Por Fernando CapotondoBrasil 247

O resgate de um trabalhador chinês que passou onze dias preso em um túnel no Nepal trouxe um alívio em meio a uma catástrofe que deixou milhares de mortos e desaparecidos. O desastre, ocorrido em 26 de agosto devido ao colapso de uma geleira perto da fronteira com a China, destruiu residências, infraestrutura e vários projetos hidrelétricos. Nesse contexto de emergência, a assistência enviada por Pequim incluiu o uso do MAZU, uma plataforma de alerta meteorológico baseada em inteligência artificial que combina dados de diferentes fontes com informações dos satélites Fengyun-3 e Fengyun-4.

A ferramenta entrou em operação na passagem fronteiriça Gyirong-Rasuwa, onde era prioritário avaliar os danos e organizar as primeiras ações de resgate. “A Administração Meteorológica da China tem fornecido ao Nepal uma ampla gama de produtos meteorológicos por meio do MAZU”, confirmou Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China. Previsões, monitoramentos meteorológicos e informações por satélite passaram, assim, a integrar uma operação realizada em uma das áreas mais atingidas pelo desastre.

O nome MAZU combina a mais recente tecnologia chinesa com uma figura milenar da cultura que protege os navegantes. Por um lado, é a sigla em inglês de Multi-hazard, Alert, Zero-gap and Universal, sistema concebido para alertas meteorológicos precoces; por outro, faz referência a Mazu, uma antiga deusa do mar venerada especialmente nas regiões costeiras do sul da China.

A questão é que o Nepal colocou em prática algo que Pequim havia anunciado meses antes em Xangai. Na Conferência Mundial de Inteligência Artificial, realizada em julho, o presidente Xi Jinping afirmou que a China ajudaria 30 países a utilizar o MAZU durante os próximos cinco anos. O pacote também incluirá 5 mil oportunidades de capacitação em inteligência artificial para países em desenvolvimento e a criação de centros internacionais de cooperação com a ASEAN, a Liga Árabe, a União Africana, a CELAC, a Organização de Cooperação de Xangai e os BRICS.

“Devemos rejeitar condutas como generalizar o conceito de segurança nacional no âmbito da IA e colocar a segurança de um país acima da de outros”, destacou Xi. Quem pode ter acesso aos avanços mais recentes, quem decide qual tecnologia um país pode utilizar e até que ponto a segurança nacional pode ser usada para fechar mercados ou dividir em blocos o desenvolvimento da inteligência artificial?

Na mesma cúpula, 29 países assinaram um acordo para criar a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), entidade com sede em Xangai que, segundo os documentos, se dedicará a promover a cooperação e a governança global da IA. No ato de lançamento, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, advertiu que a inteligência artificial pode ser “a maior oportunidade da humanidade no século XXI”, mas também “um de seus maiores riscos”. “A tecnologia que moldará o futuro deve ser moldada por toda a humanidade”, acrescentou o diplomata.

Dias depois, Pequim apresentou o Documento de Posição da China sobre a Governança Global da Rede na Era Digital/Inteligente durante a primeira reunião do Mecanismo Permanente de Cibersegurança da ONU. Para além do nome extenso, o documento reivindica o respeito mútuo à soberania digital e sustenta que cada país tem o direito de escolher seu próprio caminho de desenvolvimento tecnológico. Parte de uma premissa que atravessa a posição chinesa: o ciberespaço é uma extensão do mundo real. Nem mais, nem menos.

O texto também rejeita os monopólios tecnológicos e questiona aquilo que a China define como “hegemonia digital”. Recado para Washington? Sem dúvida.

Os Estados Unidos, por sua vez, vêm construindo sua própria arquitetura tecnológica em torno de iniciativas como a Pax Silica, lançada pelo Departamento de Estado para coordenar, com aliados e parceiros, as cadeias consideradas estratégicas. De minerais críticos a semicondutores e infraestrutura para inteligência artificial, tudo entra nesse conjunto.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, havia afirmado em junho que “o maior risco para a IA é que a China fique à frente” dos Estados Unidos. Três meses depois, foi ainda mais longe ao dizer que “não haverá um dia seguinte se a China vencer nisso”.

Enquanto Pequim fala em soberania digital e em não ser necessário escolher um lado, Washington começou a impor limites a essa possibilidade. Em agosto, veio a público um rascunho do Departamento de Estado que previa pedir aos parceiros da Pax Silica que escolhessem entre essa iniciativa e a coalizão de inteligência artificial impulsionada pela China.

Dos dois lados do balcão, não. Mas sim. O Cazaquistão ficou no meio dessa tensão, já que foi um dos países que assinaram a ata constitutiva da WAICO com a República Popular da China e, ao mesmo tempo, ingressou, em junho passado, na Pax Silica, iniciativa promovida pelos Estados Unidos.

Paralelamente a esse impasse, a China incorporou a soberania digital à sua legislação. A Lei de Cibersegurança, reformada em outubro de 2025 e em vigor desde 1º de janeiro de 2026, incluiu disposições sobre a segurança da inteligência artificial e aumentou as penas por infrações. A norma também estabeleceu a possibilidade de punir determinadas atividades realizadas a partir do exterior que afetem a cibersegurança chinesa.

Cada país, sustenta Pequim, tem o direito de decidir seu próprio caminho tecnológico e como defendê-lo. Para a China, a soberania não se negocia. A digital tampouco.

Fonte: Brasil 247

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