Por Luiz Gonzaga Belluzzo — Carta Capital

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

Os seus adeptos encarnam o “homenzinho” fascista, ansioso por autoridade, mas rebelde

Os trancos e barrancos do comportamento dos seguidores do projeto bolsonarista despertam suposições as mais divergentes, quando não disparatadas, a respeito dos verdadeiros propósitos – ou falta deles – incrustrados no espírito do homem-massa.

A leitura obsessiva de alguns autores irreverentes instigou minha resistência a oposições binárias. Isto ou aquilo? Prefiro a forma “isto e aquilo”. É a estratégia da loucura, o desvario finalista e inconsciente de um certo tipo de gente que deambula nos espaços sociais criados pela sociedade capitalista de massa.

No livro The Mass Psychology of ­Fascism, Wilhelm Reich assegura que a mentalidade fascista é a mentalidade do “homenzinho”: escravizado, anseia por autoridade e, ao mesmo tempo, é rebelde. Não é coincidência que todos os ditadores fascistas tenham surgido no meio reacionário do homenzinho.

A civilização mecanicista e despótica colhe do homenzinho humilhado apenas o que semeou nas massas de seres humanos subjugados, lançando o desgraçado nos caminhos do fascismo governado pelo automatismo psíquico. Essa “pequena burguesia” copiou muito bem o comportamento dos grandes da grande burguesia e o reproduz de forma distorcida e amplificada.

O fascismo sempre e em todo lugar se manifesta como um movimento apoiado pelas massas de homens, ele traz todos os traços e contradições da estrutura de caráter das massas de homens: não é, como geralmente se acredita, um movimento puramente reacionário, mas constitui um amálgama de emoções “rebeldes” e ideias sociais reacionárias.

O fascismo, em sua forma mais pura, é a soma de todas as reações irracionais do caráter humano médio. O sociólogo obtuso, que não tem coragem para reconhecer o papel predominante da irracionalidade na história da humanidade, vê a teoria fascista da raça apenas como um “preconceito”. A intensidade e a ampla difusão dos “preconceitos raciais” são prova de que eles estão enraizados na parte obscura do caráter humano.

Em palestra aos estudantes do Kenyon College, o escritor norte-americano David Foster Wallace começou sua exposição com um apólogo: “Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz: ‘Bom dia, meninos. Como está a água?’ Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta: ‘Água? Que diabos é isso?’”

Wallace explica: “O ponto central da história dos peixes ensina que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida… Os pensamentos e os sentimentos dos outros precisam achar um caminho para ser captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras ‘virtudes’. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração-padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser”.

Essa camada de homenzinhos, como os peixinhos mergulhados em seu egocentrismo, não consegue reconhecer o ambiente social em que vive. Por isso exerce seus desejos, medos e anseios em aras de agressividade contra os demais. Os Bolsonaro não têm empatia, suas personalidades exigem o confronto permanente com tudo e com todos. Com a cabeça no travesseiro eles sofrem as dores do sentimento de inferioridade cevado nos baixios de suas ignorâncias.

Em vez de comandar ações efetivas para contrabalançar os danos sociais e econômicos da pandemia, o presidente-homenzinho Bolsonaro dedicou-se a pressionar pela reabertura de fábricas, lojas e outras atividades, ignorando o risco de as mortes se avolumarem. Sua inumanidade se expressou na frase: “70% vão ser contaminados. Eles estão com medo”.

Vou relembrar que a alma do Senhor Cloroquina foi exposta em carne viva no episódio da demissão do ministro Luiz Henrique Mandetta. O presidente do Brasil sentiu-se humilhado perante o protagonismo do ministro e diminuído diante da argumentação científica do seu auxiliar. O homenzinho-presidente (ou presidente-homenzinho?) apareceu horas depois da demissão exibindo uma estampa de Jesus Cristo.

O cristianismo dos Bolsonaro e de seus seguidores é o cristianismo utilitarista. Utilizar a imagem de Cristo para fazer propaganda política ou surrupiar grana dos que têm pouco é uma infâmia. Um insulto e um desrespeito aos princípios de amor e compaixão ensinados pelo filho de Maria aos homens filhos de Deus. •

Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Bolsonarismo e sociedade de massa’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Luiz Gonzaga Belluzzo

Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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Fonte: Carta Capital

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