Círio de Nazaré: O Natal dos paraenses que traslada a fé e as tradições locais
Por Casa NINJA Amazônia — Mídia NINJA

A maior procissão católica do mundo impulsiona a vivência das manifestações populares na cidade das mangueiras
Casa NINJA Amazônia
A Casa NINJA Amazônia é um centro de ativismo que mobiliza e conecta defensores para uma rede de defesa permanente da Amazônia.

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28 de setembro de 2026
16:53
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A Casa NINJA Amazônia é um centro de ativismo que mobiliza e conecta defensores para uma rede de defesa permanente da Amazônia.
Por Vitória Balieiro
Com a chegada do mês de outubro, as ruas de Belém anunciam a aproximação do Círio de Nazaré, que é percebida pelas luzes na cidade, pelo cheiro da maniçoba, pelas fitinhas e por tantos outros símbolos que fazem parte da tradição nazarena.
A primeira procissão foi realizada em 1793. Em 2004, o Círio foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e, em 2013, foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. Ao longo dos anos, foram incorporados elementos que hoje são indissociáveis da celebração, como a corda, a berlinda, o manto e os cartazes.
As romarias traduzem e se adaptam aos diferentes cotidianos vividos na Amazônia paraense, como a romaria fluvial, a ciclo-romaria, a moto-romaria, entre diversas outras modalidades que abarcam suas próprias particularidades, seja de público ou de transporte, totalizando 14 romarias oficiais.
O jeito popular de festejar
Para além da religiosidade da manifestação, os paraenses teceram uma relação de afetividade com o período cirial, marcada fortemente pela cultura alimentar e pela confraternização familiar. O tradicional almoço do Círio, que se fez o Natal paraense, é celebrado após a Grande Procissão, quando tradicionalmente são servidos pratos típicos como a maniçoba e o pato no tucupi.
A assistente social Régia Ribeiro, devota de Nossa Senhora de Nazaré, relata que as práticas do mês nazareno são heranças passadas de geração em geração e que, além de renovar a fé, fortalecem o vínculo com a própria comunidade e a vizinhança. “É quando a gente se reúne com os nossos vizinhos, por conta justamente das novenas. Me fortalece muito como pessoa e também a questão espiritual. É quando a gente vê todo mundo na mesma direção”, explica.

A festividade também movimenta a cultura do estado, a partir das tradições incorporadas a ela, como o consumo de alimentos típicos, além do estímulo às movimentações culturais pela cidade. “É quando se busca toda aquela cultura do interior, aquela integração… A gente tem aquele ritual também da comida típica, o que acontece aqui na minha residência, acontece com os meus vizinhos. É uma forma de amor, uma forma também da gente estar fortalecendo essa cultura através das gerações”, declara a devota.
Independentemente da crença, idade ou naturalidade, estar em Belém no mês de outubro é ser atravessado pelas emoções trazidas com o período do Círio.
Cortejo artístico em homenagem à Santa
Fruto dessa fervorosidade cultural, o Auto do Círio nasceu há 33 anos, idealizado pelas professoras da Escola de Teatro e Dança da UFPA, Zélia Amador e Margareth Refkalefsky. Inicialmente, o movimento era um projeto de extensão acadêmico, que visava integrar diversas modalidades artísticas, como dança, música e teatro, à celebração do Círio.
Posteriormente, o cortejo, que ocupa as ruas do centro histórico e da Cidade Velha, ganhou bastante apreço popular e foi inserido nas festividades oficiais desta época. Em 2025, a manifestação foi reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial do Pará, mas já integrava o conjunto do Círio de Nazaré reconhecido nacionalmente pelo Iphan em 2004.
Durante o primeiro ensaio deste ano, foi realizado um tributo à cocriadora e referência na luta antirracista na Amazônia, Zélia Amador, que faleceu em setembro. O tema divulgado para este ano foi “Maria, salvai e guardai nosso patrimônio sagrado e nossa fé”. A concentração do Auto do Círio será na Praça do Carmo, às 18 horas do dia 9 de outubro.

A Barca Rainha das Águas entre as fitas coloridas
Durante essa data, o Arraial do Pavulagem também se reconfigura e transforma o arrastão e seus elementos para homenagear a santa. O clássico Boi Pavulagem é substituído pela Barca Rainha das Águas, que faz referência ao Círio Fluvial. Os brincantes carregam barquinhos de miriti, enquanto o Batalhão da Estrela conduz a música e as movimentações artísticas para recepcionar a imagem de Nossa Senhora após sua chegada na romaria fluvial, que acontece no sábado anterior à Trasladação.

A primeira edição do Arrastão do Círio foi realizada no ano 2000, com o objetivo de ampliar a presença da cultura popular na festividade nazarena. Em 2013, foi formalmente reconhecido pelo Iphan como um Bem Cultural associado ao Círio de Nazaré, integrando o inventário da festividade.
Sagrado e profano se transpõem
Para encerrar as programações oficiais, a Festa da Chiquita, que acontece desde 1978, tem início assim que a passagem da santinha pela Praça da República termina, como movimento de contracultura e resistência na Amazônia.

O nome da festa é em referência à marchinha “Chiquita Bacana” e à figura de Luís Bandeira, apelidado de Chiquita. Objetivando celebrar a diversidade e defender os direitos da comunidade LGBTQIAPN+, a festividade foi criada inicialmente como um bloco de carnaval por Luís Bandeira e ao longo dos anos se transfigurou sob a direção do ativista cultural Elói Iglesias, se tornando patrimônio cultural do Pará em 2004 pelo IPHAN.
No final do evento ocorre a premiação com o troféu Veado de Ouro, que destaca quem defende e apoia os direitos da comunidade LGBTQIA+ e os direitos humanos. Nomes como Gretchen, Gaby Amarantos, Milton Cunha e Paulo Vieira já foram premiados.
Este ano, a programação da quadra nazarena terá 14 procissões, que se iniciam no dia 10 de outubro e se estendem até o dia 26, além das manifestações culturais, como o Auto do Círio, que será realizado dia 9 de outubro.
Fonte: Mídia NINJA
