Autoridades suspeitam de ação criminosa em onda de queimadas no Amazonas
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O estado do Amazonas enfrenta uma nova onda de incêndios florestais que já soma mais de 1,9 mil focos identificados apenas no mês de outubro, e autoridades ambientais e de segurança investigam se há ação humana deliberada e criminosa por trás da destruição, informa o Fantástico, da TV Globo. A fumaça densa cobre diversos municípios, força a suspensão de aulas e sobrecarrega a rede de postos de saúde da região.
O avanço das chamas atinge terras ancestrais e ameaça a subsistência e o bem-estar de comunidades tradicionais. “A terra para a gente é da onde a gente tira a caça, onde a gente faz o plantio, e também onde estão os nossos ancestrais enterrados, né? Ela tem um valor para a gente tanto material como também espiritual”, afirma o tuxaua Ilair Mura, principal liderança da etnia na Aldeia São Félix, afetada pelo fogo. Ao detalhar o surgimento de novos focos e o clima na comunidade, ele relata a angústia vivida pelos moradores: “Ah, é medo, né? A gente fica com medo porque a gente sabe que o pessoal já está lá combatendo, né? Muita gente inalou fumaça. Tem gente aí que está com crise de ansiedade, porque viu o fogo chegando muito próximo, né”.
Desde o início do mês, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou quase 10 mil focos de calor em toda a dimensão da Amazônia. Para o Ministério do Meio Ambiente e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renvolvimento (Ibama), a concentração atípica de calor aponta diretamente para a prática de crimes ambientais.
“Praticamente todo incêndio florestal que está ocorrendo no estado do Amazonas é de origem humana. Alguém risca o fósforo e ateou o fogo na floresta. As pessoas colocam fogo sem autorização para causar o desmatamento, para causar a degradação da floresta”, afirma o presidente do Ibama, Jair Schmitt.
A constatação de que as queimadas decorrem de ilícitos é corroborada pelas forças de segurança do estado. “De acordo com os relatos que foram passados para a inteligência, nós afirmamos que mais de 95% desses cidadãos são criminosos. E aí também tem os relatos dos brigadistas. As pessoas chegavam: ‘Olha, não adianta nada vocês combaterem aí. Quando vocês saírem, nós vamos tocar fogo de novo’”, diz o secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Anésio Brito de Paiva.
Embora a névoa de fuligem encubra a capital, Manaus, as cidades de Careiro da Várzea, Itacoatiara, Parintins e Autazes vivem a situação mais crítica. Para combater as chamas na vegetação de Autazes, equipes de brigadistas abrem picadas na floresta para alcançar a chamada “cabeça do fogo”.
“Junto com os outros brigadistas que estão vindo aí, nós vamos esticar as mangueiras. Pra ver se chega até aqui. Para fazer o resfriamento”, explica o brigadista Juscelino Marquesa, alertando que o fogo pode cruzar a estrada se não for contido. No suporte aéreo, aviões cargueiros e drones equipados com câmeras termais identificam as coordenadas dos focos para despejar água nos pontos de maior calor, enquanto helicópteros transportam as equipes para regiões isoladas da mata.
Apesar do apoio do transporte aéreo, a atuação no solo exige esforço físico extremo dos trabalhadores. “A nossa dificuldade é só o deslocamento para chegar até o combate de incêndios florestais. A gente tem que vir por dentro da mata, abrindo caminho até chegar no ponto de combate”, relata o brigadista Brandão Mura.
Os impactos do fogo se estendem à saúde pública e sobrecarregam o atendimento médico. “Ao longo desses 10 dias, Autazes vem sofrendo consequências dessas queimadas e dos incêndios florestais que está ocorrendo em nosso município. O hospital de Autazes e as UBSs estão funcionando todas com a capacidade total de atendimento para que venham levar o atendimento a essas pessoas que estão passando por essas dificuldades respiratórias”, afirma o secretário municipal de Meio Ambiente, Walter Pereira.
A procura por socorro médico disparou tanto na Unidade Básica de Saúde da comunidade indígena São Félix quanto no hospital central. “Atendimento em relação a tosse, falta de ar, cansaço, é onde a gente está atuando mais agora”, pontua o médico Luciano Bernardo Soares Matos. Moradores relatam noites em claro e mal-estar contínuo.
“Tivemos um aumento bem expressivo. A gente tinha uma média de um a dois pacientes por dia relacionados a atendimentos respiratórios e agora a gente saltou para nove, dez”, informa o secretário de Saúde de Autazes, Rainer Figueiredo.
Casos graves atingem bebês, a exemplo da sobrinha de três meses da professora Alessandra Pereira, que precisou ser levada ao pronto-socorro com febre e sintomas respiratórios: “Foi devido a uma febre por conta muito da fumaça que está na cidade, que está ocasionando mal pra todo mundo. Ela tá fazendo inalação porque já amanheceu tossindo bastante”. Para amenizar a qualidade do ar em casa, famílias compram umidificadores em farmácias.
Durante a noite, a rotina urbana das cidades lembra períodos de restrição sanitária severa. “Está igual a época da Covid, fica em casa. As pessoas não querem sair por causa da fumaça. Porque fica complicada a situação, falta respiração, arde o olho”, compara o comerciante Homero Pinheiro diante de praças vazias.
A atual escalada dos incêndios ocorre em contraste com dados recentes divulgados pelo Inpe, que apontaram os menores índices de desmatamento da série histórica na Amazônia no período entre agosto de 2025 e julho de 2026. O índice na região registrou queda de mais de 70% nos últimos quatro anos, reduzindo de 11 mil quilômetros quadrados em 2022 para cerca de 3 mil quilômetros quadrados em 2026.
Nas áreas afetadas, entre cinzas e árvores calcinadas, a população tradicional lamenta os estragos provocados no solo e no ecossistema. “Você vê o solo desse aqui, onde você plantava, e vê que ele está só cinza. Não tem mais matéria orgânica aqui, então só a sensação de impotência mesmo”, desabafa o tuxaua Ilair. “Aqui é a nossa despensa, é aqui onde a gente vem pegar o alimento, né? A caça, a fruta. Muito triste mesmo, né? Um aperto no coração.”
Fonte: Brasil 247