Babydino Tales e os desafios do mercado internacional. Como foi criar a primeira coprodução de animação da história entre o Brasil e a China.
Por ABRANIMA — Catraca Livre
Por J.R. Braz, diretor criativo da Studio Z, e Elen Chuva, Produtora Executiva da Studio Z
Babydino Tales, ou Babydino, como era seu nome original, nasceu em 2016 enquanto eu observava o amor de meu filho de 6 anos por dinossauros. Sim, como muitas crianças, ele também era um apaixonado pelos grandes “monstros do passado”. E nunca soltava um “Sassauro”, como ele chamava seu dinossauro de borracha que carregava para todo canto.
Aquilo me fez pensar e perceber que não tínhamos produções brasileiras com dinossauros. As séries disponíveis na TV, ou mesmo no VOD, eram apenas séries importadas ou filmes como “Jurassic Park“, invariavelmente com dinossauros assustadores. Faltava algo que entendesse nossas crianças. Com isso, comecei a desenhar como seria uma animação brasileira de dinossauros. O primeiro que nasceu foi, claro, o “Sassauro” um “terrível” tiranossauro que tem medo de tudo (principalmente de humanos – que para ele são apenas um tipo de dinossauro feioso). Depois vieram os outros dinos da turma: Vela, uma velociraptor superveloz que está sempre com pressa. Trovão, um brontossauro (que no nome original em grego significa Lagarto Trovão), Punk um dimetrodon sempre mal-humorado, mas que adora cantar, Trinca e Tronca, os gêmeos bebês de triceratops, Mamão, um mamute que é o maior amigo de todos, Ralf um estegossauro que está sempre no modo zen, e Nessi, uma plesiossaura marinha, com um nome inspirado no famoso monstro do lago Ness e, por fim, Ptomoleu, um pteranodon que é um dos primeiros dinossauros voadores. Assim, completamos nossa turma de dinos, todos devidamente batizados com a ajuda do meu filho, que fez questão de fazer seus próprios desenhos de cada um deles.
Com o tempo, fomos evoluindo a ideia e ajustando detalhes, adicionamos os irmãos Amy e Max, que vivem no tempo presente e encontram uma máquina do tempo que os leva direto para a pré-história, a causadora de toda a aventura. Essa máquina do tempo se chama Babydino, e ela tem o formato de um ovo de dinossauro. Babydino tem um botão, o qual, quando pressionado, ativa a máquina do tempo e começa a conversar com as crianças, explicando coisas sobre a pré-história.
Com personagens e história bem estruturados, e em meio a uma programação cheia na produtora (na época boa parte de nossa estrutura estava ligada a conteúdos institucionais), era hora de consolidar todo o material em uma bíblia. Então, depois de alguns anos de dedicação entre um projeto e outro, eu e minha produtora, Elen Chuva, começamos a apresentá-lo em eventos, festivais e mercados, até que, depois de algumas dezenas de pitchings, alguns prêmios e um começo de pandemia, fomos procurados pela iQIYI, gigante chinesa de VOD com mais de 100 milhões de assinantes pagantes e 500 milhões de usuários, que estava interessada em nosso Babydino.
Foram meses de negociação adequando orçamento e alguns ajustes no projeto, como a criação de um novo personagem, que tivesse alinhamento com alguns de seus conceitos culturais e ajustes para alinhamento de padrões e forma de trabalho. Em toda a conversa houve vários pontos que fizemos questão de manter, como o idioma original da série ser mantido em português, ou seja, o idioma que os personagens falam primeiro e no qual tiveram suas vozes desenvolvidas, seria feito em português, por artistas brasileiros, e depois seriam dublados em inglês, mandarim e em todos os idiomas que viriam. Outro ponto foi o nome dos personagens que, mesmo tendo nomes exóticos para estranjeiros, como Trovão e Mamão, para os quais fizemos pequenas adaptações na grafia, ajustando para Trovaum e Mamaum, mas mantendo a sonoridade, afinal de contas as crianças brasileiras têm que se acostumar a falar “Tinker Bell” e “Lady Bug”, nada mais justo que os outros países falarem Mamaum e Trovaum, não é mesmo?
Por fim, um dos pontos que mais fizemos questão de preservar foi que 100% da produção fosse realizada no Brasil, com gerenciamento, artistas e equipe técnica brasileiros. Tratava-se de uma criação brasileira, desenvolvida por uma empresa brasileira, e pra gente era importante que essa identidade estivesse presente em todas as etapas do projeto.
Com o contrato finalmente assinado, demos início à produção. Foram 16 meses de trabalho intenso até a conclusão da série, entregue em maio de 2022, a tempo de estrear no Dia das Crianças na China, comemorado em 1º de junho.
Na parte de produção, além do desafio do fuso horário, onde fizemos algumas reuniões durante a madrugada do Brasil, do idioma muito diferente, e até mesmo consularizar o contrato, ou seja, fazer com que o contrato assinado seja visto com validade internacional, já que o caso era inédito para o Consulado da China no Brasil. Após os registros solicitados no Ministério das Relações Exteriores, foram várias idas e vindas com o Consulado da China, até chegarmos a um formato que funcionasse para eles também.
Um tema sobre o qual sempre nos perguntam é a censura na China. Sim, ela existe e é bastante rigorosa, especialmente quando se trata de conteúdos voltados ao público infantil. Para países como o Brasil, que também viveram períodos marcados pela censura, a princípio isso pode parecer preocupante. Mas no caso da produção de Babydino Tales, contamos com uma consultoria especializada nas diretrizes chinesas, fornecida pela própria iQIYI. E como todo o desenvolvimento dos roteiros já considerava essas orientações desde o início, não tivemos grandes dificuldades no processo de aprovação.
Houve apenas uma observação curiosa, que gosto de compartilhar porque traduz bem como diferentes culturas podem enxergar uma mesma situação de maneiras diferentes. Em um dos episódios, chamado “Dia de Arte“, Max, o mais novo do grupo dos humanos, faz esculturas ao lado de sua irmã Amy e da amiga Sisi (personagem chinesa). Em determinado momento, as meninas riem dele e dizem que sua escultura está “feia”.
O retorno da equipe chinesa foi que não compreendiam o conflito do episódio, pois não fazia sentido que alguém fosse ridicularizado por sua obra artística. Segundo eles, na arte não existe certo ou errado, bonito ou feio. A observação nos fez refletir e perceber que havia ali uma perspectiva muito interessante e verdadeira. No fim, entendemos que eles tinham razão e a experiência acabou se tornando uma oportunidade de aprendizado mútuo, mostrando como a coprodução internacional também é uma troca de valores e visões de mundo, e não apenas de recursos e talentos.
Em janeiro de 2023 a série também estreou no Brasil, no Canal Nick Jr da Nickelodeon e está disponível na plataforma da iQIYI, online. É muito curioso ver personagens que criamos com tanto carinho e atenção, que cuidamos por anos, ganharem o mundo e falarem vários idiomas.
Abrir as portas de um mercado tão fechado e complexo quanto o chinês, de forma 100% independente, foi realmente impactante para nossa história.
Se puder, confiram alguns episódios na plataforma online da iQIYI.COM.
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Fonte: Catraca Livre