As tensões por trás da “estabilidade administrada” de Trump e Xi Jinping
Por André Barbieri — Esquerda Diário
Como era esperado, a China não mostrou nenhum interesse em atender aos insistentes apelos da administração Trump para usar sua considerável influência a fim de forçar o Irã a aceitar os termos dos EUA. Por outro lado, Trump resistiu a pôr fim à escalada tarifária a pedido de Pequim concordando apenas em estender por dois meses uma trégua comercial que expiraria em 10 de novembro.
A relação de forças tem suas extravagâncias. Donald Trump recebeu pessoalmente o presidente chinês Xi Jinping na Joint Base Andrews com uma curiosa demonstração de boas-vindas: na pista de pouso, estendeu um suntuoso tapete vermelho de 30 metros à porta do Air China.
Na política, como em outros domínios, a simbologia importa. Os chineses apreciaram o gesto de respeito, e não pareceram incomodados com os voos rasantes de bombardeiros B-2 Spirit junto a caças F-16 e F-22.
A última vez que um mandatário estadunidense recebeu assim um chefe de Estado foi em 1962, quando John F. Kennedy anfitriou Harold Macmillan, primeiro-ministro do Reino Unido. Naquela ocasião, tratava-se de um comportado aliado. Dessa vez, a pompa serviu ao maior rival dos Estados Unidos em um mundo capitalista convulsionado pela “policrise”.
“Desde a época da minha primeira eleição em 2016, o presidente Xi e eu forjamos uma amizade, uma amizade verdadeiramente grande, na verdade, construída sobre o respeito mútuo e os interesses vitais de nosso povo”, disse Trump. Xi foi mais incisivo, afirmando que os interesses chineses e estadunidenses estão “profundamente entrelaçados” e que a “competição deve ser saudável e mantida dentro de limites”.
O encontro saiu como tortuoso eco das reuniões bilaterais na Coreia do Sul e em Pequim. Nenhum avanço estrutural importante, conflitos fundamentais permaneceram completamente irresolvidos. Nem Trump nem Xi encontraram uma cunha decisiva para alterar fundamentalmente o sistema de equilíbrio do adversário. A principal conclusão da cúpula foi a mera “estabilidade administrada” — enquanto se estabelecem barreiras de contenção para impedir que a rivalidade desande em um conflito aberto.
Como era esperado, a China não mostrou nenhum interesse em atender aos insistentes apelos da administração Trump para usar sua considerável influência a fim de forçar o Irã a aceitar os termos dos EUA. Por outro lado, Trump resistiu a pôr fim à escalada tarifária a pedido de Pequim concordando apenas em estender por dois meses uma trégua comercial que expiraria em 10 de novembro.
Apesar disso, o tapete vermelho é sinal de que Trump reconhece as suas desvantagens relativas. A China possui não apenas a vantagem hegemônica sobre o comércio das terras raras, como também assiste em primeira mão o enfraquecimento de Trump depois da derrota militar na guerra imperialista movida contra o Irã.
Um fracasso flagrante da estratégia de Trump é a política tarifária para deter a inundação de produtos chineses. O comércio de bens e serviços entre os países caiu 25% em 2025. No entanto, as exportações da China para o mundo continuaram a disparar. Painéis solares, baterias e veículos elétricos, minerais e circuitos integrados continuam entrando nos Estados Unidos por meio de outros países. Este ano, a China está a caminho de ultrapassar o superávit comercial recorde de US$ 1,19 trilhão e, como escreve Adam Posen ao Foreign Affairs, enquanto a China possui o que os Estados Unidos necessita, estes não conseguiram aumentar a dependência chinesa daquilo que exporta.
As terras raras são, há muito tempo, parte das tensões. A China é a potência hegemônica global no setor de elementos de terras raras, controlando cerca de 60% a 70% da produção de mineração e mais de 90% da capacidade mundial de refino e fabricação de ímãs permanentes. Estes minerais precisam ser processados antes de serem transformados em ímãs e outros materiais usados na fabricação de armas, automóveis, computadores e uma infinidade de outros produtos. Todas as estimativas apontam a continuidade da dependência dos EUA em relação à China durante a década de 2030. Sua necessidade contínua de importações evidencia a frágil posição de barganha de Trump em relação a Xi, além da complexidade mais ampla de se criar uma indústria de terras raras do zero, após os EUA praticamente terem abandonado o setor no final do século XX.
É dessa perspectiva que Xi Jinping invoca a expressão “estabilidade estratégica” para descrever as relações entre a China e os Estados Unidos. Essa expressão é extraída da doutrina de armas nucleares: o estado de equilíbrio em que nenhuma das potências têm incentivo para desferir um primeiro ataque, sustentando-se na dissuasão mútua e na previsibilidade. Em sintonia com isso, Xi insistiu que ambos devem buscar evitar a “Armadilha de Tucídides” – a teoria de que uma potência emergente e uma potência estabelecida têm grande probabilidade de entrar em guerra como Atenas e Esparta na Guerra do Peloponeso. A China costuma usar essa ideia junto a outra – “mudanças grandiosas nunca vistas em um século estão se acelerando,” palavras que descrevem sua percepção do declínio de Washington.
