Coleta de sementes fortalecem agroecologia e conservação da biodiversidade na Bacia do Vale do Rio Doce

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Por Daniel Levi — Combate Racismo Ambiental

A iniciativa, além de promover a agroecologia na região, movimenta também o processo formativo e a dinâmica comunitária nos assentamentos

Por Iris Pacheco, em MST

Muito antes de uma semente chegar ao solo, existe um conhecimento construído no território. Saber reconhecer uma árvore, identificar o momento certo da coleta, selecionar, beneficiar e conservar cada espécie são aprendizados que passam de geração em geração e ganham novos sentidos quando construídos de forma coletiva.

Na Bacia do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, esse conhecimento vem sendo fortalecido pela organização de grupos de coletoras e coletores de sementes nativas. A iniciativa integra o Programa Popular de Agroecologia e articula famílias assentadas em torno da conservação da biodiversidade, da restauração ecológica e da produção de sementes para os próprios territórios.

Atualmente, são oito núcleos de coletoras e coletores organizados nos territórios da Bacia do Rio Doce. Os grupos estão presentes nos assentamentos Belo Monte, Santa Martha e Santa Maria Monalisa, por meio do Núcleo AJUDAR; no Assentamento Ulisses Oliveira, com o Núcleo Maritacas; nos assentamentos Manoel Ferreira e Janetes Teles, com os Núcleos Maracanã e Sabiá; além dos núcleos organizados nos assentamentos Egídio Brunetto, Roseli Nunes, Iraguiar e Primeiro de Junho.

As áreas de atuação estão distribuídas pelos municípios de Jampruca, Resplendor, Santa Maria do Suaçuí e Tumiritinga, reunindo mais de 400 coletoras e coletores envolvidos nas etapas de identificação, coleta, beneficiamento e conservação de sementes nativas nos territórios.

No Assentamento Egídio Brunetto, em Jampruca, a experiência de Ana Maura mostra como a coleta de sementes também é um processo de formação. Assentada e coletora, ela conta que foi aprendendo a partir da própria prática, observando os ciclos das árvores e descobrindo o momento adequado para colher cada espécie. “Foi aprendendo com o fazer, com o tempo de colheita de cada tipo de árvore”, explica.

Daniele, também assentada no Egídio Brunetto e ponto focal administrativo dos coletores, acompanha de perto esse processo. Ela lembra que, quando começaram, muitas pessoas ainda não sabiam identificar as sementes ou reconhecer suas espécies. “Antes a gente convivia com tudo isso, mas não sabia para que servia. Hoje a gente sempre separa da própria semente para fazer nossas mudas para plantio em nosso lote. Hoje eu colho jatobá dentro do meu lote, que eu plantei”.

Esse conhecimento, que antes permanecia principalmente dentro de cada lote, passa a circular entre as famílias. O levantamento das espécies e a organização dos grupos permitem que uma pessoa contribua com o conhecimento da outra, fortalecendo uma metodologia baseada na troca de experiências entre camponeses. Esse processo também recupera uma prática que já fazia parte da vida das famílias: guardar sementes para plantar. E faz com que fortaleça a iniciativa dos guardiões de sementes crioulas.

A diferença está na dimensão coletiva que a atividade ganhou. No início, segundo Ana, havia descrença sobre o potencial da iniciativa. A partir de 2022, porém, o grupo foi se estruturando, enfrentando os primeiros desafios e ampliando a participação. Hoje, no Egídio Brunetto, 27 pessoas estão vinculadas ao grupo de coletores, sendo 15 ativas. Na última entrega, realizada em agosto, 13 famílias participaram diretamente da coleta, reunindo mais de meia tonelada de sementes de 38 variedades.

Mais do que o resultado financeiro, a assentada destaca o conhecimento adquirido ao longo do processo. “Um monte de árvore que eu tinha na minha casa eu não conhecia. Além do financeiro, é o conhecimento”. Ela também ressalta a dimensão coletiva da experiência, especialmente em um assentamento marcado pela presença de pessoas idosas. “O mais bonito é que o Egídio é um lugar de idosos e todos participam. A experiência de coletar no coletivo é melhor que sozinho, nos une mais.”

A organização dos coletores também movimentou a própria associação do assentamento. As reuniões, atividades de campo e momentos de convivência passaram a fazer parte da dinâmica comunitária. Os grupos passaram a organizar momentos de capacitação, encontros para avaliar as dificuldades e grupos de afinidade que realizam as atividades de campo coletivamente. A formação acontece junto com a prática.

Sementes que geram organização e renda

No assentamento Manoel Ferreira, o Núcleo Maracanã reúne mais de 20 coletores. Segundo Leonardo de Oliveira, assentado e integrante do grupo, desde 2024 as famílias vêm ampliando a organização para realizar a coleta tanto individualmente quanto em coletivos.

“Lá funciona através da associação. Temos mais de 20 coletores que, desde 2024, trabalham em família e/ou com um coletivo mais ampliado”. O grupo trabalha com mais de 20 espécies e variedades de sementes e mantém uma dinâmica de formação e organização dos coletores.

Segundo Leonardo, a atividade também representa uma possibilidade de renda complementar para as famílias assentadas. “Deu uma renda extra para as famílias, principalmente para as mulheres, que conquistaram muitas coisas através das sementes”.

