Por Gustavo Tapioca — Brasil 247

Amanhã, 4 de outubro, o Brasil realiza o primeiro turno da eleição presidencial. Lula tenta a reeleição. Flávio Bolsonaro, candidato da extrema-direita alinhado a Donald Trump e Marco Rubio, quer devolver ao Palácio do Planalto o poder político de seu pai, condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por liderar uma tentativa de golpe contra a democracia. 

O governo que Flávio quer reabilitar foi o do negacionismo na pandemia, do atraso na compra de vacinas denunciado pela CPI e do avanço do desmatamento na Amazônia, entre outros horrores. Jair Bolsonaro levou o país de uma gestão desastrosa a uma conspiração contra a democracia.  

Derrotado por Lula, Jair, o pai de Flávio, liderou uma trama golpista que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse do novo presidente.  

E, como está escrito no Plano Punhal Verde Amarelo descoberto pela Polícia Federal, pretendia derrubar e assassinar o presidente Lula e o vice Alkmin, empossados oito dias antes, em 1 de janeiro de 2023. 

É do próprio Flávio a promessa de subir a rampa com o pai. Em Porto Alegre, em 11 de abril, afirmou: “O presidente Jair Messias Bolsonaro vai subir a rampa junto com a gente em janeiro do ano que vem”. 

 A candidatura do filho oferece ao clã a possibilidade de recuperar, pelo voto, o poder que tentou conservar pelo golpe e pela imposição de uma ditadura. 

E se Flávio perder? 

O que farão os Bolsonaro e seus aliados em Washington? Na entrevista O maior teste da democracia brasileira, Jamil Chade conversa com Paulo Abrão, diretor do Washington Brazil Office e ex-secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.  

O alerta central é a construção antecipada de uma narrativa segundo a qual a eleição só será legítima se vencer o candidato da extrema-direita e de Trump e Rubio, Flávio Bolsonaro.  

Chade mostra que essa narrativa já circula nas redes digitais a exemplo do perfil Commentary Trump Daily, administrado pela plataforma conservadora Red Audience, ligada a Trump e ao movimento MAGA.  

O Trump Dayly apresenta Lula como presidente ilegítimo e repete a mentira de que Jair teve a eleição roubada e foi preso por seu adversário. 

 A mensagem reproduzida pelo jornalista Jamil Chade celebra Flávio como aliado de Washington: 

“Uma vitória de Bolsonaro é uma vitória dos Estados Unidos.” 

É a sucessão brasileira tratada como oportunidade de ampliar o poder norte-americano. A falsificação da história transforma um condenado em perseguido e prepara a desconfiança contra uma possível reeleição de Lula. 

Vários analistas têm alertado para o fato de que um golpe começa também quando se apresenta a derrota eleitoral como injustiça que autorizaria a força. 

Paulo Abrão, na entrevista a Jamil Chade, descreve como a contestação poderia ganhar aparência de confirmação internacional.  

Um grupo no Brasil acusa fraude.  

Uma autoridade estrangeira reproduz a acusação.  

A declaração retorna apresentada como prova de que o mundo duvida da eleição.  

A suspeita circula até parecer evidência. 

É nessa preparação da recusa ao resultado que surge o cheiro de golpe no ar se as urnas reelegerem Lula. 

A cobrança a Rubio 

A resistência também atravessa fronteiras. Representantes de 15 organizações da sociedade civil foram a Washington defender o respeito às urnas, qualquer que fosse o vencedor.  

A articulação ajudou a produzir a carta enviada a Rubio em 24 de setembro por 30 deputados democratas dos Estados Unidos e pelo senador Bernie Sanders. Eles denunciaram pressões econômicas, diplomáticas e políticas contra o Brasil. 

A pergunta é direta: a Casa Branca reconhecerá o resultado das urnas, certificado da eleição presidencial no Brasil? O prazo para Rubio responder à carta era na quinta-feira 1º de outubro.  

Na sexta-feira, 2, a CNN Brasil informou, com base no gabinete da deputada estadunidense Delia Ramirez, que Rubio não havia respondido.  

