Chanceler cubano denuncia bloqueio dos EUA e defende soberania na ONU

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Por José Reinaldo — Brasil 247

247 – Cuba condenou os Estados Unidos por ampliar o cerco econômico à ilha, restringir a chegada de combustível e tentar impedir sua cooperação médica com outros países. Ao discursar na Assembleia Geral da ONU, no sábado (26), o ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez Parrilla, advertiu contra uma agressão militar e afirmou que Havana continua aberta ao diálogo com Washington, desde que sua soberania seja respeitada.

O discurso, publicado pelo jornal cubano Granma, apresentou a pressão americana como o principal desafio imediato à sobrevivência econômica do país. Rodríguez afirmou que, desde janeiro de 2026, as restrições ao fornecimento de combustível tornaram a política dos Estados Unidos mais severa. Na avaliação do chanceler, a tentativa de impedir terceiros países de vender combustível a Cuba equivale a um bloqueio naval e constitui um ato de guerra.

Segundo Rodríguez, mais de 7 mil contêineres destinados à ilha foram retidos em diferentes portos. Parte das cargas, disse ele, continha alimentos, medicamentos e equipamentos médicos, inclusive encomendas feitas por empresas privadas cubanas. O ministro também apontou obstáculos ao transporte de outras mercadorias, pressões para afastar investidores estrangeiros e medidas que restringem o turismo, o financiamento e o acesso do país a tecnologias e mercados.

O chanceler apresentou a dimensão humana da denúncia. “A guerra econômica é dirigida contra o povo. Ela atinge a população cubana como um todo. Ceifa vidas, causa dor individual e coletiva e gera angústia”, afirmou. Para ele, as consequências das restrições não podem ser tratadas como efeitos secundários de uma disputa entre governos. Rodríguez classificou a política americana como punição coletiva e disse que ela busca provocar uma crise humanitária na ilha.

Em outro momento, resumiu a posição que levou à Assembleia Geral: “Cuba não é uma ameaça, o bloqueio é!” A frase foi usada para contestar a alegação do governo americano de que o país representa um risco à segurança nacional dos Estados Unidos. Rodríguez questionou como uma nação em desenvolvimento, com uma economia muito menor, poderia constituir uma ameaça à maior potência militar e econômica do mundo.

Cooperação médica sob pressão

O ministro dedicou parte do discurso à atuação de profissionais cubanos de saúde no exterior. Washington pressiona governos que solicitaram esses serviços a encerrar os acordos com Havana, sem considerar as consequências para as populações atendidas. Rodríguez afirmou que o Departamento de Estado reuniu, na quinta-feira (24), representantes de países beneficiários da cooperação médica para exercer pressão sobre eles.

Na avaliação do chanceler, as restrições compõem uma tentativa mais ampla de fechar as fontes de receita e abastecimento de Cuba. Ele relacionou a política atual à hostilidade mantida pelos Estados Unidos ao longo de quase sete décadas e afirmou que seu propósito é impor sofrimento à população para forçar uma mudança de governo.

O ministro também rejeitou a caracterização de Cuba como um “Estado falido”. Rodríguez argumentou que o alcance das medidas econômicas dos EUA contraria essa descrição: se o país não representasse interesse para Washington, perguntou, por que seria necessário pressionar outros governos e empresas a cortar relações com a ilha?

Alerta contra ação militar e oferta de diálogo

Ao abordar a possibilidade de uso da força, Rodríguez afirmou que uma agressão militar causaria mortes de cubanos e americanos, além de grande destruição. Ele disse esperar que esse cenário nunca se concretize, mas assegurou que o país reagiria. “Cuba exercerá com toda a sua determinação e energia o seu legítimo direito de se defender”, declarou.

A advertência veio acompanhada de uma proposta de negociação. “Sempre estivemos e continuamos abertos ao diálogo com o governo dos Estados Unidos para tentar resolver as diferenças bilaterais com base na seriedade, no respeito, na igualdade soberana e na observância do direito internacional, sem interferência em assuntos internos ou pré-condições”, afirmou. Rodríguez acrescentou que Havana também está aberta a relações comerciais com empresas americanas.

Para o chanceler, a disposição de conversar não altera a decisão cubana de preservar sua independência. Ele afirmou que gerações de cidadãos lutaram pela soberania do país e que o governo não aceitará abrir mão desse princípio diante de pressões econômicas ou ameaças militares.

Mudanças econômicas em Cuba

Rodríguez reconheceu a gravidade dos desafios internos. O país enfrenta, segundo ele, problemas que afetam a segurança, o abastecimento e o bem-estar da população. Ao tratar da resposta do governo, afirmou: “Não enfrentamos esse desafio passivamente. Fazemos isso com determinação e dignidade.”

O ministro apresentou as transformações do modelo econômico e social cubano como parte dessa resposta. Recordou que a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou um programa com novas práticas, agentes e conceitos econômicos. Segundo ele, as mudanças serão conduzidas dentro da Constituição vigente e devem preservar as políticas sociais e a soberania nacional.

Rodríguez citou uma declaração do presidente Miguel Díaz-Canel à Assembleia Nacional, em julho, na qual o dirigente defendeu as adaptações que o momento exige, “sem comprometer a independência, a soberania nacional ou as conquistas sociais da Revolução”. O chanceler também mencionou a posição de Raúl Castro de que o resultado dependerá de uma implementação oportuna, com prioridades definidas e participação da população.

Além das medidas internas, Rodríguez destacou o apoio internacional recebido por Cuba. Segundo ele, manifestações de solidariedade e ajuda material contribuem para reduzir os danos à economia e à sociedade. O ministro deu atenção especial aos cubanos que vivem fora da ilha, inclusive nos Estados Unidos, e a seus descendentes.

Defesa da ONU e crítica ao uso da força

O pronunciamento ultrapassou a relação bilateral com Washington. Rodríguez disse que a tentativa de impor a paz pela força ameaça a igualdade soberana dos Estados, um dos fundamentos da ONU. Defendeu que a organização seja fortalecida, se torne mais democrática e recupere sua capacidade de responder a conflitos e violações do direito internacional.

O chanceler condenou a situação do povo palestino, os ataques a embarcações e as execuções extrajudiciais que denunciou no Caribe e no Pacífico. Também criticou a agressão contra a Venezuela e a guerra contra o Irã. Para ele, esses episódios expressam o avanço de uma ordem internacional baseada na coerção, diante da qual a ONU precisa exercer um papel mais efetivo.

Rodríguez rejeitou ainda a Doutrina Monroe e iniciativas de militarização ou intervenção na América Latina e no Caribe. Manifestou apoio à autodeterminação de Porto Rico e do povo saarauí, ao princípio de “Uma Só China” e à reivindicação de tratamento justo e reparações para países africanos e caribenhos marcados pelo colonialismo e pelo tráfico transatlântico de escravizados. Também pediu uma governança mais inclusiva para tecnologias como a inteligência artificial e chamou atenção para os riscos das mudanças climáticas aos pequenos Estados insulares.

Na conclusão, o ministro retomou as palavras pronunciadas por Fidel Castro na Assembleia Geral em 1960, há 66 anos, e relacionou a memória daquele discurso aos impasses atuais. “A lei da selva não pode ser o futuro da humanidade”, afirmou Rodríguez. No ano do centenário de nascimento do líder da Revolução Cubana, pediu que os países preservem a ONU como espaço de negociação antes que suas promessas de paz e justiça percam força.

Fonte: Brasil 247

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