A experiência também tem contribuído para recuperar conhecimentos que haviam se perdido ou que ainda não eram reconhecidos pelas próprias famílias. “Muitas pessoas não tinham conhecimento sobre nome, espécie e como tratá-la”. Para Lucinha Sem Terra, assentada e integrante do Núcleo Maritacas, porém, o significado da atividade vai além da comercialização. “Nós, as mulheres, vemos as sementes em outra perspectiva de vida. Eles [os homens] veem somente como o financeiro, e isso traz muitos desafios para o grupo”.

Ela reforça que a coleta deve ser compreendida como uma atividade complementar dentro da vida das famílias assentadas. “A coleta de sementes não pode ser nossa principal renda. Nós somos assentadas. Ela tem que ser uma renda que vem para ajudar em todo esse processo”.

Assim, a coleta de sementes articula diferentes dimensões: conhecimento, organização comunitária, conservação ambiental e geração de renda.

Mulheres na conservação da biodiversidade

A participação das mulheres é uma das marcas desse processo. A experiência do Grupo de Mulheres Coletoras do Núcleo Maritacas, no Assentamento Ulisses Oliveira, fortalece a organização das mulheres na coleta e conservação da biodiversidade e amplia sua participação nas estratégias de restauração ecológica desenvolvidas nos territórios.

Segundo Lucinha, a coleta veio somar a práticas que já faziam parte do cotidiano das famílias. “A coleta de sementes veio somar naquilo que a gente já fazia, de plantar mudas, fazer viveiro de fundo de quintal. A possibilidade de colher nossa própria semente, de marcar nossas matrizes e reconhecer essas matrizes é muito importante”.

A organização coletiva é uma característica central da experiência. “A gente só anda em bando”, conta Lucinha, referindo-se à articulação entre as Maritacas, as Abayomi e o Núcleo de Agroecologia Jequitibá. O grupo também cresceu ao longo do processo.

Segundo Lucinha, depois da primeira entrega, a atividade passou a despertar maior interesse no território. “De sete passou para 17 e hoje estamos com 64 famílias”. Atualmente, o grupo Maritacas trabalha com cerca de 60 variedades de sementes de árvores nativas da Mata Atlântica.

Da semente à restauração dos territórios

A organização dos grupos de coleta está diretamente relacionada às ações de restauração ecológica desenvolvidas na Bacia do Vale do Rio Doce. As sementes coletadas nos próprios territórios retornam para a terra por meio de viveiros, plantios e técnicas como a muvuca de sementes, contribuindo para a regeneração natural e a recomposição da vegetação nativa.

Nesse processo, a coleta deixa de ser compreendida apenas como uma atividade de retirada de sementes da natureza. Ela envolve o reconhecimento das árvores matrizes, a conservação da diversidade, o conhecimento sobre os ciclos naturais, o beneficiamento, o armazenamento e a produção de novas mudas e plantios.

É também uma forma de aproximar restauração ecológica e vida cotidiana. Ao reconhecer uma árvore, coletar sua semente e voltar a plantá-la no próprio lote, as famílias ampliam a relação com o território e fortalecem sua autonomia.

A experiência dos grupos demonstra que a restauração da natureza também passa pela valorização de quem vive e produz no campo. Os conhecimentos acumulados pelas famílias assentadas, somados à formação coletiva e à organização dos grupos, tornam-se parte de uma estratégia mais ampla de agroecologia.

Entre idosos que contribuem com a limpeza e seleção das sementes, mulheres que ampliam sua autonomia e participação, jovens e famílias que aprendem a reconhecer novas espécies, os grupos de coleta constroem uma rede de conhecimentos que ultrapassa a própria atividade.

O que começa com a identificação de uma árvore se transforma em conhecimento compartilhado. A semente coletada pode gerar renda, alimentar um viveiro, recuperar uma área degradada ou voltar para o próprio lote. E o conhecimento construído por uma família passa a fazer parte da experiência de muitas outras.

Programa Popular de Agroecologia atua desde 2019

As ações fazem parte do Programa Popular de Agroecologia da Bacia do Vale do Rio Doce, construído pelo MST desde 2019 a partir da perspectiva de reparação integral e da construção de um novo modelo de produção e de desenvolvimento econômico na região.

Com financiamento do Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC), firmado após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, o programa desenvolve ações de restauração ambiental e agroecologia em territórios da reforma agrária atingidos pelos impactos do crime ambiental.

Até o momento, já foram 2 mil hectares protegidos; 16 toneladas de sementes coletada; 500 mil mudas de árvores nativas e frutíferas plantadas; 20 hectares de pomares e olerícolas implementados; 643,16 hectares restaurados em lotes individuais; 1.422,57 hectares de Reserva Legal restaurados em áreas coletivas. Para o próximo período está previsto que o Programa plante 450 mil mudas de árvores frutíferas e nativas na região.

As iniciativas também estão relacionadas ao plano nacional do MST Plantar Árvores e Produzir Alimentos Saudáveis, que estabelece a meta de plantar 100 milhões de árvores em dez anos como contribuição ao enfrentamento da crise climática. Desde 2020, segundo dados do Movimento, já foram plantadas 45 milhões de mudas em todo o país.

Editado por Aline Antunes

Clique aqui para consultar postagens publicadas até 31/dez/15.

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Fonte: Combate Racismo Ambiental

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