Berzoini vê Flávio tão competitivo quanto Jair Bolsonaro em 2018
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ENTREVISTA
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22/9/2026 16:50
Um dos quadros históricos do PT e veterano de campanhas presidenciais, Ricardo Berzoini vê a reta final de 2026 como uma disputa sem espaço para conforto. Ex-deputado, ex-ministro e ex-presidente da legenda, ele avalia que Flávio Bolsonaro (PL) chega às últimas semanas tão competitivo quanto Jair Bolsonaro estava em 2018 e prevê uma eleição “dificílima, voto a voto” contra Lula. “Eu acho que ele é tão competitivo quanto o Jair de 18”, afirmou.
A comparação remete à eleição que levou Bolsonaro pela primeira vez ao Planalto, numa campanha marcada pelo discurso de ruptura com a política tradicional. No segundo turno de 2018, ele derrotou Fernando Haddad com 55,13% dos votos válidos, contra 44,87% do petista — diferença de 10,26 pontos percentuais.
Haddad havia assumido a cabeça da chapa petista poucas semanas antes. Inicialmente candidato a vice, substituiu Lula depois que o Tribunal Superior Eleitoral indeferiu o registro do ex-presidente com base na Lei da Ficha Limpa. Lula estava preso em Curitiba naquele momento, após condenação no âmbito da Operação Lava Jato.
O cenário de 2026 é diferente, mas voltou a colocar os dois campos numa disputa apertada. No BTG/Nexus divulgado nesta segunda-feira (21), Lula apareceu com 46% e Flávio com 45% em eventual segundo turno. Na Quaest divulgada no mesmo dia, a vantagem numérica se inverteu: Flávio marcou 42% e Lula, 41%. Nos dois levantamentos, houve empate dentro das respectivas margens de erro.
Berzoini conhece por dentro campanhas presidenciais. Em 2006, então presidente do PT, participou da coordenação da campanha que reelegeu Lula. Também exerceu quatro mandatos de deputado federal por São Paulo e ocupou ministérios nos governos petistas.
Lula além do PT
O reconhecimento da competitividade do adversário não significa pessimismo em relação a Lula. Berzoini faz uma avaliação bastante positiva do momento do presidente, a quem considera hoje capaz de alcançar um eleitorado mais amplo que o próprio PT. “Eu acho que ele está num dos melhores momentos, tanto de saúde pessoal quanto de forma de se expressar”, afirmou.
Petista desde a fundação da legenda, Berzoini diz que a dimensão política de Lula ultrapassou as fronteiras partidárias. “É preciso reconhecer que o Lula é uma liderança muito maior que o PT.”
Segundo ele, essa característica permite ao presidente sustentar posições que nem sempre coincidem integralmente com as do partido e dialogar com setores do centro. Ao falar de política internacional, foi ainda mais enfático: “Eu diria que a elaboração dele é dez vezes mais ampla que a do PT”.
Resistência a acusações
É justamente por considerar Lula competitivo que Berzoini procura entender o que mantém Flávio em patamar semelhante nas pesquisas. Na leitura dele, o senador consegue preservar apoio mesmo diante das acusações que cercam sua candidatura.
Berzoini atribui essa resistência, entre outros fatores, à segmentação da comunicação, ao peso de temas como a religião e à dificuldade de parte do eleitorado de acompanhar uma sucessão de denúncias. A avaliação é do ex-presidente do PT sobre o comportamento dos eleitores.
A disputa decisiva, porém, estaria fora dos dois campos já consolidados. Berzoini calcula que apenas 5% ou 6% dos eleitores ainda estejam efetivamente disponíveis, seja porque não decidiram o voto, seja porque admitem mudar de candidato.
Em pesquisas qualitativas que diz acompanhar, identificou inclusive eleitores insatisfeitos com o governo, mas que ainda consideram dar a Lula mais um voto de confiança. Convencê-los, afirma, exige um “trabalho de garimpo”.
Falha na comunicação
Parte desse trabalho, na avaliação de Berzoini, depende do próprio governo. Ele reconhece um “déficit de comunicação” e diz que o Planalto não conseguiu apresentar de forma contínua a trajetória do mandato — o ponto de partida, os obstáculos enfrentados e a conexão entre as diferentes entregas.
A autocrítica ocorre num momento em que a desaprovação da gestão permanece acima da aprovação. Na Quaest divulgada nesta segunda-feira, 50% disseram desaprovar o governo, ante 44% que o aprovam.
Em busca do centro
Para Berzoini, melhorar a comunicação passa também por mostrar que a candidatura de Lula não se limita ao eleitorado tradicional da esquerda. Ele situa o presidente num arco que se estende até o centro e lembra que sua base de governo reuniu partidos de diferentes perfis.
É nesse eleitorado menos identificado com os dois polos que Berzoini enxerga espaço para avançar. Com Lula e Flávio já cercados por apoios e rejeições consolidados, restaria às campanhas descobrir o que pode mover a pequena parcela ainda disposta a reconsiderar o voto.
Se houver segundo turno, avalia, essa disputa tende a se tornar ainda mais estreita. “O segundo turno é uma eleição de rejeições mais do que de aprovações”, resumiu.
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Fonte: Congresso em Foco