Caso Master expõe rede de Vorcaro e amplia crise no STF
Por Leonardo Lucena — Brasil 247
247 – O caso do Banco Master deixou de se limitar à suspeita de fraude no sistema financeiro e passou a envolver autoridades do Legislativo, do Judiciário e uma crise aberta no Supremo Tribunal Federal (STF). A informação foi publicada neste sábado (12) pelo Portal G1.
A apuração ganhou novo alcance após a apreensão do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, preso em novembro de 2025. No aparelho, a Polícia Federal encontrou conversas e registros que citam autoridades como o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência.
A crise começou com a liquidação do Banco Master pelo Banco Central e a prisão de Vorcaro. A suspeita inicial envolvia fraude bilionária, venda de carteiras de crédito sem lastro e emissão de títulos que a instituição não teria condições de honrar. Em menos de um ano, o caso passou a atingir a política nacional em ano eleitoral.
Segundo as investigações, Vorcaro mantinha uma rede de contatos que incluía servidores públicos, integrantes do Banco Central, políticos e dirigentes de instituições financeiras. Os investigadores apuram indícios de pagamentos, presentes, convites para festas e benefícios em troca de informações e de ações favoráveis aos interesses do banco.
A Operação Compliance Zero, criada para aprofundar as apurações sobre o Master, chegou a dez fases até julho. O ministro Dias Toffoli supervisionava originalmente o caso no STF, mas a relatoria passou a André Mendonça em fevereiro, após suspeitas sobre o envolvimento de Toffoli em negócios com fundo ligado ao Master.
Dark Horse e Flávio Bolsonaro
Uma das frentes mais sensíveis do caso envolve o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Em maio, o Intercept Brasil revelou mensagens e um áudio em que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Daniel Vorcaro para pagar a produção. A TV Globo confirmou as informações, segundo o texto fornecido.
Em uma das mensagens citadas na reportagem, Flávio afirmou: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”. Segundo o material, Vorcaro pagou R$ 61 milhões ao projeto.
Flávio Bolsonaro negava relação com Vorcaro. Depois da divulgação das mensagens, passou a afirmar que o pedido de dinheiro tratava de “patrocínio” a um projeto privado e sem irregularidades.
Em julho, foi aberta uma investigação sobre o financiamento do filme. A apuração busca esclarecer a origem, o uso e o destino dos recursos, inclusive se parte do dinheiro serviu para bancar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Na sexta-feira, veio a público que Flávio Bolsonaro é investigado no inquérito relatado por André Mendonça, que apura os repasses feitos por Vorcaro. A quebra de sigilo de parte dos documentos mostrou que o senador é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. O presidenciável negou irregularidades e defendeu transparência total.
Além do inquérito sob relatoria de Mendonça, outra investigação no STF apura o caso Dark Horse sob comando de Flávio Dino. Nessa frente, a PF investiga a produtora Karina Gama e o deputado Mario Frias (PL), roteirista do filme.
A Polícia Federal também apura se R$ 2 milhões em emendas parlamentares direcionadas por Frias foram usados em contratos não cumpridos por Karina. Uma operação determinada por Dino na quinta-feira (10) apreendeu materiais em endereços de investigados.
Moraes e contratos com o Master
Outra frente do caso envolve Alexandre de Moraes. Documentos com sigilo retirado por André Mendonça no dia 1º apontam que Moraes e Vorcaro mantiveram contato frequente e teriam se encontrado mais de uma vez entre março de 2024 e agosto de 2025.
Os documentos também revelaram contratos entre empresas de Vorcaro e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Um dos contratos, de R$ 131 milhões, teria sido editado por Moraes, segundo a PF.
Outro contrato, de R$ 50 milhões, previa pagamento em dinheiro ou por meio da entrega de bens. Uma proposta encontrada pelos investigadores indicava que R$ 40 milhões seriam quitados com cotas de um jatinho e de um helicóptero.
As mensagens também indicam proximidade entre Vorcaro e Moraes. Em novembro de 2025, o banqueiro afirmou ter uma “dívida de vida” com o ministro e agradeceu por “tudo”. Em outra conversa, reclamou que um pagamento ao escritório de Viviane não havia sido feito e classificou a quitação como “o mais importante que temos”, dizendo que poderiam surgir “problemas”.
A PF ainda identificou registros sobre uma viagem de Moraes a Campos do Jordão, em dezembro de 2023. Segundo os documentos, Vorcaro orientou auxiliares a prepararem uma “experiência completa” para convidados tratados como “ultra VIP”, com chef particular, passeios a cavalo e seguranças.
O material também aponta relação entre o ex-banqueiro e o ministro em eventos jurídicos organizados pelo Banco Master em Londres. Moraes teria participado de decisões sobre convidados e programação. O escritório de Viviane Barci informou que não conduziu causas para Vorcaro no STF e que o contrato foi suspenso após a liquidação do Master.
Crise no Supremo
A retirada de sigilo de trechos do caso Master por André Mendonça, em 1º de setembro, ampliou a crise institucional no Supremo. O presidente da Corte, Edson Fachin, marcou sessão para a próxima terça-feira (15) em busca de uma saída para o impasse.
Mendonça liberou trechos que mostravam diálogos entre Moraes e Daniel Vorcaro. Depois disso, Moraes usou relatórios de inteligência da PF, sem caráter probatório, para acusar Mendonça de abuso de autoridade na relatoria do caso Master e pediu à Presidência do STF a abertura de investigação contra o colega.
A reação de Mendonça veio com ordem para destituir o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. O relator alegava que a PF monitorava ministros do STF. Andrei recorreu, e Flávio Dino devolveu os cargos aos dois dirigentes.
Para reduzir a tensão, Fachin retirou de Moraes a relatoria do inquérito das Fake News, suspendeu decisões de Mendonça e Dino sobre a direção da PF e pediu a abertura do sigilo de inquéritos do caso Master. Parte dos documentos foi liberada na quinta-feira (10), e outra parte começou a ser revelada na sexta-feira.
As novas quebras de sigilo alcançaram processos sobre Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira (PP-PI), Cláudio Castro (PL-RJ), Jaques Wagner (PT-BA) e Thiago Miranda.
No caso de Jaques Wagner, a apuração investiga a relação do senador com Augusto Lima, ex-sócio do Master, e aponta indícios de vantagens financeiras por meio de repasses a uma empresa ligada a familiares do parlamentar e da aquisição de um apartamento em Salvador. Wagner nega irregularidades.
Na frente que envolve Ciro Nogueira, a PF apura possível atuação do senador no Congresso em favor de Vorcaro e do Banco Master, com a apresentação da chamada “emenda Master”. A investigação que envolve Cláudio Castro apura possíveis irregularidades nos R$ 3,6 bilhões aplicados pelo Rioprevidência no Banco Master. Os dois negaram irregularidades durante as diligências.
Fonte: Brasil 247