China vira destino de wellness de luxo – e com spas bem mais acessíveis do que nos EUA ou Europa
Por Sara Magalhães — Seu Dinheiro
Esqueça por um momento os retiros de wellness da Suíça, os spas de Bali e os hotéis de longevidade da Tailândia. A nova onda das viagens de bem-estar está mais a leste, e pode ser muito mais acessível. Na China, uma nova geração de spas transforma o conceito de dia de relaxamento em uma experiência que pode durar 24 horas.
O visitante entra, recebe um armário e roupas para circular pelo complexo e encontra piscinas aquecidas, saunas, salas de descanso, massagens, restaurantes, cinemas, karaokês e até espaços para dormir. E uma leva de brasileiros têm aproveitado viagens ao país para viver a experiência.
Em alguns endereços, a conta começa em cerca de 100 yuans, ou R$ 77, para passar praticamente o dia inteiro no local. Nos estabelecimentos mais sofisticados, a entrada pode começar em 1.000 yuans, cerca de R$ 770, ainda incluindo uma série de serviços. Os valores são uma fotografia das ofertas encontradas em 2026 e variam conforme cidade, horário e categoria.
A tendência, inclusive, chamou a atenção de viajantes estrangeiros em 2026. Vídeos dos chamados xiyu zhongxin (os grandes centros de banho e lazer), viralizaram nas redes sociais, levando turistas a descobrir uma versão chinesa do wellness que mistura spa, entretenimento e hospitalidade.
Spas com cara de resort
Priscila Jin, brasileira filha de chineses que viaja com frequência ao país e que já experimentou muitos desses spas explica que a China possui uma infinidade desses estabelecimentos há algum tempo. “Por lá há vários tipos de ‘spas’: tem os de bairro, onde você vai fazer reflexologia, massagens e outros tratamentos, e os 洗浴中心 (xǐyù zhōngxīn), que hoje são praticamente grandes centros de wellness e entretenimento”, explica em entrevista ao Seu Dinheiro.
“O diferencial é que nesses lugares, você não vai só para fazer uma massagem: você praticamente faz uma imersão”, afirma. Muitos desses complexos reúnem banhos quentes, saunas, restaurantes, buffets, áreas de descanso e entretenimento.

Alguns permitem que o visitante passe a noite no local. “Você pode passar praticamente o dia inteiro ali descansando, comendo, encontrando amigos e cuidando do corpo sem necessariamente gastar o equivalente a uma diária em um hotel ou resort”, diz Priscila.
Ela compara esses espaços a “micro-resorts urbanos”, porque eles concentram wellness, alimentação, entretenimento, socialização e descanso em um único endereço. “Na China, o spa pode deixar de ser apenas um lugar onde você agenda um tratamento e se tornar o próprio programa do dia”, afirma.
Os endereços disputados
Um dos exemplos mais comentados fica em Shenzhen, perto de Hong Kong. O Tenz Spa reúne piscinas de águas quentes, salas de sauna, uma câmara de sal do Himalaia, áreas de descanso, videogames e até estações de sorvete Häagen-Dazs.

O conceito também aparece em outras cidades. Em Chengdu, por exemplo, o Tang Yue oferece um passe de 20 horas por 99 yuans. O espaço ocupa 11 andares e combina áreas de banho e vapor com karaokê e entretenimento. Enquanto em Shenyang, no nordeste do país, um dos grandes complexos locais, o Qinghe Peninsula Hot Spring Resort Hotel, tem piscinas temáticas, restaurantes e uma piscina externa de 168 metros.
Uma das diferenças para o spa tradicional ocidental está na duração da experiência. Em vez de pagar por uma massagem de 60 ou 90 minutos, o cliente compra acesso a uma estrutura inteira e pode permanecer ali durante boa parte do dia, ou até dormir no local.

O luxo dos spas com medicina preventiva
A ascensão do wellness chinês, porém, não se resume aos megacomplexos de banho. O país também está atraindo algumas das principais marcas internacionais de hospitalidade e medicina preventiva.
A Clinique La Prairie, conhecida pelos programas de longevidade em Montreux, na Suíça, abriu este ano em Anji seu primeiro health resort fora do país europeu. O complexo combina diagnóstico médico, nutrição, movimento e tratamentos de bem-estar em meio às montanhas e aos lagos da província de Zhejiang.
Aqui, porém, desaparece a ideia de wellness barato. Os programas de sete dias começam em 105 mil yuans, cerca de R$ 80 mil, no caso do Life Reset. O valor chega a 225 mil yuans, aproximadamente R$ 173 mil, para o programa Reverse Aging. Ambos incluem acomodação.
Em 2025, a Four Seasons anunciou um novo resort em Moganshan, também em Zhejiang, previsto para 2030. O projeto terá acesso direto a fontes termais naturais e deve combinar hidroterapia, meditação, trilhas, ciclismo e outras atividades ao ar livre.

“Esta é uma oportunidade tremenda de expandir nossa presença na China, em um destino de luxo que equilibra história, cultura e beleza natural”, disse em nota Bart Carnahan, Presidente de Desenvolvimento Global de Negócios da Four Seasons.
Já o Six Senses Qing Cheng Mountain, em Sichuan, oferece um spa de 1,7 mil metros quadrados. O espaço tem tratamentos inspirados no taoismo, piscina interna, academia e programas de wellness de vários dias. Um programa de três dias voltado ao sono custa atualmente 2.588 yuans por pessoa, cerca de R$ 2 mil. A experiência inclui consulta, acompanhamento do sono, tai chi, exercícios, massagens e outras terapias. Já o programa de sete dias custa 7.988 yuans, aproximadamente R$ 6,1 mil.
A fórmula chinesa: tradição + tecnologia + preços
Outro aspecto que diferencia a China de outros destinos de wellness é a combinação entre práticas tradicionais da medicina chinesa e infraestrutura contemporânea.
“Na China já existe uma cultura muito forte de cuidar do corpo, e não necessariamente como uma coisa de luxo ou que você faz de vez em quando”, afirma. “Você encontra lugares de massagem, reflexologia, escalda-pés com ervas, gua sha, ventosa… várias coisas que vêm dessa influência da medicina tradicional chinesa e que fazem parte do dia a dia deles há muito tempo”, diz.

No Six Senses, por exemplo, os programas incluem tai chi, técnicas inspiradas no taoismo, meditação e tui na. A programação também conta com personal training, acompanhamento do sono e tecnologias de recuperação.
E o preço também é um grande atrativo. O Global Wellness Institute (GWI) calcula que os gastos globais com viagens de bem-estar chegaram a US$ 893,9 bilhões em 2024. No mesmo ano, foram realizadas 1,24 bilhão de viagens desse tipo. A Ásia-Pacífico respondeu por 562,7 milhões dessas viagens, mais que qualquer outra região.
O gasto médio por viagem na região foi de US$ 382, bem abaixo dos US$ 741 registrados na Europa e dos US$ 1.449 na América do Norte. “Como existe muita oferta e muita competitividade, você consegue encontrar experiências muito boas por preços mais acessíveis”, diz Priscila.
“E, principalmente nesses grandes centros de wellness, o custo-benefício chama atenção. Você não está pagando só por uma massagem: muitas vezes pode passar horas no local, usar toda a estrutura, comer, descansar e até passar a noite”, afirma.
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Fonte: Seu Dinheiro