A concorrência tecnológica é um tema de destaque. No discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, Trump defendeu a aceleração do desenvolvimento da Inteligência Artificial (que rebatizou fidalgamente como “superinteligência”) nos Estados Unidos em função da concorrência chinesa. “Estamos liderando agora em relação à China por muito, e a todos os outros, e vamos continuar assim… Quem vencer a superinteligência vence tudo”. A liderança tecnológica, na realidade, é menos clara e mais difusa. As múltiplas empresas do ramo – OpenAI, Anthropic, Alphabet, Alibaba, Huawei, DeepSeek – dependem dos microchips avançados da Nvidia (sem cuja infraestrutura de hardware o treinamento de modelos de linguagem ampliada seria inviável), e da produção de ponta realizada em Taiwan, que através da TSMC concentra 90% da produção de semicondutores de alta gama. Ademais, o discurso de Trump ocorre dias depois do escândalo internacional com o agente de inteligência artificial da OpenAI, que conseguiu escapar do ambiente isolado de testes da empresa e invadiu sistemas do Hugging Face, uma plataforma que reúne ferramentas e modelos de IA.
A dinâmica da competição estrutural entre China e EUA leva tendencialmente aos extremos a corrida pelo domínio nesta área, incontornavelmente ligada à extração de mais-valor e ao extrativismo ecodestrutivo nas atividades de mineração e processamento. Trump e Xi enxergam a corrida tecnológica como um desafio existencial, e naturalmente consideram a melhor maneira de desenvolver os dispositivos de IA subordinando-os aos interesses capitalistas de suas respectivas potências. Xi Jinping disse que “a IA precisa estar sob controle humano”. Mas não estará sob o controle das forças sociais que o elaboram e direcionam enquanto estiver submetida aos interesses dos grandes capitalistas sino-estadunidenses. Não há dúvida que as tecnologias não têm outros objetivos que não sejam os dos donos destas tecnologias, que no mundo capitalista utilizam as máquinas mais avançadas, que reúnem muito do general intellect humano, para promover guerras e a superexploração do trabalho. Retirar a IA das mãos dos capitalistas significa atacar as forças sociais que Trump e Xi representam.
Em maio, Taiwan foi o assunto principal para a China. Xi advertiu Trump de que lidar de forma equivocada com Taiwan poderia causar “choques e até conflitos, colocando todo o relacionamento em grande risco”, disse o Ministério das Relações Exteriores da China. Como noticiou então o jornal oficial Xinhua, “Salvaguardar a paz e a estabilidade no Estreito é o maior denominador comum entre a China e os Estados Unidos, disse Xi, enfatizando que ‘a independência de Taiwan’ e a paz no Estreito são tão irreconciliáveis quanto fogo e água.” Não foi diferente desta vez. Pequim advertiu os EUA a serem extremamente cautelosos com a questão taiwanesa. Nos bastidores, Xi pressionou Trump a interromper as vendas de armas para Taiwan com base nas Seis Garantias de 1982, que desobrigam Washington a discutir Pequim sobre o comércio de equipamento bélico para a ilha. Em dezembro de 2025, Trump anunciou a venda de armas no valor de cerca de US$11,1 bilhões para Taiwan, que inclui lançadores de foguetes avançados, obuses autopropulsados e uma variedade de mísseis.
É possível que a América Latina não tenha figurado entre os grandes temas, mas importa a ambos os governos. Pequim tem inúmeros interesses constituídos no Cone Sul, desde a extração de minerais críticos e a importação de insumos agrícolas, até a construção de infraestrutura ferroviário-portuária e o controle de redes de transmissão de energia elétrica. No Brasil, empresas chinesas como a CMOC e a Equinox Gold adquiriram grandes operações de ouro, ferro, nióbio e fosfato em Goiás; no Chile, a estatal do cobre, Codelco, tem uma parceria com a China Minmetals, e empresas chinesas como a Tianqi Lithium detém 24% da SQM, uma das maiores produtoras globais de lítio. No Peru, a China Southern Power Grid controla a totalidade da distribuição de energia elétrica na região metropolitana de Lima. Na Argentina, a China opera a Espacio Lejano Station (Estação do Espaço Profundo), uma base de rastreamento espacial localizada na província de Neuquén, aumentando sua capacidade de preencher lacunas na cobertura global de rastreamento espacial.
Trump não deseja que nada disso siga assim, impulsionou o Escudo das Américas como parte da sua estratégia de segurança nacional, a recuperação do Hemisfério Ocidental e a contenção da influência chinesa. O roubo dos bens petrolíferos e minerais da Venezuela, e sua conversão em um protetorado norte-americano (com a ajuda ativa do chavismo de Delcy Rodríguez), mexeu com os negócios chineses, e isso leva a disputas de fundo sobre que potência extrair mais vantagens do Cone Sul. A ingerência em processos político-eleitorais, como ocorreu na Argentina com a ajuda financeira à campanha de Milei, é uma das táticas de Washington, cujas pegadas podem ser detectadas também no Brasil, governado hoje por uma política aberta ao multilateralismo (apesar da amabilidade diplomática com Trump desde 2023, Lula foi obrigado a um discurso mais confrontativo na ONU). Políticas dessa natureza interferem nos interesses estruturais da China na região, o que sugere que os atritos nesta área aumentarão.
Até agora, Trump não encontrou meios de explorar as fragilidades do desequilíbrio econômico chinês, que aposta na supercapacidade produtiva, expansão de mercados e em fortalecimento do sistema industrial-exportador abalado depois da queda do Lehman Brothers. Trump apostou que a desaceleração econômica da China — marcada pela prolongada crise no setor imobiliário, pelo endividamento de governos locais e pelo consumo interno fraco — deixaria Xi Jinping acuado e muito mais disposto a ceder em acordos comerciais abrangentes. Continuou a política de Biden de usar a dependência chinesa das exportações e do mercado norte-americano como alavanca, pressionando Pequim a abrir o mercado interno e a conter subsídios industriais estatais. Nada disso deu frutos, e ainda revelou à China as vantagens comparativas que possui.
Ainda está por se ver se a administração Trump será capaz de reverter a vantagem conquistada por Pequim, aumentada pela derrota de Trump no Oriente Médio.
Fonte: Esquerda Diário