Como Luiz Alves, capital catarinense da cachaça, fatura com garrafas de até R$ 1.000 e Selo de Origem
Por Felipe Seffrin — Seu Dinheiro
Quem pensa em cachaça dificilmente faz alguma associação com Santa Catarina. Afinal, no assunto bebida, o estado é mais famoso pelas cervejarias artesanais e pela segunda maior Oktoberfest do mundo.
Mas a menos de 40 km de Blumenau fica uma cidadezinha que desafia essa lógica. Luiz Alves, a Capital Catarinense da Cachaça, tem uma destilaria para cada 1.011 habitantes.
Com uma população de apenas 12.132 pessoas, esse pequeno município no Vale Europeu possui 12 destilarias registradas no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
A produção anual chega a 1 milhão de litros por ano. No roteiro turístico, 10 alambiques familiares compõem a Rota da Cachaça e colecionam premiações nacionais e internacionais. Os rótulos podem chegar a R$ 1.000.
A alusão à bebida está em todos os cantos da cidade. Em placas que demarcam a Rota da Cachaça e em outdoors de cada um dos alambiques celebrando suas conquistas e títulos mundo afora.
Na barraquinha à beira da estrada, o cartaz não anuncia pastel e caldo de cana, e sim banana e cachaça — o município é também o 4º maior produtor da fruta no país.
Apesar da quantidade de alambiques que chama a atenção, o diferencial está na qualidade. Ao lado de Paraty (RJ), Luiz Alves é uma das únicas cidades do Brasil a ter um selo de Denominação de Origem (DO) para a produção de cachaças e aguardentes concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
“Esse processo todo de certificação durou mais de quatro anos”, diz Orécio Rech, presidente da Associação dos Produtores de Cachaça Artesanal de Luiz Alves (APCALA) e proprietário do Alambique Rein.
Ele conta que as análises de laboratório identificaram na levedura Saccharomyces cerevisiae usada na região uma genética preservada em mais de 150 anos de tradição.
A cana-de-açúcar da região também é nativa. Além disso, fatores geoclimáticos e o processo artesanal de produção, passado de geração em geração, deram à cidade o cobiçado selo.

Origem europeia e resistência da cachaça
A produção de cachaça em Luiz Alves remonta ao início do século XIX, com a chegada à região dos primeiros imigrantes europeus, principalmente alemães.
Na época, a produção de açúcar era uma das principais atividades do município e algumas famílias começaram a usar o excedente da cana-de-açúcar para a destilação caseira, primeiramente para consumo próprio.
Imigrantes com conhecimento na fabricação de destilados adaptaram suas receitas à matéria-prima local e desenvolveram uma técnica que cria uma base de “melado de cana” que caracteriza até hoje a produção da cachaça local.
Os ciclos econômicos mudaram, e as plantações de banana avançaram pelo território do município. A bananicultura responde hoje por mais de 90% da economia agrícola local, movimentando R$ 295,8 milhões ao ano de acordo com a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) do IBGE.
Mas mesmo com essas mudanças na economia local, a cachaça resistiu, maturando em barris de carvalho.
Mais do que a monocultura em Luiz Alves, o principal desafio segundo o líder dos donos de alambiques da região está nos impostos.
“A maior questão está na carga tributária, que é alta para o nosso produto. A gente produz uma cachaça de qualidade superior, mas o custo dessa produção também acaba sendo mais alto”, desabafa Orécio.
Ele explica que um produto que sai do alambique custando R$ 100 vai a R$ 180 no distribuidor. Com os custos de logística, seguro e margem de lucro, o preço final para o consumidor pode ser até três vezes maior que o valor original.
“E ainda tem a questão da reforma tributária, que impacta muito o nosso setor, né”. O presidente da APCALA reclama que, sem saber ao certo qual será a alíquota cobrada sobre as cachaças, os produtores estão vivendo em um cenário de muita cautela, “sem ver luz no fim do túnel”.
Com a implementação gradual da Reforma Tributária a partir de 2027, o IPI dará lugar ao Imposto Seletivo, o “Imposto do Pecado”.
Alíquotas progressivas vão incidir conforme o teor alcoólico das bebidas e ainda será aplicada uma porcentagem sobre o valor final (ad valorem). Um golpe duplo para as cachaças premium envelhecidas por anos, cujo teor alcoólico varia de 38% a 48%.
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Segredo de Luiz Alves está na diferenciação
Por mais que a herança familiar europeia seja a base da produção de cachaça local, cada alambique soube cultivar suas próprias características.
Em uma cidade com muita cachaça para pouca gente, essas diferenças evitam a canibalização.
No Alambique Wruck, por exemplo, o foco maior está em cachaças especiais envelhecidas.
“Somos uma empresa familiar bem restrita, com poucos funcionários. Nossa visão é de cachaça de qualidade, sem pensar em quantidade”, destaca Robson Wruck, 54, da terceira geração da família de cachaceiros — no bom sentido.
“Nossa história começou em 1936, quando meu avô, o senhor Otto Wruck, começou a produção. E em 1942 ele registrou a Wruck”, conta.

