Como demonstrou Dino, não podemos naturalizar a violência, mesmo a institucional
Por Milton Rondó — Carta Capital
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Diplomata
Violência combate-se e retifica-se. Por fim, restitui-se a justiça ao injustiçado
“Em Recife, onde morei até doze anos de idade, havia muitas vezes nas ruas um aglomerado de pessoas diante das quais alguém discursava ardorosamente sobre a tragédia social. E lembro-me de como eu vibrava e de como eu me prometia que um dia esta seria a minha tarefa: a de defender o direito dos outros. No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei como uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco” – Clarice Lispector
Muitas vezes me pergunto: viajar serve?
Tenho dúvidas – sempre mais.
Por exemplo, no momento político nada civilizado que o mundo vive, serve a memória de um país em que os presidentes dos partidos que se opunham eram convidados de honra e compareciam às convenções partidárias uns dos outros?
Esse país era a Itália, em que conviviam o maior partido comunista do Ocidente, o Partido Comunista Italiano (PCI), a Democracia-Cristã (DC), que detinha o poder ininterruptamente desde o final da Segunda Guerra, além de outros partidos, como o Partido Socialista Italiano (PSI).
Pois bem, na Convenção do PCI, assim como naquelas da DC e do PSI, sentavam na primeira fila os presidentes dos partidos de oposição, uma deferência que guardava enorme simbolismo de como a luta democrática devia ser travada: com civilidade e respeito, em primeiro lugar.
De fato, há coisas que a esquerda pode fazer, sem esperar ser correspondida: por exemplo, o convite proposto acima teria sido do melhor augúrio, mas a oportunidade perdida pode ser retomada no futuro.
No plano coletivo, como naquele interpessoal, convém primar pela cordialidade, ainda que o opositor seja um vende-pátria, que quer entregar as riquezas nacionais a outro país e estrangular a classe trabalhadora, sem reajustes salariais ou de aposentadorias e pensões, como fará Flávio Bolsonaro, caso vença as eleições.
Porém, até que ponto valorizamos a imagem real, aquela que reflete a realidade?
No plano pessoal, muito pouco.
Preferimos a imago à própria felicidade, sendo mais importante não ferir o ego do que aprender com o erro, retificá-lo e, assim, chegar à plenitude possível na Terra.
No plano coletivo, isso também ocorre.
A imagem é colocada à frente do grupo, sem que haja possibilidade de retificação.
Em O inconsciente explicado ao meu neto (editora UNESP), Élisabeth Roudinesco aprofunda a reflexão sobre nós, humanos:
“Os animais obedecem às leis da natureza. Em nenhum momento eles sentem prazer em matar. Só os humanos cometem crimes, organizam massacres ou inventam torturas para provocar sofrimento nos seus semelhantes. Só os humanos humilham os animais, tingindo-lhes o pelo, cortando-lhes as patas ou as asas, fazendo-os usar óculos para caçoar deles, treinando-os para matar. Só os humanos são capazes das piores perversões”.
Portanto, as soluções estão dentro, não fora de nós.
Mesmo no que tange a algo tão oculto quanto o nosso inconsciente, Roudinesco nos remete ao pai da psicanálise que nos orienta na interpretação dos sonhos: “Freud…pede que o próprio sonhador o comente. A verdade do sonho surge, então, de um diálogo entre aquele que sonha e aquele para quem o sonho é relatado”.
Na mesma obra, ela complementa:
“Freud aboliu a ideia que o pensamento estaria dividido em dois, como dissera Descartes. Ele eliminou as fronteiras entre a razão e a loucura e mostrou que somos ao mesmo tempo racionais e irracionais, e que existe uma continuidade entre o corpo e a alma. Cada um de nós é, ao mesmo tempo, um adulto e uma criança, um doente e uma pessoa saudável, um selvagem e um civilizado, um criminoso e um herói, um artista e um tirano. Nós não somos divididos em dois, mas somos algo e, concomitantemente, seu contrário. Não somos um objeto com duas facetas bem definidas, mas um cruzamento onde transita todo tipo de forças contrárias que é preciso controlar. Essas forças são chamadas de pulsões, isto é, de cargas energéticas que tanto podem nos destruir como nos impelir na direção do amor, da arte, da beleza, da criação…E Freud acentuou esse reinado do inconsciente ao definir depois essas três regiões com os seguintes nomes: id, superego e ego. Ele eliminou, portanto, a ideia de que o sujeito está dividido em dois (Descartes) e assimilou a alma (de Platão) ao inconsciente”.
Com efeito, embora admitindo que somos — ao mesmo tempo — luz e sombras, tal qual uma pintura de Caravaggio, não podemos naturalizar a violência, como demonstrou o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino ao restaurar a chefia da Polícia Federal, que fora esbulhada pelo colega André Mendonça.
Violência não se normaliza, seja aquela interpessoal, seja aquela institucional e a internacional.
Ao contrário, combate-se, retifica-se, restitui-se a justiça ao injustiçado.
Em A coragem de não agradar (editora Sextante), Ichiro Kishimi e Fumitake Koga recordam:
“A coragem de ser feliz também inclui a coragem de ser detestado e de agir sem se preocupar em satisfazer as expectativas dos outros. Quando você adquire essa coragem, seus relacionamentos ganham uma nova leveza…Resumindo, liberdade é ser detestado por outras pessoas”.
Na defesa de ser livre, muitos obstáculos se interpõem, da manipulação interpessoal até o colonialismo internacional. Cabe a nós superá-los, denunciando as injustiças e protegendo, promovendo e provendo a justiça, entre as pessoas, os povos e as nações.
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Fonte: Carta Capital