Classe C muda projeto de ascensão e 48% já querem ter o próprio negócio

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Por Aquiles LinsBrasil 247

247 – A busca por estabilidade no emprego perdeu espaço para o desejo de autonomia entre milhões de brasileiros de renda intermediária. Segundo o publicitário e pesquisador Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva, 48% dos integrantes da classe C afirmam hoje que querem ter um negócio próprio, numa mudança significativa em relação ao início dos anos 2000, quando a carteira assinada e o acesso à universidade estavam entre os principais caminhos projetados para a ascensão social.

Em entrevista ao Valor Econômico, publicada nesta quarta-feira (9), Meirelles afirma que a transformação é particularmente visível entre os jovens, que passaram a valorizar mais o controle sobre o próprio tempo e a maneira de trabalhar. O diagnóstico está no livro Brasil da maioria: 25 anos de classe C, no qual o pesquisador compara as aspirações atuais com as observadas no começo deste século.

“Arrisco dizer que a próxima década é a da autonomia. A pergunta mudou. Não é mais ‘faço bico, como arrumo carteira assinada?’. É ‘sou MEI [microempreendedor individual], como faturo mais e viro microempresa?’”, afirmou.

De acordo com Meirelles, essa mudança aparece tanto entre trabalhadores de aplicativos quanto entre pessoas que sustentam pequenos negócios, como venda de refeições, salões de beleza, barbearias e comércio de rua.

“Isso vale para o jovem que prefere o aplicativo à CLT porque quer ser dono do próprio tempo, e vale para a mãe solo que vende marmita e não quer curso profissionalizante, quer mentoria com alguém que já segurou o caixa no vermelho”, disse.

Autonomia cresce sem rede de proteção

O avanço do trabalho por conta própria, no entanto, vem acompanhado de uma fragilidade que Meirelles considera central para compreender a classe C contemporânea: a ausência de direitos e mecanismos de proteção capazes de acompanhar essa nova realidade.

“Quem vive de bico não tem décimo terceiro, não tem férias e é presa fácil da dívida cara e da bet”, afirmou.

Na avaliação do pesquisador, políticas voltadas para crédito em condições acessíveis, previdência adequada aos trabalhadores autônomos e serviços públicos mais eficientes podem se tornar decisivas tanto no comportamento econômico quanto nas escolhas políticas dessa parcela da população.

“Então minha aposta é esta: quem oferecer crédito honesto, previdência que caiba no bolso do autônomo e um Estado que funcione sem sufocar ganha a confiança da classe C. Seja na política, seja nos negócios.”

O Instituto Locomotiva considera integrantes da classe C pessoas com renda familiar per capita entre R$ 610 e R$ 2.150, em valores do início de 2026. Pelos cálculos apresentados por Meirelles, esse grupo reúne atualmente mais de 107 milhões de brasileiros.

Casa própria, dívidas e negócio próprio

Apesar das dificuldades acumuladas nos últimos anos, Meirelles identifica forte otimismo entre os brasileiros da classe C. Segundo ele, 85% acreditam que conseguirão realizar seus sonhos. Quando questionados sobre quem seria responsável por essa conquista, 49% respondem que dependem de si mesmos. Apenas 3% apontam o governo federal.

A casa própria continua no topo dos desejos, mencionada por 21% dos entrevistados. Carro e moto aparecem com 16%, enquanto quitar dívidas é citado por 19%.

“A casa própria segue em primeiro lugar, com 21% — e casa, para quem improvisa a vida inteira, é o sonho de parar de improvisar”, afirmou.

Para Meirelles, a relevância atribuída à quitação de débitos mostra como a instabilidade financeira passou a ocupar espaço central nas expectativas familiares.

“E logo atrás, com 19%, o sonho mais revelador de todos: quitar a dívida. É o sonho de quem ainda mede o horizonte em boleto.”

No campo profissional, porém, é a ambição empreendedora que mais evidencia a mudança de comportamento. “No campo profissional, 48% querem negócio próprio”, destacou.

O celular de alto padrão também ganhou importância nesse novo cenário. Na interpretação do pesquisador, o aparelho passou a desempenhar funções antes associadas ao computador e tornou-se instrumento de trabalho, vendas, pagamentos e organização cotidiana.

“Porque o celular virou o balcão de negócios do brasileiro comum. Não é ostentação. É organização de vida.”

Eleitor avalia quem melhora sua vida

A transformação econômica também produz consequências eleitorais. Para Meirelles, uma parcela expressiva da classe C não organiza sua decisão política a partir de identificações rígidas com direita ou esquerda.

Segundo os dados apresentados pelo pesquisador, apenas 36% dos brasileiros dizem compreender o significado desses campos ideológicos, enquanto 44% da classe C não se posicionam dentro dessa divisão.

“Significa que a eleição não vai ser ganha no rótulo”, afirmou.

Meirelles relatou a resposta dada por um entrevistado durante suas pesquisas: “Renato, eu sou do lado de quem resolve. Meu partido é o da fila que anda”.

Na avaliação do pesquisador, esse comportamento ajuda a explicar mudanças de voto ocorridas nas últimas duas décadas.

“Esse eleitor é pendular, e não é por incoerência. Ele votou na esquerda em 2006 e 2010 e na direita em 2018 e 2022 fazendo sempre a mesma pergunta: quem melhora a minha vida? Muda a resposta, não a pergunta.”

Em uma disputa eleitoral apertada, acrescentou, são esses eleitores menos vinculados ideologicamente que podem decidir o resultado.

“Não nos convictos dos dois lados, que já decidiram, mas em quem ainda mede o candidato pelo preço do mercado, pela dívida que não fecha e pela segurança.”

Classe C reúne mais de 107 milhões

O livro de Meirelles recupera a trajetória de expansão da classe C desde o início dos anos 2000. Nesse período, o grupo chegou a passar de 39% para cerca de metade da população brasileira, antes de enfrentar os efeitos de sucessivas crises econômicas e políticas.

O pesquisador também aponta mudanças relacionadas à identidade e à representatividade. Em 2016, segundo ele, 87% dos brasileiros declaravam orgulho de ser quem eram. Atualmente, a proporção chegou a 94%.

Ao analisar o peso da população negra, periférica e feminina dentro dessa parcela da sociedade, Meirelles afirma que a classe C expressa características centrais da composição social brasileira. Segundo ele, 62% dos integrantes do grupo se declaram pretos ou pardos e mais da metade dos lares de baixa renda são chefiados por mulheres.

“O evangélico se parece com o país. Quem não se parece com o país é quem lê sobre ele”, afirmou, ao comentar a composição social dos evangélicos brasileiros.

Para Meirelles, compreender as novas expectativas da classe C exige olhar menos para antigas fórmulas de ascensão profissional e mais para uma sociedade na qual autonomia, geração de renda, endividamento e acesso à proteção social passaram a caminhar juntos.

Fonte: Brasil 247

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