfis de maior projeção política. Às 9h49 do dia 29, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um dos recortes e, às 10h23, divulgou um vídeo no qual reproduzia a frase de Lula e dizia: “Menina pequena não aprende a tomar toque nenhum, Lula!!!”.
Nikolas já havia sido associado anteriormente à “bolha da resenha”, o mesmo ecossistema digital em que circulam perfis que participaram dos experimentos com o Grok horas antes.
Em setembro de 2025, após o assassinato do ativista conservador americano Charlie Kirk, integrantes desse grupo celebraram publicações do deputado e disseram que ele havia “entrado na resenha”. Na ocasião, o parlamentar publicou uma variação do meme Pepe the Frog, um mascote channer.

O levantamento não indica que o deputado tenha participado dos experimentos recentes com o Grok ou da criação da acusação contra Lula. Ele aparece, porém, entre os primeiros políticos de grande alcance identificados no levantamento a impulsionar a narrativa, horas depois de ela começar a circular.
Pouco após as publicações de Nikolas na manhã do dia 29, expressões associadas à narrativa também ganharam espaço nos Assuntos do Momento do X. “PROTEJAM AS CRIANÇAS”, que aparecia em 28º lugar às 9h04 e chegou ao primeiro lugar às 11h15. No mesmo horário, “LULA NÃO TOQUE NAS CRIANÇAS” estava em quarto e “Pedófilo”, em 20º.
Na tarde de quarta-feira (30), o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) determinou que Nikolas remova em até 24h uma publicação no X sobre o tema. A ministra Estela Aranha argumentou que o deputado atribuiu à fala uma “conotação inteiramente diversa” da original, retirando-a do contexto de saúde pública para associá-la a crimes contra crianças e adolescentes.
De desinformação à conspiração
Após se tornar viral, a acusação falsa deixou de depender apenas da declaração feita em Belém. Perfis na rede passaram a recuperar episódios e personagens sem relação com a fala original para apresentar Lula como integrante de uma suposta rede ou círculo de pedófilos.

As teorias também chegaram aos grupos de Telegram e WhatsApp monitorados pelo Radar Aos Fatos. Além de dizer que Lula teria defendido ou “normalizado” a pedofilia em seu discurso, mensagens passaram a falar em uma “possível inclinação à pedofilia” e a apresentar episódios independentes como supostos indícios desse comportamento.
Uma dessas alegações explorou o fato de o discurso ter ocorrido em Belém (PA) para recuperar denúncias de exploração sexual de crianças no arquipélago do Marajó. “Uma coincidência geográfica e discursiva que, no mínimo, deveria provocar constrangimento e não aplausos”, afirma uma das mensagens.
Não há, porém, qualquer evidência de relação entre Lula e os crimes registrados na região. A violência sexual contra crianças e adolescentes no Marajó é um problema real e documentado, mas há anos é alvo de alegações falsas ou sem provas, como já explicado anteriormente por Aos Fatos.
Algumas das peças recuperam, por exemplo, declarações feitas em 2022 pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e afirmam que ela teria sido atacada por denunciar abusos no arquipélago.

Na ocasião, Damares disse ter recebido relatos de que crianças tinham os dentes arrancados para facilitar sexo oral e eram obrigadas a ingerir comida pastosa para facilitar sexo anal.
As denúncias não constavam dos registros dos órgãos de investigação consultados e o MPF (Ministério Público Federal) chegou a mover uma ação civil pública contra a então ministra por divulgar o que classificou como “falsas informações sensacionalistas envolvendo abuso sexual e torturas às crianças do Marajó”.
Com a ampliação da narrativa, usuários também recuperaram uma antiga controvérsia sobre o início do relacionamento entre Caetano Veloso e Paula Lavigne. A associação ganhou força no mesmo momento em que foi divulgado que “Gente”, canção do artista, seria usada em uma nova peça da campanha de Lula.
As publicações também passaram a associar Lula a Jeffrey Epstein, financista americano acusado de comandar uma rede de exploração sexual de menores. As peças usam como evidência um email atribuído a Epstein no qual ele afirma ter conversado por telefone com Lula, então preso em Curitiba, por intermédio do linguista Noam Chomsky.
O email existe, mas não comprova que a conversa tenha ocorrido. Valeria Chomsky, mulher do linguista, negou que ele tenha intermediado o contato. À época em que o email foi divulgado, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República disse que “a citada ligação telefônica nunca aconteceu”.
Um telefonema desse tipo também seria incompatível com as regras da carceragem da Polícia Federal onde Lula esteve preso, segundo especialistas consultados pela Folha de S.Paulo.
Uma citação ao petista em um email também não comprova uma relação entre eles. Outros políticos brasileiros já foram citados pelo empresário — inclusive o ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem Epstein já se referiu como “o cara”.
Menino do MEP. Também voltou a circular uma história que já havia sido explorada durante as eleições de 2022 e segundo a qual Lula teria admitido que tentou manter relação sexual à força com um companheiro de cela quando esteve preso, em 1980.
A alegação tem origem em um artigo publicado pelo cientista político César Benjamin na Folha de S.Paulo em 2009. No texto, ele afirmou que, durante uma conversa em 1994, Lula teria dito que “não vivo sem boceta” e, em seguida, narrado uma tentativa de “subjugar outro preso”, a quem chamava de “menino do MEP” — referência ao Movimento de Emancipação do Proletariado.
A história, porém, nunca foi comprovada. Cinco pessoas que estiveram presas com Lula ouvidas pela Veja em 2009 não apresentaram elementos que confirmassem o episódio. Elas confirmaram apenas que havia entre os presos um militante do MEP, identificado como João Batista dos Santos.
Procurado na época, ele não confirmou a acusação e disse que caberia a quem a fez apresentar provas.
O caminho da apuração
Aos Fatos teve acesso e verificou um monitoramento de 1.819 publicações únicas feitas no X entre os dias 28 e 29 de setembro para reconstruir a propagação da acusação de pedofilia contra Lula. Em seguida, a reportagem cruzou a análise com mensagens de grupos de WhatsApp e Telegram monitorados pelo Radar Aos Fatos para identificar como a acusação se expandiu para além da fala original.
Por fim, o Aos Fatos verificou separadamente as principais alegações utilizadas para sustentar as associações entre o petista e histórias envolvendo pedofilia. Para isso, a reportagem utilizou informações da imprensa e demais registros públicos envolvendo os casos citados.
Fonte: Núcleo Jornalismo