Brics tem 40% do PIB global: segundo turno pode mudar posição do Brasil na economia global

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Por gutoalves — Fundação Perseu Abramo

O segundo turno das eleições de 2026, entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), coloca em disputa a posição do Brasil em um mundo no qual os países em desenvolvimento ampliam sua influência. A escolha do próximo presidente vai definir a orientação da política externa brasileira, com efeitos sobre a atração de investimentos, a geração de empregos e a capacidade do país de defender seus interesses.

Essas decisões chegam à vida cotidiana. Acordos comerciais, tarifas e acesso a mercados influenciam a produção, a renda e os preços. Por isso, mesmo para quem considera a eleição distante da própria rotina, o voto também ajuda a decidir com quem o Brasil negociará e em quais condições.

Durante décadas, Estados Unidos e potências europeias concentraram grande parte do poder de decisão sobre a economia internacional. A expansão do Brics, grupo do qual o Brasil é um dos fundadores, amplia o espaço dos países em desenvolvimento nesse cenário.

Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgados em 2025 pela presidência brasileira do grupo, mostram que seus integrantes respondiam por cerca de 40% do PIB mundial em 2024, diante de aproximadamente 29% do G7. A comparação considera a paridade do poder de compra, medida que leva em conta as diferenças de preços entre os países.

O Brics reúne quase metade da população mundial e economias com diferentes capacidades produtivas. China e Índia têm papel central na indústria e na tecnologia, a Rússia dispõe de grandes reservas de recursos naturais e o Brasil se destaca na produção de alimentos e no fornecimento de petróleo e minérios. Essa combinação amplia as possibilidades de cooperação e comércio entre seus integrantes.

Para o Brasil, participar das decisões desse grupo significa ampliar sua capacidade de negociar investimentos, abrir mercados e defender mudanças nas instituições internacionais, nas quais as potências tradicionais ainda concentram poder.

Soberania ou alinhamento a Washington

Lula defende aprofundar a cooperação com o Brics e os demais países do Sul Global, além de fortalecer a integração da América Latina por meio do Mercosul. Essa orientação busca diversificar parceiros e ampliar a autonomia brasileira para negociar. Também envolve a defesa dos interesses nacionais na exploração de riquezas estratégicas, como o petróleo e os minerais essenciais à transição energética.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, coloca a aproximação com os Estados Unidos no centro de sua estratégia. O candidato já defendeu reavaliar a permanência do Brasil no Brics e flexibilizar o Mercosul para buscar um acordo comercial bilateral com Washington. Suas posições apontam para uma mudança de prioridades na política externa, em meio às disputas comerciais e às pressões do governo norte-americano.

Manter relações com os Estados Unidos e a Europa faz parte dos interesses brasileiros. A questão em disputa é o grau de autonomia para conduzir essas relações. A diversificação de parceiros aumenta as opções do país, enquanto um alinhamento político prioritário a Washington pode restringir sua margem de negociação com outras economias e afastá-lo de oportunidades entre os países em desenvolvimento.

A disputa pelo dólar e as barreiras comerciais

O Brics também discute formas de ampliar o comércio em moedas locais e reduzir a dependência do dólar nas transações entre seus integrantes. A proposta busca criar alternativas de pagamento e diminuir a exposição às decisões tomadas pelos Estados Unidos sobre sua moeda e seu sistema financeiro.

Essa agenda enfrenta resistência de Washington. Em 2025, o presidente Donald Trump ameaçou impor tarifas de 100% aos países do Brics caso avançassem em iniciativas para substituir o dólar. A ameaça evidencia como a disputa por influência econômica pode se transformar em barreiras comerciais, com consequências para empresas e trabalhadores.

Para o Brasil, depender de poucos parceiros aumenta a vulnerabilidade diante dessas pressões. Preservar e ampliar o acesso a diferentes mercados ajuda a proteger a produção e o emprego. O resultado das urnas influenciará a maneira como o país responderá a esse cenário e defenderá suas escolhas.

O voto e a credibilidade do país

A atuação internacional também exige credibilidade e responsabilidade no exercício do poder. A avaliação das candidaturas deve considerar a transparência de quem pretende representar o Brasil e as relações que estabelece entre interesses públicos e privados.

Flávio chega ao segundo turno como investigado no caso Dark Horse, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. A investigação da Polícia Federal foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal. O candidato nega irregularidades. Há também uma apuração distinta sobre possível uso de emendas parlamentares na produção do filme.

A escolha dos rumos do país cabe ao eleitorado. As eleições de 2026 contam com missões de observação internacional, entre elas as da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia, que acompanham o processo e contribuem para a avaliação de sua transparência.

Quem não votou no primeiro turno pode participar do segundo, em 25 de outubro, desde que esteja em situação regular com a Justiça Eleitoral. A abstenção não interrompe a decisão sobre o futuro do Brasil: apenas deixa essa escolha para quem comparece às urnas.

O voto permite decidir se o Brasil continuará ampliando sua autonomia e sua participação entre os países em desenvolvimento ou se priorizará o alinhamento aos Estados Unidos. Está em jogo a capacidade de transformar o peso econômico do país em desenvolvimento e melhores condições de vida para a população.

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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