Hoje, Robson administra o alambique ao lado do irmão Denílson e seus filhos também apoiam o negócio. “Eu sempre trabalhei com cachaçada. Nasci praticamente dentro do alambique”, brinca.
O cheiro doce do melado e característico da cachaça aparece antes mesmo de o visitante entrar na loja da Wruck. Toda a produção é feita ali, da moagem da cana à fermentação, da destilação ao envelhecimento, até chegar a hora do envase.
A produção média varia entre 80 e 100 mil litros de cachaça por safra, e o valor das garrafas vai de R$ 40 a R$ 1.000 — uma edição especial em comemoração aos 80 anos do alambique, envelhecida há 18 anos e com apenas 250 garrafas numeradas.
Na Wruck, os principais clientes são empórios, restaurantes e lojas especializadas, além, é claro, do turista que chega à loja de fábrica.
E a concorrência com os alambiques vizinhos não atrapalha. Pelo contrário. “Quanto mais alambiques na cidade, mais isso é divulgado, mais o nosso negócio é procurado. Todo mundo ganha.”

Cachaças, licores e linhas saborizadas
A poucos quilômetros dali a Cachaçaria Spézia tem uma proposta bem diferente. “A gente não trabalha só com a cachaça em si. Também temos uma grande linha de licores e coquetéis alcoólicos”, explica Thais Spézia, de 35 anos, representante da quarta geração da família no negócio.
Além de bebidas premium, como uma cachaça envelhecida de 35 anos que já ganhou 11 medalhas e foi eleita a melhor do mundo na Bélgica (R$ 520), a empresa aposta na diversificação. O portfólio ultrapassa os 70 produtos.
“Fomos pioneiros na criação da primeira cachaça de banana de Luiz Alves”, ressalta Thais. Hoje, a marca mescla produtos envelhecidos, aguardentes puras e compostas e coquetéis alcoólicos de sabores como café, gengibre e milho ao módico valor de R$ 17.

Outra linha importante, para quem gosta de bebidas mais docinhas, é a de licores finos e cremosos. O de crème brûlée com doce de leite é o campeão de vendas nesse segmento. “Já estamos com 77 anos de história e continuamos com esse legado da família com muito orgulho.”
Com uma produção em maior escala de 40 mil litros em média por mês, a Spézia consegue atender o varejo supermercadista. Entre os principais compradores estão redes em Santa Catarina, Paraná e São Paulo, como Angeloni, Comper e Koch.
Thais conta que 2026 tem sido um ano meio atípico, em que as vendas estão mais fracas que em anos anteriores, mas se apega à tradição das bebidas da cidade.
“Pelo que a gente conversa entre os produtores, a situação está mais devagar para todo mundo. Mas eu vejo um movimento das pessoas beberem menos, porém bebendo melhor, buscando algo com qualidade, com procedência. E isso beneficia quem tem tradição como nós aqui em Luiz Alves.”

Foco em produtos premium
Em termos de volume, a produção brasileira de cachaças e aguardentes vem encolhendo. O último Anuário da Cachaça (ano-base 2025) registrou uma queda de 11,5% na produção nacional, que caiu de 265 milhões de litros para 234,48 milhões de litros.
A Região Sul foi a que apresentou a maior retração na produção da bebida, com queda de 28,24%, justificada pela mudança no perfil dos alambiques locais para rótulos com maior valor agregado.
Se a Spézia produz mais de 40 mil litros por mês, o Alambique Rein não chega a essa quantidade em um ano.
O foco da empresa está em bebidas premium, aproveitando somente o “suprassumo” de cada safra. O portfólio é menor, mas o ticket médio é elevado: R$ 160.
O alambique foi fundado em 2011, a partir da tradição da família Rech, que batiza várias ruas na cidade e que administra também a Destilaria Rech.
“Essa herança vem de 1925, quando meus antepassados alemães imigraram para cá e começaram a produzir a bebida”, conta Orécio Rech.
Segundo o proprietário da Rein, o intuito com a formalização do negócio em 2011 foi “modernizar e levar o patamar da cachaça produzida pela família a outros níveis”. O próprio nome Rein significa “pura” em alemão.
Até as garrafas são exclusivas. “A gente tem o domínio desde o vidro que mandamos fundir na China à matéria-prima que também é nossa. Toda a elaboração da bebida é feita na nossa fábrica.”

Os principais clientes da Rein são lojas especializadas e “boutiques de bebidas”, principalmente em São Paulo, Paraná e Minas Gerais. Já os turistas que chegam à loja estão mais comedidos.
“A venda este ano está um pouco menor. O cliente que comprava três garrafas agora está comprando duas”, relata. “Mas ele não abriu mão nem do produto nem da qualidade.”
Luiz Alves também é sede de outras cachaçarias tradicionais, como o Alambique Schoepping, um dos mais antigos, cuja produção artesanal começou em 1916 e foi registrado em meados da década de 30.
No Alambique Bylaardt, de 1943, a história começou com o imigrante holandês Wilibaldo Van Den Bylaardt.
E em todas elas o sentimento é de cooperação, mais do que concorrência com os alambiques vizinhos.
“Com só uma cachaçaria, não se cria um roteiro da Rota da Cachaça, né”, indaga Orécio. “Essa convivência é muito saudável. Os turistas e importadores acabam vindo para a nossa cidade, justamente por terem mais opções.”
Se o consumo de bebidas alcoólicas está oscilando no país, por mudanças de comportamento e questões econômicas, os alambiques de Luiz Alves apostam na tradição e na qualidade de uma cachaça que pode até ser similar a outras pelo país, mas é certificada como sendo, orgulhosamente, feita apenas ali.

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Fonte: Seu Dinheiro