China registra boom nas exportações de frango e conquista espaço no mercado mundial de alimentos
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – A China está ampliando sua participação no mercado internacional de proteínas animais e desafiando exportadores tradicionais, como Brasil e Tailândia, com preços significativamente mais baixos. O avanço ocorre após anos de investimentos na produção de carnes e laticínios, estimulados por políticas governamentais de segurança alimentar, que resultaram em uma oferta superior à capacidade de consumo da população chinesa.
Segundo reportagem da agência Reuters publicada nesta quinta-feira (15), empresas chinesas estão aproveitando o excedente de produção para conquistar clientes na África, na Ásia e na Europa. O movimento já provoca mudanças nas relações comerciais e pressiona produtores estrangeiros a reduzir preços para preservar sua competitividade.
Um dos exemplos mais expressivos é a Wintop Food, localizada em Tengzhou, na província chinesa de Shandong. A companhia processa aproximadamente 60 milhões de frangos por ano e comercializa peitos de frango, nuggets, almôndegas e outros alimentos industrializados para mais de 20 países.
As exportações responderam por metade dos lucros da empresa no ano passado e estão financiando a ampliação de suas instalações em uma área de aproximadamente 13,4 hectares.
O gerente-geral da Wintop, Dang Yangyang, relatou à Reuters que a diferença de preços em relação aos concorrentes internacionais se tornou decisiva para conquistar compradores.
“Os clientes internacionais costumavam desconfiar da qualidade. Mas, quando a carne custa US$ 1.000 a menos por tonelada do que a dos concorrentes brasileiros e tailandeses, eles precisam comprar da China ou perder espaço no mercado”, afirmou o executivo, de 44 anos.
A empresa recebeu recentemente compradores de países como Gana, Iraque, Jordânia, Rússia e Senegal, interessados em adquirir carne de frango chinesa.
Frango chinês chega a custar 20% menos que o brasileiro
A diferença de preços já começa a alterar o comportamento de importadores que tradicionalmente compravam proteínas do Brasil.
Ezequiel Pires, presidente da Branexx, empresa internacional de comercialização de carnes sediada em Lisboa, afirmou que passou a adquirir frango chinês em março, depois que clientes africanos começaram a procurar alternativas mais baratas aos produtos brasileiros.
Segundo o empresário, cortes como peito de frango e quartos traseiros comercializados pela China apresentam preços entre 10% e 20% inferiores aos equivalentes brasileiros.
A vantagem competitiva também influencia as negociações comerciais em outros mercados.
“É muito preocupante”, declarou Kukrit Arepagorn, dirigente da Associação Tailandesa de Exportadores de Frango Processado. “Os clientes usam cada vez mais os preços baixos do frango chinês como referência nas negociações.”
De acordo com a consultoria especializada Gira, a participação chinesa no mercado de aves processadas da União Europeia dobrou desde 2022, alcançando 10%. No Reino Unido, a presença dos produtos chineses triplicou e já ultrapassa 14%.
No Japão, a China também vem ampliando gradualmente sua participação, enquanto a Tailândia, principal fornecedora daquele mercado, perde espaço.
Os números demonstram que a expansão chinesa não se limita à conquista de novos destinos comerciais, mas também envolve a substituição de fornecedores estabelecidos.
China se transforma em exportadora líquida de frango
A mudança representa uma transformação importante na posição chinesa no comércio internacional de alimentos.
Embora continue apresentando um déficit comercial superior a US$ 100 bilhões no setor agrícola e alimentício, a China vem reduzindo essa diferença à medida que amplia suas exportações.
O país, que já ocupa a posição de maior exportador mundial de produtos do mar, tornou-se exportador líquido de carne de frango no ano passado, quando suas vendas externas superaram as importações.
Dados alfandegários mostram que as exportações chinesas de produtos de frango alcançaram US$ 2,6 bilhões em 2025, praticamente o dobro do valor registrado em 2020.
O setor de laticínios também acompanha essa trajetória. A expectativa é que as exportações chinesas atinjam US$ 600 milhões em 2026, o dobro do patamar observado três anos antes.
Para Michael Boddington, consultor do agronegócio baseado em Pequim, a entrada da China como fornecedora competitiva está provocando um efeito de ruptura no mercado internacional de carnes.
Historicamente, grande parte das proteínas importadas pelos países asiáticos vinha da Europa e das Américas. Agora, os compradores passaram a contar com uma alternativa de menor custo, obrigando os fornecedores tradicionais a rever suas estratégias comerciais.
