Camilo Santana defende protagonismo do PT no debate sobre segurança pública e diz que Lula já defendia reduzir maioridade penal

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Por Otávio Rosso — Brasil 247

247 – O senador Camilo Santana (PT-CE), um dos coordenadores da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reconheceu que o Partido dos Trabalhadores evitou durante anos enfrentar o debate sobre segurança pública e revelou que Lula já concordava com a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos, antes mesmo de manifestar publicamente essa posição.

Em entrevista à Folha de São Paulo, Camilo afirmou que conversou com o presidente antes de apresentar no Senado a proposta de alteração da idade de responsabilização penal. Segundo o parlamentar, a iniciativa não representa uma concessão eleitoral de Lula, mas uma posição que já vinha sendo discutida por integrantes do PT preocupados com o avanço da violência e com a percepção de impunidade no país.

“O PT durante muito tempo fugiu dessa discussão”, declarou Camilo. O senador acrescentou que, além dele, nomes como os governadores Rafael Fonteles, do Piauí, e Elmano de Freitas, do Ceará, e os ministros Rui Costa e Wellington Dias já defendiam a necessidade de aprofundar o debate dentro da legenda.

Questionado se havia convencido Lula a apoiar a redução da maioridade penal, Camilo foi categórico: “Não, ele já concordava com isso.”

O parlamentar também afirmou que o tema não havia sido tratado publicamente pelo presidente porque, segundo sua avaliação, a questão não tinha sido apresentada diretamente a ele. “Ninguém nunca perguntou”, disse.

Redução da maioridade penal e críticas ao Judiciário

Camilo defendeu que adolescentes a partir dos 16 anos possam responder criminalmente como adultos em situações envolvendo crimes de extrema gravidade. Para ele, a possibilidade de votar nessa idade deve vir acompanhada de maior responsabilização pelos próprios atos.

“Se uma pessoa que tem 16 anos tem o direito de votar, também precisa responder pelos seus atos. Estamos colocando só para crimes extremamente graves. A oposição quer diminuir para 14 anos. Somos contra”, afirmou.

Apesar de defender a mudança, o senador reconheceu que a alteração da legislação penal, isoladamente, não seria suficiente para enfrentar a criminalidade. Ele destacou a necessidade de combinar medidas de responsabilização com investimentos em prevenção, educação e oportunidades de trabalho.

Camilo também apontou a lentidão do sistema de Justiça como um dos fatores que contribuem para a insegurança da população.

“Principalmente uma reforma do Judiciário que garanta celeridade no julgamento dos crimes contra a vida do cidadão e da cidadã. Há uma sensação de impunidade. É uma crítica construtiva”, declarou.

O senador sustentou que a discussão sobre a maioridade penal precisa ocorrer sem comprometer a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, encaminhada pelo governo federal ao Congresso Nacional.

Na avaliação dele, a oposição procurou introduzir o tema da responsabilização de adolescentes para dificultar a aprovação da proposta governista. Camilo defendeu que as duas matérias sejam examinadas separadamente.

“Somos a favor da redução para essa idade, então vamos votar. Agora, achamos que essa discussão pode ser numa nova PEC e deixar votar a PEC da Segurança Pública”, afirmou.

O parlamentar também acusou adversários do governo de adotarem uma postura de obstrução das iniciativas federais na área da segurança. Segundo ele, o debate precisa priorizar medidas efetivas de enfrentamento da violência, apontada como uma das maiores preocupações dos brasileiros.

Camilo admite falhas na comunicação do governo Lula

Além de abordar a segurança pública, Camilo Santana reconheceu dificuldades da campanha presidencial para transmitir à população os resultados da atual administração federal.

O senador afirmou que o governo não conseguiu estabelecer uma comunicação suficientemente eficaz com o eleitorado, apesar de considerar que a gestão petista apresenta resultados superiores aos da administração de Jair Bolsonaro.

“Acho que nós não conseguimos nos comunicar bem. Porque se você for comparar o governo do presidente Lula com o governo do Bolsonaro é incomparável em todas as áreas”, declarou.

Camilo também admitiu que o governo pode não ter compreendido adequadamente as principais demandas da sociedade.

“Acho que faltou entender, se conectar com os desejos maiores, com as prioridades da população. Talvez seja isso”, avaliou.

As declarações ocorrem em meio à reorganização da campanha de Lula para o segundo turno da eleição presidencial, disputado contra Flávio Bolsonaro. Camilo passou a integrar a coordenação nacional após a vitória de seu grupo político no Ceará, em uma tentativa de reproduzir estratégias eleitorais bem-sucedidas nos estados.

O senador reconheceu que a população continua insatisfeita com aspectos da realidade brasileira e defendeu uma mudança no discurso da campanha, que, segundo a pergunta apresentada na entrevista, vinha sendo criticado internamente por transmitir uma avaliação excessivamente positiva da situação do país.

“O povo está achando que está tudo bom? Não. O que nós queremos dizer para a população? A mudança segura é com Lula”, afirmou.

Na avaliação de Camilo, a campanha precisa demonstrar que a continuidade do governo representa uma alternativa de transformação com menor risco para a população.

“Essa mudança que eles [adversários] estão propondo é uma mudança que prejudica o povo e só favorece os poderosos. Ao contrário da visão do presidente Lula, que favorece o povo e coloca a conta para os poderosos”, declarou.

Campanha aposta em indecisos e eleitores ausentes no primeiro turno

Mesmo diante de pesquisas que apontavam movimentações graduais nas intenções de voto a nove dias da eleição, Camilo demonstrou confiança em uma vitória de Lula.

