Coligação de Lula pede direito de resposta após Veja reiterar acusação falsa sobre áudios de Vorcaro
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – A coligação Brasil Pronto pra Mais, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apresentou neste sábado (17) ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma nova petição para exigir a apreciação imediata do pedido de direito de resposta contra a revista Veja, acusada de divulgar e manter em seu portal informações falsas ou não comprovadas sobre supostas declarações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
No documento encaminhado ao presidente do TSE, ministro Nunes Marques, os advogados de Lula sustentam que a publicação continua servindo de base para acusações eleitorais, apesar dos desmentidos da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR). A defesa pede a retirada da reportagem e de duas publicações relacionadas no Instagram em até 12 horas ou, alternativamente, a inclusão de um aviso destacado com as manifestações oficiais dos órgãos de investigação.
A manifestação foi protocolada no processo nº 0602772-67.2026.6.00.0000, iniciado em 9 de outubro. Segundo os advogados, o pedido de urgência está pronto para julgamento desde que a editora Abril Comunicações apresentou sua defesa, mas ainda aguarda decisão, embora a legislação eleitoral estabeleça prazo de 72 horas para a apreciação de pedidos de direito de resposta.
O prazo mencionado pela coligação terminou em 12 de outubro. Com o segundo turno presidencial marcado para 25 de outubro, os representantes de Lula argumentam que a demora compromete a possibilidade de reparar os efeitos da publicação antes da votação.
Polícia Federal e PGR desmentem versão divulgada pela revista
Um dos principais argumentos da coligação é que a reportagem atribuiu a Daniel Vorcaro informações que, segundo as autoridades responsáveis pela investigação, não foram apresentadas formalmente à Polícia Federal.
Na petição, os advogados reproduzem manifestação da PF segundo a qual o ex-banqueiro “não prestou depoimento com o teor relatado na matéria, tampouco entregou à instituição anexos, documentos ou informações com o conteúdo ali descrito”.
A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, registrou que “não houve depoimento oral”, conforme documento citado pela defesa presidencial.
Os advogados também afirmam que os responsáveis por um documentário relacionado ao cineasta Oliver Stone negaram ter recebido recursos de Vorcaro. Outro ponto contestado diz respeito à suposta aplicação de dinheiro de fundos de pensão federais no Banco Master. Segundo a petição, nenhuma dessas entidades realizou os investimentos mencionados nas acusações.
A própria reportagem, conforme destaca a defesa, reconheceu que o banqueiro “seguiu sem conseguir captar recursos nos fundos federais”.
Defesa questiona perícia apresentada pela Veja
A coligação também contesta a utilização de um parecer técnico particular apresentado pela revista para sustentar a autenticidade dos áudios atribuídos ao ex-banqueiro.
Segundo os advogados, o documento não examinou diretamente o arquivo publicado pela Veja, que teria passado por cortes admitidos pela própria editora. A análise teria sido realizada sobre cinco mensagens de WhatsApp exportadas em 9 de outubro, depois da divulgação da reportagem, sem acesso ao aparelho original.
O parecer, de acordo com a petição, concluiu que a voz registrada era compatível com a de Daniel Vorcaro, mas não avaliou a veracidade das declarações atribuídas a ele.
“Gravação autêntica de um relato não torna o relato verdadeiro”, argumenta a defesa.
Os representantes do presidente sustentam ainda que a revista acrescentou atualizações com manifestações da PGR e de Augusto Lima, mas deixou de incluir a nota da Polícia Federal que contradiz diretamente a narrativa apresentada.
Marco Aurélio de Carvalho aponta tentativa de fabricar delação
A controvérsia também provocou uma manifestação do advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas e um dos coordenadores da campanha presidencial de Lula.
Em nota repercutida pelo Brasil 247, o jurista questionou a nova capa da Veja, baseada em declarações de Natália Vorcaro, irmã do ex-banqueiro, e afirmou que a sequência de publicações levanta suspeitas de uma tentativa de construir artificialmente uma delação premiada com objetivos eleitorais.
“A nova capa da revista Veja, baseada em declarações de Natália Vorcaro, irmã do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, reforça as suspeitas de uma tentativa de construir artificialmente uma delação premiada do ex-banqueiro, com claros objetivos eleitorais, para favorecer Flávio Bolsonaro e assim obter sua liberdade”, afirmou.
Segundo Marco Aurélio, a revista passou a explorar declarações de Natália sobre a disposição do irmão de falar às autoridades, depois de divulgar uma gravação editada do ex-banqueiro.
