Com as bênçãos do Congresso e da imprensa, Flávio Bolsonaro quer terra arrasada
Por Isabella Mota — Intercept Brasil
É assustador saber que quase metade da população apoia o grupo político que passou os últimos anos enfiando a faca no pescoço da democracia.
A turma que planejou o assassinato de um presidente eleito e tramou um golpe de estado recebeu amplo apoio nas urnas. Dominou as casas legislativas do país, abocanhou quase metade dos governos estaduais e seu candidato à presidência é o favorito para ganhar.
Nem a prisão do principal líder golpista brecou o sucesso eleitoral do bolsonarismo, que se consolidou como uma força popular. A direita hoje é eleitoralmente irrelevante, já que foi quase que completamente engolida pela extrema direita. Hoje, a única polarização que existe é entre democratas e golpistas.

‘E daí?’: a naturalização da tentativa de golpe
Nos últimos oito anos presenciamos uma infinidade de selvagerias promovidas pelo bolsonarismo e, mesmo assim, eles continuam tendo grandes vitórias nas urnas. A corrente política que pretende destruir a democracia foi completamente legitimada no jogo político. Esse é um dado da realidade com o qual temos que lidar.
Valdemar Costa Neto, que é presidente da maior potência eleitoral do país, o PL, tem ficado à vontade para confessar que houve uma tentativa de golpe no fim do governo Bolsonaro:
“Discutiram de dar o golpe, mas não deram o golpe. E daí?”.
Se Flávio Bolsonaro for eleito, o golpismo e o espírito do fascismo voltarão a dar as cartas no país. Não se trata de suposição. É uma promessa de campanha. Nesta semana, o filho de Jair prometeu alterar a Constituição para “redemocratizar” o país.
“O Brasil já me deu um Congresso muito mais à direita do que ele já é hoje. Com maioria no Senado para fazer o presidente do Senado, com maioria na Câmara para fazer o presidente da Câmara. Para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar este país, para as instituições voltarem a respeitar a Constituição“, disse Flávio em Goiás ao lado de Ronaldo Caiado.
Com maioria no Congresso, Flávio conseguirá passar o trator na Constituição
O uso da palavra “redemocratizar” é onde mora o pulo do gato. Flávio é da turma que chama o Golpe de 64 de “revolução”, então é fácil imaginar o que significa essa democratização.
Na última vez que essa turma alterou a Constituição, a democracia ficou décadas na escuridão. Jair Bolsonaro também quis reescrever a carta magna durante o seu governo. À época, o líder do governo na Câmara defendeu uma nova Constituição com mais deveres e menos direitos aos cidadãos.
‘Se Jair Bolsonaro já fez barbaridades mesmo tendo dificuldades para formar maiorias no Congresso, Flávio passará o trator com certa tranquilidade’.
A coisa não foi para a frente com Jair, mas com Flávio as condições materiais serão outras. Ele não vai precisar de tanque, nem de um cabo e um soldado. Para “redemocratizar” o país, ele terá apoio massivo do legislativo, de um judiciário aparelhado e o aval das urnas.
Se Jair Bolsonaro já fez barbaridades mesmo tendo dificuldades para formar maiorias no Congresso, Flávio passará o trator com certa tranquilidade.
O projeto em curso não visa apenas sequestrar a democracia, mas sobretudo interromper as investigações contra Flávio e livrar Vorcaro e toda a família Bolsonaro da cadeia.
Uma vitória de Flávio dará a eles a possibilidade de tentar reescrever a história recente do país. A tentativa de golpe passará a ser um passeio no parque. A prisão de Bolsonaro será tratada como injustiça. As lideranças golpistas serão soltas. O aparelhamento do STF será tratado como a salvação moral do tribunal. O estado será usado para perseguir adversários políticos.
Todos os absurdos ocorridos no governo Bolsonaro serão repetidos e maximizados. E, assim, a democracia vai morrendo.

A ‘escolha difícil’ dos barões da mídia
É preciso registrar o papel lamentável que a grande imprensa brasileira tem cumprido nesta eleição. Está se repetindo a mesma postura trágica e isentona de 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito.
Naquele ano, entrou para a história o editorial do Estadão intitulado “Uma escolha muito difícil”, que tratava da dificuldade do eleitor em escolher um dos candidatos.
‘A esta altura do campeonato, não é razoável tratar essa postura como ingenuidade, mas como cumplicidade com o golpismo’.
Os donos do jornal consideraram muito difícil a escolha entre um professor com reputação ilibada, com grandes serviços prestados à democracia, e um ex-militar golpista que construiu carreira como deputado sem nenhum projeto significativo aprovado e com acusações de praticar rachadinha, além de continuamente atacar a democracia.
Essa dúvida, replicada por outros editoriais e por parte do colunismo nacional, endossou a candidatura antidemocrática e ajudou a pavimentar o caminho para o movimento golpista de 8 de Janeiro.
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Neste ano, os donos da Folha escreveram que “o país está diante de uma escolha difícil entre um duro ajuste dos gastos públicos e o risco de agravamento do estresse financeiro”.
É estarrecedor constatar que, depois dos quatro anos de escuridão do governo de Jair Bolsonaro, a preocupação do maior jornal no país não seja o fim da democracia, mas os gastos públicos.
Democracia versus barbárie
A esta altura do campeonato, não é razoável tratar essa postura como ingenuidade, mas como cumplicidade com o golpismo. O jornalismo corre o risco de voltar para o cercadinho, mas essa não é uma preocupação central dos barões da imprensa.
O futuro que está pintando no horizonte é tenebroso, mas não inevitável. A esquerda e o campo democrático têm a possibilidade de reverter o quadro no segundo turno. Não será fácil. A extrema direita capturou o imaginário de metade do país e desarmar essa bomba não é tarefa simples.
Não há margem para erros e a vitória nas urnas só acontecerá com intensificação do trabalho de base, ocupação das ruas e coragem para dar nome aos bois. Mais do que nunca, esta é uma eleição plebiscitária entre democracia e barbárie. Isso precisa ficar claro para o eleitorado.
Lula é o candidato da esquerda, da direita e do centro. Flávio é a extrema direita que pretende enfraquecer as instituições para defender os interesses privados da sua família e do governo dos EUA. Reeleger Lula é uma questão de sobrevivência para os democratas.
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Fonte: Intercept Brasil