“Chamar eleitor do Flávio Bolsonaro de fascista não ajuda nada”, diz Breno Altman
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Em participação no programa Bom Dia 247, o jornalista e analista político Breno Altman fez um apelo contundente pela mudança de postura da esquerda e dos apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no diálogo com a população. Segundo Altman, a agressividade e a rotulagem sumária de quem não votou em Lula constituem um “tiro no pé” que inviabiliza a conquista de votos decisivos para o segundo turno da disputa presidencial.
Logo no início de sua intervenção, Altman pontuou que o momento de lamentar os números das urnas se esgotou e deu lugar à urgência da ação política organizada.
“Vinte e quatro horas de tristeza tá de bom tamanho. Todo mundo tem direito a 24 horas de tristeza. A partir de agora, tem que buscar as pessoas com humildade, com tranquilidade, sem agressão”, alertou o jornalista.
A armadilha do ressentimento e da soberba
Para Breno Altman, o maior erro da militância progressista após um revés é descontar a frustração sobre o próprio eleitorado. Tratar quem não apoiou Lula como inimigo ou cúmplice moral da extrema-direita apenas aprofunda o abismo e empurra indecisos em definitivo para o colo da oposição.
“Se você chegar para os eleitores que não votaram no Lula e dizer: ‘Ou você vota no Lula ou você é fascista, ou você vota no Lula ou você é ignorante’, não vai dar certo. Tem que chegar na humildade, como se diz na periferia de São Paulo: conversando, sabendo ouvir. Ouvir as críticas ao presidente Lula, ouvir as reclamações, frustrações e mágoas, para só então argumentar”, sustentou.
O jornalista fez questão de delimitar uma linha nítida entre as lideranças da extrema-direita e o cidadão comum:
- A cúpula bolsonarista: Contra figuras como Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro e seu núcleo político, a denúncia e o enfrentamento devem ser rigorosos, incisivos e intransigentes.
- O eleitor da base: Com o eleitor comum, o tom precisa ser outro — paciente, didático e empático, compreendendo as dores econômicas e o desencanto que muitas vezes motivam o voto de protesto.
O desafio numérico: buscar 5 milhões de votos
Analisando a correlação de forças expressa na apuração, Altman projetou a escala do esforço que as forças democráticas têm pela frente. Para virar a disputa contra Flávio Bolsonaro, a margem de crescimento necessária supera com folga a diferença inicial apurada no primeiro turno.
Segundo Altman, embora a distância matemática imediata seja de pouco mais de 2,2 milhões de votos, a dinâmica eleitoral exige mirar um saldo substancialmente maior:
“Nós vamos ter que trabalhar provavelmente para conquistar cerca de 5 milhões de votos para virar o jogo e ficar à frente de Flávio Bolsonaro”, calculou.
Sair do debate abstrato: os quatro riscos centrais
Ao traçar as diretrizes da linha discursiva de campanha, o analista advertiu que bandeiras puramente conceituais, como o confronto genérico entre “democracia e fascismo”, têm alcance restrito e mobilizam quase que exclusivamente eleitores já convencidos.
Para alcançar a maioria trabalhadora, a campanha precisa falar sobre o cotidiano e a vida material. Altman sintetizou os riscos de uma vitória de Flávio Bolsonaro em quatro eixos prioritários:
- Destruição dos direitos sociais e trabalhistas:O retorno da pauta ultraliberal significará perda de renda real, desregulamentação do trabalho, enfraquecimento da Previdência Social, cortes drásticos em programas assistenciais e paralisia dos investimentos públicos essenciais à geração de emprego.
- Subordinação e entrega da soberania nacional:Uma política externa subordinada aos interesses geopolíticos de Washington e de Donald Trump, transformando o Brasil em mero satélite econômico e entregando ativos estratégicos e riquezas nacionais ao capital estrangeiro.
- Avanço do crime organizado e de esquemas de corrupção:A captura dos aparelhos institucionais por redes ligadas a interesses milicianos, operadores escusos e figuras associadas a esquemas predatórios no Estado.
- Degradação das liberdades democráticas e violência de Estado:O aumento da criminalização dos movimentos populares, o cerceamento das liberdades civis e a institucionalização da repressão contra manifestações sociais e vozes dissidentes.
Altman concluiu reforçando que a virada nas urnas não virá pelo grito, mas pela consistência dos argumentos e pela capacidade de acolher o eleitor que ainda hesita: “Com muita tranquilidade, a agressividade afasta o eleitor que pode ser conquistado. É na razão, na sobriedade e na paciência que se constrói essa vitória”.
Assista à íntegra da análise no canal de cortes do Brasil 247:
Fonte: Brasil 247