Brasileiro é ‘viciado em CDI’, mas queda de juro pode fazer bem para a renda fixa, diz gestor de crédito que se antecipou à onda de resgates

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Por Monique Lima — Seu Dinheiro

Enquanto boa parte do mercado estava em busca de títulos de crédito privado que ainda ofereciam um prêmio razoável em relação aos títulos públicos, a Paramis Capital passou os últimos dois anos fazendo o oposto: reduzindo risco.

A gestora, com cerca de R$ 2 bilhões sob gestão, sustentou uma estratégia de crédito mais conservadora em seus fundos no período de maior demanda por esses ativos por causa da rentabilidade.

A decisão custou parte do retorno e diminuiu a competitividade em relação a fundos concorrentes. Mas, na avaliação do CIO de crédito da casa, Alexandre Fernandes, este foi o preço para atravessar um ambiente de juros elevados, compressão de prêmios e deterioração gradual do crédito das empresas.

“A gente antecipou o ambiente mais estressado de crédito, que piorou no final do ano passado. Já estávamos mais líquidos nos fundos desde o início do ano. A intenção era mais evitar problemas do que tentar acertar os casos geradores de retorno acima da referência”, disse Fernandes.

Segundo o CIO, diante dos juros no nível recorde que estava, em 15% ao ano, era uma questão de tempo a piora no setor de crédito.

A estratégia mais conservadora foi implementada pela gestora antes de o tema virar consenso entre os investidores institucionais.

O resultado foi uma carteira menos exposta a apostas agressivas justamente quando os fundos de crédito começaram a enfrentar uma onda de resgates diante dos casos de calote de grandes empresas a partir do final de 2025.

“A gente vê crédito como uma maratona, não como uma corrida de 100 metros em busca de retorno. Quando o mercado está difícil, a prioridade é preservar capital e aumentar a liquidez”, disse em entrevista ao Seu Dinheiro.

O CDI vs. a marcação a mercado

Não que a Paramis tenha passado ilesa pela onda de resgates. Os principais fundos de crédito da casa, Legato e Tríade, também registraram saída — mas dentro do esperado.

“Teve um fluxo da própria indústria, mas nosso posicionamento mais defensivo também gera algum resgate. O investidor olha para o retorno mais curto e compara”, disse o CIO.

Na avaliação de Fernandes, porém, uma parte importante dos resgates observados no mercado de crédito foram resultado de um fenômeno mais estrutural: a dificuldade do investidor brasileiro em conviver com a marcação a mercado.

Acostumados com aplicações mais conservadores de renda fixa, como CDBs, Tesouro Selic, LCI e LCAs, e até mesmo a Poupança — que são ativos pós-fixados que acompanham e rendem conforme os juros —, muitos investidores não entendem a oscilação de preço em debêntures, CRIs e CRAs.

“O brasileiro é muito acostumado ao pós-fixado. Essa experiência de olhar um papel e ver que ele vale 95, não 100, porque a curva mexeu, mesmo sem problema de crédito, ainda é relativamente nova para muita gente”, afirmou o gestor.

A marcação a mercado é o processo de atualização diária de preço e taxa de alguns títulos de renda fixa, como debêntures, títulos públicos, CRIs e CRAs, entre outros.

Essa reprecificação acontece por alguns motivos, como o fluxo de compra e venda dos ativos no mercado secundário, mudanças nas expectativas de juros ou ajustes para acompanhar os títulos públicos de referência.

Como muitos investidores passaram a ter contato com esse tipo de renda fixa mais recentemente, a marcação a mercado ainda é motivo de aversão para muitas pessoas.

O prêmio voltou

Se de um lado a onda de resgates está prejudicando os fundos de crédito no curto prazo, por outro, o movimento está mexendo com o fluxo das debêntures e produzindo um efeito esperado por gestores há algum tempo: o aumento dos prêmios de risco.

Nos últimos anos, o excesso de demanda dos investidores pelo crédito privado fez com que muitas empresas conseguissem captar recursos pagando taxas consideradas baixas para o risco assumido.

Basicamente, o investidor recebia pouco em relação ao risco para financiar empresas.

Agora, com a saída parcial desses investidores, esse cenário começa a mudar.

Segundo Fernandes, as debêntures incentivadas — que têm isenção de imposto para pessoa física —, principalmente, estão passando por uma mudança importante de precificação.

“Os prêmios começaram a ficar mais interessantes”, afirmou o gestor.

Para a Paramis, entretanto, o movimento ainda está nos estágios iniciais. Se o ciclo de queda dos juros continuar, essa reprecificação deve se intensificar.

Juros menores podem ser a próxima alavanca

Embora muitos investidores associem a redução dos juros a retornos menores na renda fixa, o gestor avalia que a normalização das taxas para níveis mais razoáveis tende a ser benéfica para praticamente todos os ativos financeiros, inclusive para o crédito privado.

Isso porque, com as dívidas menos pressionadas, as empresas tendem a acumular mais caixa e pensar em projetos de expansão.

“Poucos negócios conseguem conviver por muito tempo com uma taxa de juros tão elevada. Quando esse custo começa a cair, o empresário volta a investir, volta a respirar e o fundamento melhora para todo mundo”, afirmou.

Segundo o gestor, embora os rendimentos nominais dos fundos possam cair junto com o CDI, a redução do risco tende a compensar esse efeito.

“Pode parecer contraintuitivo, mas o crédito também ganha com juros menores. O risco diminui e os prêmios passam a ficar relativamente mais atrativos.”

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Fonte: Seu Dinheiro

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