Bets: o pecado mora ao lado, por Marcelo Peixoto e Marcio Christino
Por Redação — GGN
Bets: o pecado mora ao lado
O jogo no processo político-eleitoral
por Marcelo Peixoto e Marcio Sergio Christino
Às vésperas do processo eleitoral, o Presidente anuncia uma medida de grande repercussão: a proibição das chamadas BETs, plataformas de apostas on-line cujo mercado mais visível está no futebol, mas que alcançam inúmeras modalidades de jogos.
O fundamento é poderoso. As apostas drenariam recursos de parcelas economicamente vulneráveis, alcançando, em certos casos, valores destinados à subsistência familiar. O jogo oferece aquilo que a realidade econômica frequentemente nega: a esperança de uma mudança rápida de vida. Onde faltam perspectivas, vende-se esperança; onde a ascensão social parece distante, oferece-se o enriquecimento instantâneo.
A relação brasileira com o jogo sempre foi contraditória. Em 1946, no governo Eurico Gaspar Dutra, os jogos de azar foram proibidos sob argumentos que incluíam a defesa da moral e dos bons costumes. A conhecida narrativa segundo a qual a decisão teria sido influenciada por Carmela Dutra, a “Dona Santinha”, é reveladora, verdadeira ou não em todos os detalhes: no imaginário brasileiro, a proibição do jogo sempre esteve ligada também à moral.
A discussão sobre as BETs, portanto, ultrapassa a economia. Ingressa no território dos valores. E, quando valores ingressam na arena pública, tornam-se política.
Os adversários das apostas dispõem de argumentos intuitivamente fortes: trabalho contra acaso, poupança contra risco, responsabilidade contra compulsão. Seus defensores podem invocar liberdade individual, arrecadação, empregos, patrocínio esportivo e regulamentação. São argumentos legítimos, mas enfrentam a força emocional da imagem de uma família que perdeu renda porque alguém acreditou que a próxima aposta recuperaria as anteriores.
É nesse ponto que a eventual proibição deixa de ser apenas questão regulatória. Surge a pergunta politicamente relevante: por que agora e quais efeitos uma iniciativa dessa natureza pode produzir sobre o processo eleitoral?
Thomas Frank, em What’s the Matter with Kansas?, examinou como temas culturais e morais podem ocupar posição central na mobilização política. Não se trata de transportar Kansas para Brasília, mas de perceber o mecanismo: valores podem reorganizar identidades políticas e competir com interesses estritamente econômicos. O eleitor não é apenas trabalhador, contribuinte ou consumidor; é também portador de convicções morais, religiosas e culturais. Vota-se com o bolso, mas também com valores.
Sob essa perspectiva, a oposição presidencial às BETs produz uma inversão interessante. O governo aproxima-se de uma pauta de forte ressonância entre segmentos religiosos e conservadores, enquanto parte da oposição fica diante de uma escolha desconfortável: apoiar uma iniciativa do adversário ou defender uma atividade que parcela de sua própria base considera moralmente reprovável.
Para movimentos cuja comunicação política se apoia em “Deus, Pátria e Família”, defender apostas on-line não é tarefa simples. Imagine-se um pastor diante de seus fiéis defendendo o direito de funcionamento do “Jogo do Tigrinho”. A imagem é politicamente difícil antes mesmo de começar o discurso.
Há ainda a questão do momento. Se a discussão dominar entrevistas, debates, redes sociais e manifestações religiosas imediatamente antes das eleições, outros assuntos perderão centralidade. Talvez a principal consequência política não esteja apenas no que se dirá sobre as apostas, mas naquilo sobre o que se deixará de falar enquanto se fala delas. Em política, controlar o assunto da conversa pode ser quase tão importante quanto controlar seus argumentos.
Isso não prova que a medida tenha sido concebida com finalidade eleitoral. Tal conclusão exigiria evidências próprias. É possível, porém, analisar seus efeitos: a iniciativa permite ao governo disputar uma bandeira moral tradicionalmente associada ao conservadorismo e obriga adversários a se posicionarem diante de tema potencialmente incômodo para sua base. É uma espécie de captura da bandeira adversária.
Convém, por isso, separar três planos: o jurídico, sobre a validade da medida; o material, sobre sua capacidade de reduzir danos; e o político, sobre seus efeitos na agenda pública e no comportamento eleitoral. É este último que nos interessa.
Ainda é cedo para determinar a dimensão de seus efeitos. Podemos compreender o mecanismo, mas não antecipar o resultado eleitoral. Quando as urnas se fecharem, será possível verificar se a questão alterou a agenda, mobilizou valores ou modificou estratégias.
Até lá, convém observar. Porque o pecado pode até morar ao lado. Mas, em ano eleitoral, ele também vota.
Marcelo Peixoto – Advogado, Pastor e membro da Comuna de Paris
Marcio Sergio Christino – Procurador de Justiça do MPSP e pós-graduado em Ciência Política pela FESP – Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
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Fonte: GGN