Cientistas mantiveram grandes herbívoros fora de uma savana do Quênia por 18 anos; quando elefantes e girafas voltaram, a cobertura de árvores caiu quase ao nível inicial

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Por Joaquim Luppi Fernandes — Catraca Livre

A dinâmica das paisagens africanas depende diretamente da circulação de animais imponentes que moldam todo o ambiente. Quando cercas impediram a entrada da fauna por quase duas décadas, a savana sofreu transformações profundas que comprovaram a força dos elefantes no ecossistema.

O retorno dos animais após dezoito anos reduziu drasticamente a cobertura arbórea e restaurou a paisagem aberta original.

Como a ausência prolongada de herbívoros alterou a vegetação?

No Mpala Research Centre, em Laikipia, no Quênia, pesquisadores isolaram parcelas de terra para avaliar o desenvolvimento vegetal sem interferência externa. Ao longo de dezoito anos ininterruptos, a densidade de árvores aumentou rapidamente, superando a expressiva marca de sessenta por cento de cobertura florestal.

A barreira física impediu a alimentação contínua e a derrubada mecânica de galhos, permitindo que espécies lenhosas dominassem o terreno. Sem o consumo habitual realizado pelos mamíferos, a paisagem anteriormente aberta assumiu uma fisionomia fechada, alterando o equilíbrio ecológico daquela região protegida.

Qual foi o impacto da retirada das cercas em 2017?

Em 2017, a desmontagem das cercas permitiu que os animais retornassem naturalmente às áreas antes isoladas. A restauração dessa pressão biológica provocou o consumo imediato de folhagens e caules, iniciando um processo de abertura do dossel arbóreo que transformou o terreno monitorado.

Elefantes africanos e girafas reticuladas passaram a transitar livremente pelas parcelas, quebrando galhos e consumindo copas altas. Essa movimentação constante restabeleceu a dinâmica histórica do habitat, provocando um recuo progressivo das plantas lenhosas e devolvendo a luz solar para a camada rasteira.

Abaixo, um vídeo do canal Princeton University no YouTube que aprofunda os pontos discutidos neste tema:

Por que a cobertura arbórea retornou aos níveis iniciais?

As medições feitas em 2025 revelaram que a cobertura arbórea caiu para trinta e seis vírgula cinco por cento. O resultado praticamente igualou o patamar original de trinta e seis vírgula dois por cento, registrado antes do bloqueio feito com cercas no passado.

Esse recuo demonstrou a capacidade de regulação direta que a fauna exerce sobre a estrutura vegetal. A circulação dos animais removeu a biomassa lenhosa acumulada, restaurando a fisionomia típica da savana e impedindo a formação de uma floresta contínua naquele bioma árido.

Quais animais foram determinantes nessa transformação ecológica?

A ação conjunta de espécies de portes variados garantiu a reorganização de todo o extrato vegetal. Enquanto os megaherbívoros derrubavam galhos e copas, espécies como o impala consumiam brotos emergentes no solo, impedindo o surgimento de novos arbustos em áreas abertas.

Essa complementaridade alimentar entre pequenos e grandes herbívoros manteve o equilíbrio do ecossistema de forma contínua. Cada grupo ocupou um nicho ecológico específico, consumindo diferentes frações da biomassa e assegurando a coexistência equilibrada entre plantas herbáceas e a vegetação mais alta.

Entre os impactos diretos causados pelo retorno dos animais ao ecossistema, destacam-se:

  • Consumo contínuo de folhas em copas elevadas por girafas.
  • Derrubada e quebra de galhos por elefantes africanos.
  • Pastoreio constante da vegetação rasteira por impalas e dik-diks.
A circulação de grandes mamíferos é essencial para o controle ecológico e a manutenção da biodiversidade nas savanas.

O que esse experimento revela sobre o manejo de savanas?

As observações consolidadas na publicação Ecology Letters sob liderança de Tyler C. Coverdale confirmam que a perda de fauna desfigura ecossistemas abertos. A proliferação excessiva de árvores não indica necessariamente saúde ambiental, pois altera profundamente a biodiversidade e a circulação de espécies nativas.

Compreender essa interação reforça o valor de estratégias focadas em restauração ecológica e rewilding em escala global. A proteção de grandes mamíferos viabiliza o controle natural da flora, garantindo que paisagens históricas mantenham sua estrutura funcional sem a necessidade de intervenção humana constante.

Leia mais: Após mais de 1 século de ausência, México trouxe 23 bisões dos EUA em 2009 e viu a manada chegar a 230 em 2021: os animais voltaram a transformar a vegetação e ajudar na recuperação do ecossistema

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Fonte: Catraca Livre

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