Subsídios e modernização impulsionam produção chinesa
A expansão das exportações está diretamente relacionada à política chinesa de fortalecimento da segurança alimentar.
Após o surto de peste suína africana, em 2018, e os impactos da pandemia de Covid-19, o governo de Pequim incentivou investimentos na modernização das instalações agropecuárias e no aumento da capacidade produtiva.
Os estímulos beneficiaram especialmente grandes empresas, que ampliaram seus sistemas industriais de criação e processamento de animais.
Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os subsídios representaram aproximadamente 13% das receitas agrícolas brutas dos produtores chineses entre 2022 e 2024, proporção quase três vezes superior à registrada no início dos anos 2000.
O resultado foi uma expansão da oferta em um momento de desaceleração econômica, crescimento limitado do consumo interno e redução populacional.
Em 2025, a produção chinesa de carne suína atingiu o recorde de 59 milhões de toneladas, enquanto a produção de aves aumentou 7%.
O setor de laticínios, por sua vez, ultrapassou suas metas oficiais de produção para 2025 com dois anos de antecedência.
A combinação entre elevada capacidade industrial e demanda doméstica insuficiente provocou quedas nos preços de carnes e derivados de leite, estimulando as empresas a procurar compradores internacionais.
Mudança nos hábitos alimentares reduz consumo de carne suína
Outro fator importante para compreender o excesso de produção é a transformação dos hábitos alimentares da população chinesa.
Durante décadas, a carne suína ocupou posição central na alimentação do país. A expansão da criação de porcos também impulsionou a demanda por grãos destinados à alimentação animal, especialmente soja, influenciando diretamente o comércio agrícola com países como Brasil e Estados Unidos.
Entretanto, consumidores urbanos passaram a buscar alternativas consideradas mais saudáveis, reduzindo a procura por cortes suínos com maior teor de gordura.
Segundo dados oficiais citados pela Reuters, o consumo de carne suína por habitante caiu 13% desde o pico registrado em 2023.
Em contrapartida, o consumo per capita de frango aumentou mais de 50% ao longo da década encerrada em 2024.
A mudança atingiu principalmente pequenos criadores de porcos, que enfrentam dificuldades para competir em um mercado caracterizado por preços deprimidos e excesso de oferta.
Na província de Hebei, a produtora Huang Weiying, de 57 anos, acumulou aproximadamente US$ 75 mil em dívidas após duas décadas dedicadas à criação de suínos.
A agricultora, que chegou a possuir mais de 500 animais, mantinha apenas dez porcos quando foi entrevistada pela Reuters, em agosto, e pretendia encerrar a atividade.
“Crio porcos há mais de duas décadas, mas nunca foi tão difícil quanto nos últimos dois anos”, relatou.
“Os preços dos porcos estão muito baixos. As pessoas nas cidades simplesmente pararam de comer carne suína.”
A situação evidencia o contraste entre a crise enfrentada por pequenos produtores e a expansão internacional das grandes companhias agroindustriais chinesas.
Indústria chinesa investe em produtividade para enfrentar concorrentes
No setor avícola, os ganhos de produtividade são um dos principais fatores que sustentam a competitividade das empresas chinesas.
Na Wintop, o número de frangos alojados em cada galpão passou de 20 mil para 120 mil ao longo de uma década.
As aves atingem peso médio de 2,5 quilos, enquanto os frangos de corte brasileiros apresentam média de 2,2 quilos, segundo dados da S&P Global citados pela Reuters.
O tempo necessário para o abate também diminuiu. Atualmente, a empresa chinesa consegue concluir o ciclo produtivo em menos de 42 dias, ante 45 dias anteriormente, aproximando-se do padrão de 35 dias registrado nos Estados Unidos.
Além dos investimentos tecnológicos, a companhia recebe apoio do governo municipal de Tengzhou, que subsidia despesas salariais relacionadas aos seus mais de 2 mil trabalhadores.
A empresa não informou o valor dos benefícios recebidos.
Outras companhias chinesas também investem em produtos de maior valor agregado para ampliar sua presença internacional.
A Sunner, por exemplo, aposta na exportação de frango marinado e refeições prontas. Suas vendas externas cresceram 42% no ano passado, alcançando US$ 135 milhões.
A empresa também desenvolveu a primeira linhagem chinesa de frango de corte de penas brancas e começou a comercializá-la na África e na Ásia Central.
A estratégia inclui parcerias com países como o Uzbequistão para desenvolver capacidade produtiva local.
