China reduz títulos dos EUA ao menor nível em 18 anos e amplia reservas de ouro

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Por Paulo Emilio — Brasil 247

247 – A China intensificou a redução de sua exposição à dívida pública dos Estados Unidos e ampliou suas reservas de ouro, em um movimento que ocorre em meio às tensões geopolíticas com Washington e às preocupações com a situação fiscal norte-americana. Em agosto, Pequim diminuiu em US$ 27,3 bilhões suas posições em títulos do Tesouro dos EUA, levando o estoque desses ativos ao menor patamar desde 2008. Paralelamente, o país completou, em setembro, 23 meses consecutivos de aumento de suas reservas do metal precioso.

As informações foram divulgadas pela Sputnik Brasil, com base em dados do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos publicados pelo jornal South China Morning Post. Segundo o levantamento, a carteira chinesa de títulos estadunidenses caiu de US$ 618 bilhões para US$ 590,7 bilhões em agosto, uma redução equivalente a aproximadamente R$ 136,4 bilhões.

O volume representa o menor nível de participação chinesa nesses ativos em 18 anos. Em agosto de 2008, as reservas do país em títulos do governo norte-americano somavam US$ 573,7 bilhões, segundo informações da provedora de dados financeiros Wind.

A redução acompanha uma tendência de diminuição da exposição chinesa à dívida dos Estados Unidos, observada desde o primeiro mandato de Donald Trump. O movimento ocorre em um contexto de disputas comerciais e estratégicas entre as duas maiores economias do mundo e de preocupações com a utilização do dólar como instrumento de pressão geopolítica.

China acumula ouro pelo 23º mês consecutivo

Enquanto reduz sua carteira de títulos estadunidenses, Pequim mantém uma trajetória de ampliação das reservas internacionais em ouro.

Em setembro, o Banco Popular da China registrou o 23º aumento mensal consecutivo de suas reservas do metal, que alcançaram 77,47 milhões de onças-troy, quantidade equivalente a aproximadamente 2.400 toneladas.

A continuidade das compras de ouro contrasta com a diminuição das posições chinesas em papéis emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos. Os dois movimentos integram uma mudança na composição das reservas do país, com maior participação de um ativo que não representa uma obrigação financeira de outro governo.

O ouro também constitui uma alternativa de reserva de valor em períodos de instabilidade financeira e tensões internacionais, embora seu preço esteja sujeito às oscilações do mercado.

Japão também reduz investimentos na dívida dos EUA

A diminuição das posições em títulos do Tesouro dos EUA não ficou restrita à China. O Japão, maior detentor estrangeiro desses papéis, também promoveu uma redução expressiva de sua carteira em agosto.

Segundo os dados divulgados, os investidores japoneses venderam US$ 35,6 bilhões em títulos norte-americanos durante o mês, fazendo com que suas posições recuassem de aproximadamente US$ 1,1 trilhão para US$ 1,07 trilhão.

Somadas, as reduções registradas por China e Japão chegaram a US$ 62,9 bilhões no período.

O movimento japonês ocorreu em meio a pressões sobre o iene e à necessidade de intervenções no mercado cambial. Entre o fim de julho e agosto, o Japão destinou 15,4 trilhões de ienes, equivalentes a aproximadamente R$ 485,7 bilhões, a operações destinadas a sustentar sua moeda.

Apesar da redução das carteiras dos dois países asiáticos, o volume total de títulos norte-americanos mantidos por investidores estrangeiros aumentou em agosto.

Reino Unido e Canadá ampliam exposição aos EUA

As participações estrangeiras em títulos do Tesouro dos Estados Unidos passaram de US$ 9,25 trilhões para US$ 9,33 trilhões em agosto, um crescimento de aproximadamente US$ 80 bilhões.

O resultado foi impulsionado principalmente pelo aumento das posições do Reino Unido e do Canadá, que seguiram uma direção diferente daquela adotada por China e Japão.

O Reino Unido consolidou sua posição como segundo maior detentor estrangeiro da dívida dos EUA, elevando sua carteira de US$ 998,3 bilhões para aproximadamente US$ 1,01 trilhão.

O Canadá, por sua vez, ampliou seus investimentos em US$ 38,3 bilhões, alcançando um estoque de US$ 464,6 bilhões em títulos do governo dos Estados Unidos.

Os números mostram que a redução das posições chinesas e japonesas não se traduziu em uma retirada generalizada de investidores internacionais do mercado de dívida norte-americano.

Dívida dos Estados Unidos supera US$ 40 trilhões

As mudanças nas carteiras de títulos ocorrem em um momento de crescente preocupação com o endividamento federal dos Estados Unidos.

A dívida pública norte-americana ultrapassou US$ 40 trilhões, equivalente a mais de R$ 199,88 trilhões, ampliando a atenção dos mercados sobre a capacidade de financiamento do governo e os custos associados à manutenção desse passivo.

O cenário também é influenciado pela política monetária do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, que elevou sua taxa de juros em 0,25 ponto percentual, no primeiro aumento em mais de três anos, segundo as informações divulgadas.

Nas últimas semanas, os rendimentos dos títulos de longo prazo do Tesouro norte-americano registraram elevação. Na sexta-feira (16), entretanto, a taxa dos papéis com vencimento em 30 anos recuou para 5,43%, depois de atingir seu maior patamar em 24 anos.

A elevação dos rendimentos exigidos pelos investidores tende a aumentar o custo de novas emissões de dívida e do refinanciamento de obrigações do governo norte-americano.

Diante das condições do mercado, o Departamento do Tesouro anunciou a intenção de pelo menos dobrar as recompras de títulos com vencimentos entre dez e 30 anos, em uma iniciativa voltada ao fortalecimento da liquidez.

Tensões entre Pequim e Washington acompanham mudança nas reservas

A redução da exposição chinesa aos títulos norte-americanos ocorre em um período prolongado de atritos econômicos e políticos entre China e Estados Unidos.

A tendência de diminuição dessas posições ganhou força durante o primeiro governo de Donald Trump, marcado pela intensificação das disputas comerciais entre Washington e Pequim.

Além das divergências comerciais, as preocupações chinesas envolvem a dependência de ativos denominados em dólar e os riscos associados ao emprego de instrumentos financeiros em disputas internacionais.

Nesse contexto, o avanço das reservas de ouro e a diminuição da carteira de títulos do Tesouro dos Estados Unidos representam duas tendências simultâneas na administração dos ativos externos chineses.

Fonte: Brasil 247

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