O senador afirmou que a campanha pretende concentrar esforços em eleitores que votaram no presidente em 2022, mas não compareceram às urnas no primeiro turno deste ano, além de tentar conquistar indecisos e pessoas cujo apoio a Flávio Bolsonaro considera pouco consolidado.

“Tem pessoas que votaram no Flávio, mas de forma frágil. Tem pessoas que ainda estão indecisas, tem gente que votou em Lula em 2022 e não foi votar agora. Estamos estimulando para que esse eleitor possa ir votar”, explicou.

Camilo afirmou acreditar em uma virada eleitoral na reta final da disputa e disse que a campanha precisa transmitir confiança aos apoiadores.

“É maravilhoso ganhar uma eleição cruzando a boca do jacaré no final”, declarou.

Ao comentar os riscos que associa a uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, o senador recorreu a uma frase da cantora Ivete Sangalo para defender que o descontentamento com a situação atual não determine, por si só, a escolha do eleitor.

“Aquela frase da Ivete Sangalo: a insatisfação não pode ser maior do que a lucidez”, afirmou.

O coordenador também ressaltou o impacto político da chegada de dirigentes petistas que obtiveram resultados positivos nas disputas estaduais, entre eles Rui Costa e Rafael Fonteles, à campanha nacional.

“Isso dá ânimo na tropa. Não podemos ter uma campanha com cara de derrota. Tem que ter campanha com cara de vitória”, disse.

Senador cobra imparcialidade do TSE

Camilo também manifestou preocupação com a atuação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, na condução do processo eleitoral.

Segundo o parlamentar, a campanha de Lula já apresentou críticas públicas a decisões e à demora na análise de pedidos relacionados à disputa presidencial.

“Já denunciamos publicamente, exigindo imparcialidade. Por exemplo, ele está com pedido de resposta da revista Veja e até hoje não tomou uma decisão. Se ele quer negar, que negue. O tribunal não pode causar desequilíbrio no processo eleitoral”, afirmou.

O senador também acusou o magistrado de agir parcialmente em decisões relacionadas à comunicação eleitoral do presidente.

“Denunciamos que ele estava sendo parcial, censurando os gestos do Lula”, declarou.

As afirmações representam a avaliação do coordenador da campanha petista sobre a atuação da Justiça Eleitoral.

Bolsa Família e reajustes sociais entram no debate eleitoral

Outro tema abordado na entrevista foi a declaração de Lula de que desconhecia a ausência de reajuste no valor do Bolsa Família, situação explorada pela oposição para questionar a atenção do presidente à população de baixa renda.

Camilo procurou contextualizar a manifestação de Lula a partir de outras iniciativas sociais e econômicas do governo, especialmente a política de valorização do salário mínimo e os reajustes destinados à alimentação escolar.

Segundo o senador, o presidente acreditava que os benefícios do Bolsa Família também estivessem sendo corrigidos de maneira semelhante ao salário mínimo.

“Ele acha que isso é automático, que o Bolsa Família era para estar dando os reajustes, da mesma forma que é o salário mínimo. Ele se surpreendeu quando foi verificar que não tinha sido dado reajuste e resolveu dar tudo de uma vez”, afirmou.

Camilo destacou ainda que o governo Lula promoveu alterações legislativas para assegurar ganhos reais ao salário mínimo e reajustou os valores destinados à merenda escolar, medidas que apresentou como exemplos da prioridade dada às políticas sociais.

Flávio Bolsonaro e o debate sobre o fim da escala 6×1

O senador também contestou a possibilidade de que o apoio de Flávio Bolsonaro à PEC do fim da escala de trabalho 6×1 represente uma garantia de continuidade da proposta em um eventual governo liderado pelo adversário.

Questionado se o voto favorável de Flávio dificultaria a estratégia petista de apresentá-lo como uma ameaça à mudança na jornada de trabalho, Camilo respondeu que não.

“Mas é claro que ele é. O líder do partido dele na Câmara, o Sóstenes [Cavalcante], já disse que Flávio Bolsonaro ganhando, eles iriam rever”, afirmou.

A declaração indica que a campanha de Lula pretende manter o tema dos direitos trabalhistas entre os pontos de diferenciação em relação ao adversário, apesar do posicionamento de Flávio Bolsonaro na votação da proposta.

Sucessão de Lula e futuro do PT

Ao ser questionado sobre o futuro do Partido dos Trabalhadores depois de Lula e sobre a possibilidade de seu próprio nome integrar uma futura disputa pela liderança nacional da legenda, Camilo evitou demonstrar interesse em uma candidatura.

O senador afirmou que sua participação na campanha está relacionada à defesa de um projeto político e à experiência que acumulou como governador do Ceará, especialmente durante o governo Bolsonaro.

“Se eu saísse da política hoje, seria o homem mais realizado do mundo”, declarou.

Camilo disse que decidiu participar diretamente da campanha presidencial por considerar fundamental impedir o retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto.

“Eu estou fazendo esse trabalho, fiz esse esforço no Ceará, porque não quero que esse país seja entregue. Fui governador e sei o que eu sofri no governo Bolsonaro”, afirmou.

O parlamentar também rejeitou a ideia de que sua atuação na coordenação da campanha tenha como objetivo construir uma candidatura futura.

“Eu estou aqui por convicção, por paixão ao meu país. Não é absolutamente com interesse nenhum. Zero”, concluiu.

Fonte: Brasil 247

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