Empresas de laticínios disputam mercados com multinacionais
A ofensiva internacional chinesa também alcança a indústria de leite e derivados, tradicionalmente dominada por fornecedores da Europa e da Oceania.
A Yili, maior empresa de laticínios da Ásia, planeja começar a vender fórmulas infantis no Sudeste Asiático já em 2027.
A iniciativa marca uma mudança significativa para uma companhia que enfrentou os efeitos da crise sanitária de 2008, quando produtos lácteos contaminados com melamina provocaram problemas de saúde em milhares de crianças na China.
Na ocasião, produtos da Yili foram retirados do mercado durante uma operação governamental de fiscalização. O episódio comprometeu durante anos a confiança dos consumidores chineses na indústria nacional de laticínios.
Atualmente, entretanto, a empresa lidera as vendas de leite em pó infantil no mercado doméstico.
“Todas as empresas chinesas de pecuária estão planejando expandir suas operações para o exterior. Se você quer crescer, precisa ir para fora”, afirmou Zhang Yuan, responsável pelo marketing de fórmulas infantis da Yili.
A concorrente Feihe também iniciou sua expansão regional. Em abril, lançou a fórmula infantil AceKid na Indonésia, depois de introduzir o produto nas Filipinas no ano anterior.
A empresa pretende disputar consumidores com multinacionais como Nestlé e Mead Johnson.
Segundo Yifan Li, analista de laticínios da corretora de commodities StoneX, o leite em pó chinês já compete com produtos da Nova Zelândia e da Europa em mercados como Nigéria e Bangladesh.
No Oriente Médio, fornecedores chineses também começam a substituir empresas da Índia e do Irã.
União Europeia investiga concorrência chinesa
O crescimento acelerado das exportações chinesas de proteínas também desperta preocupações entre autoridades comerciais e produtores ocidentais.
A estratégia apresenta semelhanças com a expansão internacional chinesa em setores como aço, painéis solares e veículos elétricos, nos quais a combinação de elevada capacidade produtiva e preços competitivos provocou disputas comerciais.
Em julho, a Comissão Europeia abriu uma investigação antidumping sobre importações de pato de Pequim, após produtores locais alegarem que subsídios chineses estariam criando condições desleais de concorrência.
Em setembro, o bloco europeu também estabeleceu tarifas antidumping entre 41% e 67% sobre importações de proteína de ervilha proveniente da China.
Até o momento, a carne de frango chinesa não foi submetida a medidas semelhantes, embora autoridades europeias estejam acompanhando a evolução do mercado.
A Comissão Europeia informou à Reuters que os alimentos importados precisam cumprir os mesmos padrões sanitários e de segurança exigidos dos produtores locais.
O bloco também pretende reforçar as regras de identificação da origem dos alimentos, começando pelos produtos avícolas em 2027.
Segurança alimentar ainda representa desafio para exportadores
Apesar da vantagem de preços, os fornecedores chineses continuam enfrentando obstáculos relacionados à confiança dos consumidores e à reputação de seus produtos.
Escândalos sanitários anteriores ainda influenciam a percepção de compradores internacionais, especialmente em mercados com exigências rigorosas de rastreabilidade e controle de qualidade.
Gordon Butland, diretor da consultoria G&S Agriconsultants, sediada em Bangkok, afirmou que o principal desafio das empresas chinesas será construir “confiança duradoura na segurança, na rastreabilidade e na consistência de seus produtos”.
Rupert Claxton, diretor de carnes e pecuária da consultoria Gira, observou que determinados compradores continuam preferindo produtos tailandeses devido à regularidade de sabor e qualidade.
Mesmo assim, a diferença de preços tem se mostrado determinante para uma parcela crescente dos importadores.
A expansão chinesa coloca produtores brasileiros, tailandeses e europeus diante de uma concorrência que combina escala industrial, investimentos tecnológicos, incentivos governamentais e preços reduzidos.
Para os consumidores internacionais, a entrada de novos fornecedores pode representar alimentos mais baratos. Para as empresas exportadoras tradicionais, significa uma disputa mais intensa por contratos e participação de mercado.
Na Wintop, a estratégia permanece concentrada em aproveitar essa vantagem competitiva para ampliar a presença internacional.
“Estamos exportando para todos os países que conseguimos”, afirmou Dang Yangyang. “Se você tem uma vantagem significativa de preço, muitos clientes procuram você por iniciativa própria.”
Fonte: Brasil 247