Brasil investe menos de um terço da média de países da OCDE na educação pública, indica relatório

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Por Guilherme Levorato — Brasil 247

247 – O Brasil investiu cerca de US$ 4,1 mil por estudante do ensino fundamental até o ensino superior público, valor que representa menos de um terço da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que foi de US$ 13,6 mil em 2023. O dado faz parte de um novo relatório divulgado pela entidade, que contempla países membros do bloco, nações em processo de adesão e integrantes do G20. No levantamento com 44 países que disponibilizaram as informações, o investimento brasileiro fica à frente apenas da Colômbia (US$ 3,4 mil) e do Peru (US$ 1,8 mil), informa o jornal O Globo.

O diagnóstico da OCDE revela um cenário crítico em diversos níveis do sistema educacional brasileiro, impactando tanto a formação da população quanto as condições de trabalho dos educadores. No país, apenas 22% dos adultos em idade ativa (de 25 a 64 anos) possuem diploma de ensino superior — quase a metade da média de 43% registrada nos países da OCDE. Com este índice, o Brasil aparece na lanterna do ranking de 46 países, empatado com Itália e México (22%) e ficando acima apenas de Romênia (19%), Índia (16%), Indonésia (13%) e África do Sul (8%). A discrepância é ainda mais acentuada na pós-graduação stricto sensu: apenas 1% dos adultos brasileiros nessa faixa etária possuem mestrado, contra 15% na média da OCDE.

A baixa escolarização e as dificuldades de inserção no mercado refletem-se na juventude. O levantamento aponta que o Brasil é o 5º país com maior proporção de jovens “nem nem” — aqueles entre 18 e 24 anos que não estudam e nem trabalham. Embora o percentual tenha recuado de 27% em 2016 para 22% em 2024, a taxa continua significativamente acima da média da OCDE, que é de 14%. O país figura atrás somente de Romênia (23%), Colômbia (26%), Turquia (31%) e África do Sul (48%), em um universo de 41 nações analisadas.

Segundo o relatório da OCDE, essa faixa populacional representa “uma preocupação central das políticas públicas, uma vez que períodos prolongados de inatividade em uma idade precoce podem ter efeitos negativos duradouros sobre os resultados socioeconômicos ao longo da vida”.

Insatisfação, evasão e sobrecarga docente

A deterioração dos indicadores educacionais acompanha uma crise contínua na valorização e retenção de professores. O Brasil é o terceiro país com o menor índice de docentes satisfeitos com suas condições de trabalho (excluindo a remuneração). Apenas 44,3% dos profissionais brasileiros concordam em algum grau que estão “satisfeitos com suas condições de emprego”, ficando muito abaixo da média da OCDE, de 68,4%. Em uma lista de 38 países, o Brasil supera apenas o Japão (37,3%) e Portugal (39,1%).

Quando a avaliação recai estritamente sobre a remuneração, o índice de satisfação dos educadores brasileiros despenca para 22,3% — o quinto pior resultado global e mais de 16 pontos percentuais abaixo da média da OCDE (38,7%). Apenas Turquia (21,3%), Polônia (20,5%), Islândia (19,3%) e Portugal (13,4%) apresentam taxas inferiores. Paralelamente, apenas 14,1% dos professores no Brasil acreditam que a profissão é valorizada pela sociedade, o 9º menor percentual entre 38 nações.

Esse ambiente reflete diretamente na debandada de profissionais das salas de aula. Entre 2024 e 2025, 10,3% dos educadores brasileiros do ensino fundamental e médio deixaram a profissão — somando desistências voluntárias e aposentadorias. Trata-se do quarto maior percentual de evasão entre 24 países com dados disponíveis, atrás apenas da Comunidade Francesa da Bélgica (11,6%), Letônia (12%) e Dinamarca (14,5%). O relatório alerta ainda que 12,3% dos professores de 30 a 49 anos manifestaram a intenção de abandonar a docência nos próximos cinco anos. Em contrapartida, o contingente de docentes nos anos iniciais do ensino fundamental no Brasil cresceu somente 4% entre 2015 e 2024 (frente a 13% na OCDE) e encolheu 2% nos anos finais.

Indisciplina, estresse e instabilidade contratual

A rotina nas escolas brasileiras é marcada por altos níveis de estresse e desafios de convivência. Cerca de 89,4% dos professores relataram em 2024 que precisam acalmar alunos indisciplinados “frequentemente” ou “sempre” durante as aulas, o quarto maior índice entre 36 países, atrás apenas de Portugal (91,2%), Chile (91,3%) e Arábia Saudita (93,4%), superando com folga a média da OCDE (72%). O documento reconhece que “os desafios comportamentais e disciplinares nas escolas públicas e privadas se intensificaram em muitos sistemas educacionais”.

A sobrecarga de trabalho e a burocracia também afetam a saúde mental da categoria. A proporção de educadores no Brasil que relatam sentir “muito estresse” no trabalho saltou de 13,6% em 2018 para 20,9% em 2024. Para 54,4% dos entrevistados no ano mais recente, o excesso de tarefas administrativas é fonte de “bastante” ou “muito” estresse. Além disso, a carga horária mínima de ensino exigida no país é de 800 horas anuais para todas as etapas, enquanto a média da OCDE é de 770 horas nos anos iniciais e 710 horas nos anos finais do ensino fundamental.

A estabilidade profissional também é restrita: apenas 63% dos professores brasileiros possuem vínculo permanente de emprego — o segundo menor percentual entre 37 nações, à frente apenas da Costa Rica (55,8%) e bem distante da média da OCDE, de 80,7%. Outros 19% dos docentes no país atuam mediante contratos temporários com duração superior a um ano letivo.

Fonte: Brasil 247

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