A cobrança foi reiterada. Segundo a revista TIME, a Casa Branca negou as acusações de interferência. 

Segurança diplomática  

O episódio diplomático desta sexta-feira, 2, acrescentou tensão. Os Estados Unidos suspenderam os serviços consulares presenciais no Brasil, alegando preocupações de segurança.  

A Austrália fechou sua embaixada em Brasília. Cleber Lourenço, no ICL, registra a preocupação de autoridades brasileiras com o efeito político desses avisos. 

A PF informou que cumpriu dois mandados para investigar possíveis ameaças às instalações norte-americanas. Até aquele momento, não havia encontrado elementos que confirmassem os riscos. A investigação continuava. 

 À noite, a campanha de Lula pediu ao TSE que incluísse a suspensão dos serviços consulares na apuração de suposta interferência externa nas eleições brasileiras. 

O sinal de Biden e o risco Trump 

Em 2022, Biden reconheceu a vitória de Lula ainda na noite de 30 de outubro, logo após a divulgação do resultado das urnas que elegeu Lula. 

Esse gesto ajudou a reduzir o espaço político para a tentativa de golpe liderada pelo pai de Flávio, Jair Bolsonaro, uma conspiração que incluía um plano para assassinar Lula antes da posse, segundo documentos encontrados pela PF.  

No 8 de janeiro de 2023, quando a baderna bolsonaristas se espalhou pela Praça dos Três Poderes, invadindo o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, uma semana após a posse de Lula, Biden voltou a defender as instituições brasileiras. 

Se Trump negar reconhecimento a uma possível reeleição de Lula, inverterá aquele sinal. Não anulará um único voto, mas poderá dar respaldo internacional às mentiras sobre fraude, estimular a agitação bolsonarista e agravar a crise diplomática. 

Uma escalada com novas sanções, tarifas e restrições à cooperação poderia atingir a economia; dependeria apenas de decisões adicionais do todos poderoso presidente dos Estados Unidos Donald Trump. 

Cuba e Venezuela 

A intensificação do embargo a Cuba adotada por Trump e Rubio – que está gerando consequências semelhantes ao genocídio do povo cubano – e o precedente venezuelano mostram até onde Trump e Rubio estão disposto a ir.  

Em 3 de janeiro de 2026, forças norte-americanas atacaram a Venezuela e capturaram Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores de dentro do Palácio Miraflores, em Caracas. Nove meses depois, ambos continuam presos em Nova York, respondendo a processo amparada em leis dos Estados Unidos.  

Esses precedentes, por si só, não demonstram que exista um plano semelhante contra o Brasil. Mas, o secretário-geral da ONU António Guterres, alertou para os riscos das operações das forças da maior potência militar do mundo contra dois países da América Latina. 

O reconhecimento rápido do resultado das urnas por outros governos poderia também reduzir o espaço da contestação e deixar Washington isolado. Mas o fato é que todos os países da Amárica do Sul, com exceção do pequeno Uruguai e do gigante Brasil, são governados por aliados a ultradireita continental liderada por Trump e Rubio.  

O perigo mais próximo é os Estados Unidos dar sustentação externa a uma tentativa interna de impedir que Lula, se reeleito, governe o país que ganhou nas urnas. 

Se houver segundo turno, em 25 de outubro, serão mais três semanas expostas a pressões externas.  A proteção da eleição precisa acompanhar a campanha, a apuração e o respeito ao resultado. 

A eleição pode terminar neste domingo, 4 de outubro. A obrigação de respeitá-la continuará.  Quem vencer deverá governar dentro das regras; quem perder deverá fazer oposição.  

Nenhuma aliança com Trump dá a Flávio, se derrotado nas urnas, licença para repetir a aventura golpista do pai. 

O Brasil não é herança dos Bolsonaro nem propriedade de Trump. Quem decide é o povo brasileiro. E a decisão das urnas tem que ser respeitada e terá de prevalecer. 

Seja qual for o resultado. 

Fonte: Brasil 247

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