Canal de Pinglu: de uma rota mais curta a laços mais estreitos entre China e ASEAN

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Por Chen ZiqiBrasil 247

A inauguração do Canal de Pinglu no sul da China, em 16 de setembro, representa muito mais do que o lançamento de uma nova via navegável. Ao criar uma rota mais curta do sudoeste da China para o mar, o canal pode transformar o transporte de mercadorias entre o país e os membros da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático), além de abrir novas oportunidades de comércio e cooperação.

Com 134,2 quilômetros de extensão, o canal conecta a rede de navegação do Rio Xijiang ao Golfo de Beibu, cortando a Região Autônoma de Guangxi Zhuang em direção ao mar até o Porto de Qinzhou. Projetado para embarcações de até 5.000 toneladas, ele oferece um trajeto sul mais direto do sudoeste chinês ao Mar da China Meridional.

Anteriormente, as cargas que saíam do sudoeste da China rumo ao litoral precisavam seguir um caminho mais longo para o leste, atravessando Guangdong antes de alcançar o mar. O Canal de Pinglu elimina esse desvio, reduzindo a distância da navegação fluvial em mais de 560 quilômetros. Autoridades estimam que a nova rota possa reduzir os custos logísticos entre 18% e 30%, gerando uma economia anual superior a US$ 700 milhões em transporte.

Para as empresas e economias da ASEAN, no entanto, a importância do Canal de Pinglu pode ir além da economia em remessas individuais.

Em entrevista à China Central Television (CCTV), a emissora pública nacional chinesa, embaixadores de diversos países da ASEAN destacaram a relevância regional do projeto. A embaixadora do Camboja na China, Soeung Rathchavy, afirmou que o canal deve facilitar o trânsito de produtos agrícolas entre o Camboja e a China, simplificando a entrada e saída de mercadorias cambojanas do mercado chinês.

Já o embaixador do Laos na China, Somphone Sichaleune, pontuou que o canal pode ajudar o Laos — um país sem saída para o mar — a superar a limitação do acesso marítimo e a abrir novas oportunidades de desenvolvimento.

De uma rota mais curta a uma cadeia de suprimentos mais ampla

A importância do canal reside, em parte, no local onde ele se conecta. Guangxi fica próxima ao Vietnã e já integra o Novo Corredor de Comércio Internacional Terra-Mar, que vincula o interior da China aos mercados da ASEAN e a outros destinos internacionais.

A nova rota pode tornar mais viável e econômica a movimentação não apenas de produtos acabados, mas também de matérias-primas e bens intermediários por toda a região.

Produtos agrícolas, borracha, bens semiacabados e outras commodities das nações da ASEAN, por exemplo, poderão ser transportados para o sudoeste da China para processamento ou fabricação, enquanto máquinas e bens industrializados farão o trajeto inverso.

Isso pode transformar gradualmente a infraestrutura de transporte em parte de uma rede de produção mais ampla, na qual diferentes etapas da fabricação são distribuídas entre a China e a ASEAN conforme as vantagens competitivas de cada lado.

Um exemplo disso já pode ser visto em Nanning, em Guangxi.

Em maio do ano passado, a Base de Produção de Borracha China-Camboja iniciou suas operações na Zona Franca Consolidada de Nanning.

Apoiado por parceiros do Camboja e da Tailândia, o projeto inclui uma linha de produção de mistura de borracha com capacidade anual de 24.000 toneladas, além de instalações de pesquisa e armazenagem. A expectativa era de que o projeto gerasse uma produção industrial de cerca de US$ 149,8 milhões em 2026.

A iniciativa mostra como uma commodity que antes cruzava fronteiras principalmente como matéria-prima bruta pode se tornar parte de uma cadeia produtiva mais ampla, com matérias-primas, processamento, experiência técnica e mercados distribuídos por diferentes países.

À medida que o Canal de Pinglu encurta a distância do transporte hidroviário interior entre o sudoeste da China e o litoral, ele pode aumentar a eficiência dessas redes de produção transfronteiriças e dar às empresas maior flexibilidade para decidir onde obter, processar, armazenar e distribuir mercadorias.

O impacto potencial pode se estender para além das fábricas, alcançando indústrias de apoio, como logística, armazenagem e processamento secundário.

Crescimento do comércio e expansão da conectividade

A escala do comércio entre China e ASEAN ajuda a explicar por que a melhoria da conectividade física entre as duas partes é relevante.

A China é o maior parceiro comercial da ASEAN há 17 anos consecutivos. Dados da Administração Geral de Alfândegas da China mostram que, nos primeiros oito meses deste ano, o comércio bilateral entre China e ASEAN atingiu US$ 887 bilhões, representando cerca de 17% do comércio exterior total da China.

Durante recepção em Pequim, em 15 de setembro, que marcou o quinto aniversário da Parceria Estratégica Ampla ASEAN-China, o secretário-geral da ASEAN, Kao Kim Hourn, afirmou que a parceria está gerando benefícios reais para mais de 2 bilhões de pessoas, abrangendo paz regional, estabilidade e prosperidade, comércio e investimento, conectividade, transformação digital, agricultura, educação, turismo e desenvolvimento sustentável.

O Canal de Pinglu adiciona um novo elo físico a esses laços econômicos em expansão, somando-se às redes ferroviárias e rodoviárias, portos, corredores comerciais, projetos industriais transfronteiriços e conectividade digital que conectam cada vez mais as economias da China e da ASEAN.

Comércio, infraestrutura e a transição ecológica

A abertura do canal ocorre também em um momento no qual a cooperação econômica entre China e ASEAN se expande para além do comércio tradicional de mercadorias.

O Protocolo de Atualização 3.0 da Zona de Livre Comércio China-ASEAN (CAFTA), assinado em outubro do ano passado, inclui novas áreas de cooperação, como economia digital, economia verde e conectividade da cadeia de suprimentos.

A medida oferece um arcabouço mais amplo para comércio e investimentos em indústrias emergentes, incluindo as vinculadas à transição ecológica.

O Canal de Pinglu pode complementar essa estrutura ao fornecer a infraestrutura física necessária para o transporte de produtos e materiais envolvidos nessa transição.

Veículos elétricos e baterias são um exemplo claro. À medida que a produção e o comércio de produtos de energia limpa se expandem pela China e pela ASEAN, conexões de transporte eficientes e econômicas se tornarão cada vez mais cruciais para o envio de baterias, componentes e veículos acabados entre bases de produção e mercados.

O canal pode oferecer uma alternativa hidroviária adicional para essas cargas, sobretudo entre o sudoeste da China e o Golfo de Beibu, com potencial para reduzir a pegada de carbono do transporte de mercadorias em comparação com o modal rodoviário.

O próprio canal está sendo posicionado como uma plataforma para o transporte sustentável. Em agosto, a fabricante chinesa de baterias CATL assinou um acordo de cooperação estratégica com o Grupo do Canal de Pinglu para a implementação de sistemas de energia com emissão zero de carbono no canal.

O plano abrange embarcações elétricas, locação de baterias, energia renovável, armazenamento de energia e sistemas inteligentes de gestão energética.

O verdadeiro teste do Canal de Pinglu não será o número de navios que por ele passarão, mas sim as transformações viabilizadas por essa nova rota.

O canal pode ter sido construído para encurtar o caminho até o mar, mas sua maior relevância pode residir no novo impulso dado à parceria entre China e ASEAN, tornando a cooperação econômica e comercial mais fluida e integrada.

Fonte: Brasil 247

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