Associação de Flávio Bolsonaro a Vorcaro e milícias pode levar Lula à vitória, aponta especialista

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Por Guilherme Levorato — Brasil 247

247 – O desgaste gerado pelas denúncias que envolvem o senador Flávio Bolsonaro (PL) e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, somado às suas ligações com milícias no Rio de Janeiro, figura como o principal obstáculo para o crescimento do parlamentar na reta final da eleição presidencial e pode abrir caminho para a vitória do presidente Lula, aponta o cientista político, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Observatório Político e Eleitoral (OPEL), Josué Medeiros, em artigo publicado na newsletter Noites Húngaras, do jornalista Paulo Motoryn.

Faltando apenas sete dias para o pleito, a disputa presidencial permanece aberta e altamente competitiva, apresentando cenários de empate técnico no segundo turno segundo os levantamentos mais recentes dos institutos de pesquisa. Na avaliação de Medeiros, o Brasil se aproxima de um momento decisivo em que escolherá entre viabilizar o projeto de um país democrático, justo, solidário, sustentável e soberano ou mergulhar no abismo da extrema-direita.

Caso o candidato da oposição saia vitorioso, o especialista alerta que Flávio Bolsonaro contará com maioria no Congresso Nacional e poderá indicar quatro ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF), o que eliminaria os freios institucionais e permitiria a implementação do projeto bolsonarista. O cientista político adverte ainda para os riscos de um alinhamento subalternizado ao governo de Donald Trump nos Estados Unidos, da intensificação da militarização do território e da entrega de riquezas estratégicas nacionais, representando uma ameaça aos direitos sociais, às instituições democráticas, aos biomas e à soberania.

Polarização consolidada e teto eleitoral

A partir de análises e pesquisas que o OPEL vem realizando desde 2022, Medeiros aponta que a consolidação da polarização entre Lula e Bolsonaro, combinada com a ausência de candidaturas de terceira via competitivas, fez com que o eleitorado antecipasse a decisão de segundo turno, em que a escolha se dá tanto pela adesão a um candidato quanto pela rejeição ao adversário. Nesse contexto, o crescimento de Flávio Bolsonaro ao longo da disputa já era previsto, contudo esbarra em um teto eleitoral próximo aos 42% dos votos válidos obtidos por seu pai, Jair Bolsonaro (PL), nas eleições de 2022, devido aos seus elevados índices de rejeição.

O levantamento conduzido por Medeiros e pela cientista política Mariana Castro, que envolveu a realização de 80 grupos focais presenciais em 13 capitais brasileiras entre abril e junho de 2026, identificou um fenômeno batizado de sentimento antissistema difuso. Essa insatisfação generalizada com a classe política e com os governantes atinge a maioria da população e decorre de problemas concretos do cotidiano, como a mobilidade urbana, os impactos dos eventos climáticos extremos, a segurança pública e as dificuldades econômicas.

Esse sentimento difuso diferencia-se do sentimento antissistema bolsonarista, que é promovido pela extrema-direita por meio de ataques diretos ao STF, às universidades e à imprensa, alcançando apenas a sua base eleitoral mais fiel. No entanto, por voltar-se contra todos os governantes e políticos vistos como privilegiados, o sentimento antissistema difuso ajuda a explicar a dificuldade do governo Lula em converter os resultados de sua gestão em índices mais altos de popularidade.

Resiliência de Lula e o impacto das novas pautas

Apesar do movimento pendular da campanha e da percepção criada no debate público sobre o crescimento de Flávio Bolsonaro — especialmente entre janeiro e maio de 2026 e a partir do início formal da propaganda eleitoral em 16 de agosto —, o presidente Lula demonstrou forte resiliência eleitoral. Mesmo em momentos críticos, como a rejeição pelo Senado da indicação de Jorge Messias para o STF, em 29 de abril de 2026, e os episódios associados à alegada tentativa de golpe eleitoral atribuída a André Mendonça, em 4 de setembro de 2026, Lula manteve a liderança da disputa e um patamar próximo de 40% dos votos válidos.

A sustentação da candidatura de Lula se apoia no seu carisma, na memória de seus mandatos anteriores e nos efeitos das ações da atual gestão. Rebatendo a tese de que o terceiro mandato do presidente não possui marcas novas, Medeiros destaca a recepção das políticas recentes junto à população: “o que encontramos em nossos 80 grupos focais é uma realidade diferente: as pessoas valorizam políticas recentes, como o Pé-de-Meia e o Desenrola”.

Além disso, a postura firme do presidente diante do tarifaço imposto por Donald Trump também encontrou ressonância positiva nos grupos focais.

Três agendas decisivas na reta final

Para furar o sentimento antissistema difuso e alterar a dinâmica eleitoral em favor de Lula na semana final da campanha, o coordenador do OPEL elenca três pautas cruciais:

  1. Denúncias sobre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro: Áudios e mensagens que mostram Flávio Bolsonaro negociando com Daniel Vorcaro, então proprietário do Banco Master, o financiamento de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões à época, dos quais aproximadamente R$ 61 milhões teriam sido repassados) para a produção de um filme sobre seu pai tiveram forte impacto nos grupos focais e erodiram a capacidade de Flávio de explorar o discurso anticorrupção, somando-se às rejeições motivadas por suas ligações com as milícias, o histórico de oposição às vacinas, o alinhamento com os Estados Unidos e suas posições sobre o meio ambiente.
  2. Fim da escala 6×1 sem redução salarial: Com amplo apoio espontâneo registrado nas pesquisas qualitativas, inclusive entre trabalhadores não regidos pela CLT, a proposta de redução da jornada de trabalho é valorizada pelo ganho de tempo livre para a família, capacitação profissional e cuidados com a saúde. A aprovação da matéria na Câmara dos Deputados e na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado impulsionou a agenda de Lula.
  3. Combate às apostas eletrônicas (bets): A rejeição às apostas eletrônicas revelou-se majoritária devido ao endividamento das famílias, aos problemas de saúde mental e aos episódios de destruição familiar provocados pelo vício. A edição de uma Medida Provisória proibindo as bets é apontada como uma medida de forte apelo eleitoral.

A disputa pelos indecisos e os segmentos estratégicos

Com Lula retomando o comando da agenda política e registrando crescimento nas pesquisas da Quaest, divulgada em 21 de setembro, e do Datafolha, publicado em 24 de setembro, a mobilização da última semana foca em recortes decisivos. O crescimento entre o eleitorado feminino coincide com a pauta de combate às bets e o desgaste de Flávio Bolsonaro. As periferias urbanas e favelas, que concentram grande parte dos afetados pelo sentimento antissistema difuso e sofrem com gargalos de transporte, clima e violência, também figuram como prioridade de diálogo.

Por fim, a disputa pelos eleitores indecisos, que representam entre 5% e 10% do total e tendem a decidir o voto pela rejeição na lógica do “menos pior”, exigirá a centralidade de temas como o risco da expansão nacional das milícias associado a Flávio Bolsonaro, as investigações do STF sobre os repasses do Banco Master, a defesa da soberania e do orgulho nacional frente à subalternidade a Donald Trump, a lembrança do negacionismo vacinal na pandemia da Covid-19 e a memória da destruição ambiental da Amazônia durante a gestão anterior.

Fonte: Brasil 247

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