Bolsa Família, orçamento e eleições: alerta da IFI não pode ser ignorado
Por Cláudio Gonçalves dos Santos — JOTA
Em 31 de agosto de 2026, o governo federal encaminhou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) 2027, prevendo superávit primário de R$ 18,6 bilhões e destinando R$ 157,1 bilhões ao Bolsa Família. Apenas 17 dias depois, anunciou reajuste de 15,04% nos benefícios, elevando o valor mínimo de R$ 600 para R$ 691 e o benefício médio para aproximadamente R$ 777. Segundo o governo, a medida terá impacto adicional de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e de cerca de R$ 22,7 bilhões em 2027.
A proximidade entre os dois acontecimentos é relevante: o PLOA foi apresentado ao Congresso sem contemplar a nova despesa, que agora deverá ser acomodada em um orçamento já submetido a forte pressão fiscal. A questão, portanto, não é discutir a importância social do Bolsa Família, que atende aproximadamente 19,3 milhões de famílias, mas compreender como uma despesa permanente de R$ 22,7 bilhões será incorporada às contas públicas. É justamente nesse ponto que o alerta da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado Federal, ganha importância.
No mesmo dia do anúncio do reajuste, a IFI divulgou seu Relatório de Acompanhamento Fiscal de setembro, apresentando uma leitura significativamente mais preocupante das contas públicas de 2027. Enquanto o PLOA elaborado pelo governo prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões, a IFI projeta déficit de R$ 86,1 bilhões.
A diferença resulta de premissas macroeconômicas e avaliações distintas sobre receitas e despesas: o governo trabalha com crescimento real do PIB de 2,5%, contra 1,8% projetados pela IFI e 1,5% pelo Boletim Focus; na inflação, considera IPCA de 3,6%, enquanto a IFI projeta 4,0%. Também existem diferenças relevantes nas estimativas para massa salarial, despesas previdenciárias, Benefício de Prestação Continuada (BPC), abono salarial, seguro-desemprego e sentenças judiciais.
Mais importante do que a divergência entre as projeções é sua consequência fiscal. Segundo a IFI, mesmo após as exclusões legais consideradas na apuração do resultado primário, o superávit projetado ficaria inferior a R$ 1 bilhão, insuficiente para assegurar o cumprimento da meta fiscal nos parâmetros do arcabouço fiscal.
Como acomodar os R$ 22,7 bilhões adicionais do Bolsa Família?
A instituição estima, por isso, que seria necessário contingenciar pelo menos R$ 35,7 bilhões em despesas ao longo de 2027. É nesse cenário que surge a pergunta central: como acomodar os R$ 22,7 bilhões adicionais do Bolsa Família? A projeção da IFI foi elaborada antes da incorporação dessa nova despesa e, portanto, não significa que o déficit estimado de R$ 86,1 bilhões será automaticamente ampliado nesse mesmo valor.
O governo afirma que pretende realizar remanejamentos, sem ampliar o limite global das despesas. Mas, se o limite não aumenta, quais outras despesas perderão espaço? Essa é uma questão essencial, porque orçamento é, por definição, escolha: quando uma despesa permanente cresce dentro de um limite global, outra precisa perder espaço, salvo aumento correspondente de receitas ou outra fonte de financiamento. O verdadeiro debate, portanto, não deveria se limitar ao valor que o beneficiário receberá a mais, mas alcançar o custo de oportunidade dessa decisão para o conjunto da sociedade.
Se os recursos vierem do combate a fraudes, da revisão de benefícios indevidos ou de ganhos efetivos de eficiência administrativa, o impacto será de uma natureza. Se resultarem da redução de investimentos, infraestrutura, educação, saúde ou outras políticas públicas, será de outra.
Se forem financiados por receitas extraordinárias ou pelo aumento do endividamento, também será necessário avaliar sua sustentabilidade e seus efeitos sobre a trajetória da dívida pública. O Bolsa Família possui indiscutível relevância social, e o debate responsável não deve colocar responsabilidade social e responsabilidade fiscal em campos opostos.
Não existe política social sustentável sem equilíbrio das contas públicas, assim como não existe responsabilidade fiscal que possa ignorar a realidade social. O desafio está justamente em conciliar essas duas dimensões.
A pergunta central permanece simples: de onde virão os R$ 22,7 bilhões? O Brasil precisa de políticas sociais, mas também de um Estado capaz de financiá-las de forma sustentável. Transferências de renda podem aliviar a pobreza no presente; sua redução estrutural, porém, depende também de crescimento econômico, produtividade, educação de qualidade, investimentos, geração de empregos formais e aumento da renda do trabalho.
Quando o orçamento se torna excessivamente rígido, cada nova despesa permanente reduz o espaço para outras escolhas igualmente importantes. Por isso, o debate sobre o reajuste do Bolsa Família deveria ser maior do que uma disputa entre governo e oposição.
Trata-se de uma discussão sobre prioridades, responsabilidade fiscal, transparência orçamentária e qualidade do gasto público. O calendário eleitoral explica por que a decisão desperta questionamentos políticos. O alerta da IFI explica por que ela também exige atenção econômica.
Fonte: JOTA