O advogado considera que a exposição dessas informações pode estar relacionada a uma estratégia para atingir eleitoralmente Lula e beneficiar seu adversário na disputa presidencial.
“Mais grave é a insistência da revista Veja em acusações sobre supostos investimentos de fundos de pensão federais, que jamais ocorreram, como a própria reportagem evidencia”, declarou.
Marco Aurélio também destacou que uma eventual colaboração premiada precisa estar fundamentada em elementos concretos, e não em expectativas construídas por reportagens.
“Veja não vai conseguir uma delação de Daniel Vorcaro com armações midiáticas. Uma colaboração com a Justiça exige fatos, documentos e provas. Não nasce de manchetes, insinuações ou declarações de familiares utilizadas para antecipar uma narrativa acusatória.”
Para o jurista, o uso eleitoral de acusações não comprovadas exige atenção das autoridades competentes, sem prejuízo da liberdade de imprensa.
“Delação não se fabrica em capa de revista. Acusação não substitui prova. E o processo eleitoral brasileiro não pode ser manipulado para atender a interesses políticos ou particulares”, concluiu.
Acusações voltaram a ser utilizadas na campanha eleitoral
Na petição ao TSE, a defesa de Lula afirma que o conteúdo da Veja continuou sendo utilizado por adversários políticos mesmo depois das manifestações oficiais que contestaram as informações.
O documento menciona um vídeo divulgado pelo candidato a vice-presidente da chapa adversária, no qual foi afirmado que Lula “exigiu um bilhão de reais e dinheiro adiantado que recebeu”.
O ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, determinou liminarmente a remoção do vídeo. Segundo a decisão citada pelos advogados, a publicação “converte em certeza o que seria relato atribuído a terceiro, e que ainda não foi confirmado”.
A decisão também registrou que a afirmação estava “contrariada pelas manifestações oficiais dos órgãos responsáveis pela investigação”.
Em outro procedimento relacionado ao mesmo vídeo, a Procuradoria-Geral Eleitoral manifestou-se favoravelmente ao direito de resposta. O órgão observou que a acusação derivava de um relato de terceiro, apresentado em proposta de colaboração premiada rejeitada, com referências condicionais aos valores mencionados.
A coligação sustenta que o mesmo mecanismo de transformar alegações não comprovadas em afirmações categóricas voltou a ocorrer em 16 de outubro, durante entrevista do candidato adversário à TV Globo.
Na ocasião, o presidenciável afirmou que João Vaccari Neto, associado por ele ao Instituto Lula, teria participado de uma negociação envolvendo R$ 1 bilhão em investimentos de fundos de pensão federais no Banco Master e a cobrança de uma suposta propina de 10%.
Ao ser advertido pela entrevistadora de que a emissora não trataria como fatos informações ainda não confirmadas por seu jornalismo, o candidato afirmou que a acusação estava “confirmado pela Polícia Federal”.
A defesa presidencial contesta essa declaração e ressalta que a PF havia informado justamente não ter recebido o depoimento ou os documentos descritos na reportagem.
Os advogados também apontam que a referência a R$ 1 bilhão aparecia originalmente como hipótese, enquanto a taxa de 10% era apresentada como um relato atribuído ao banqueiro. Na entrevista, segundo a petição, essas informações foram transmitidas ao eleitorado como se representassem fatos comprovados.
Coligação pede retirada da reportagem antes do segundo turno
A manifestação apresentada neste sábado reforça o pedido de tutela de urgência e solicita que o TSE determine a exclusão da reportagem digital e de duas publicações que reproduzem seu conteúdo no Instagram, no prazo de 12 horas, sob pena de multa diária.
Caso a retirada não seja determinada, a coligação requer que a revista publique imediatamente, no início do texto, um aviso em destaque com o conteúdo das notas da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.
A defesa também pede que o Ministério Público Eleitoral seja ouvido no prazo de um dia e que o mérito do direito de resposta seja julgado antes do segundo turno.
Para os advogados, a permanência da reportagem no portal da Veja permite que as acusações continuem sendo reproduzidas durante a reta final da campanha, inclusive no debate presidencial previsto para 23 de outubro.
“Cada dia de demora reduz o alcance útil da resposta”, afirma a petição.
A revista, conforme relatado no processo, apresentou contestação e parecer técnico particular em defesa da publicação, além de sustentar que incorporou manifestações recebidas em atualizações do conteúdo digital.
Fonte: Brasil 247