As lições do movimento operário paulista no combate à extrema-direita e o fascismo

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Por Felipe Guarnieri — Esquerda Diário

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Os trabalhadores paulistas tiveram um papel determinante em barrar a ascensão da AIB (Ação Integralista Brasileira), do messiânico líder Plínio Salgado, inspirada no lema de “Deus, Pátria e Família” do fascismo italiano. A propaganda criada pelo movimento desmoronou no dia 07/10/1934, na icônica batalha da Praça da Sé, que ficou conhecida como A Revoada dos Galinhas Verdes. Um símbolo da luta antifascista, organizada pela tática da frente única operária trotskista. A mobilização independente da classe trabalhadora deve ser recuperada para derrotar o bolsonarismo nos dias de hoje.

Milhares de pessoas, sobretudo da juventude, que foram à manifestação na Avenida Paulista neste último domingo, em defesa da candidatura de Lula, fizeram-no pela disposição visivelmente instalada em derrotar a extrema-direita. Essa força social revelou-se determinante para a aprovação no Senado da PEC, que extinguiu a escala 6×1, nos dias seguintes. Contudo, no alto do carro de som, Lula mais uma vez canalizou essa energia para os interesses pragmáticos da Frente Ampla.

A expressão simbólica disso não poderia vir de outro político no palanque senão do ex-governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin. O mesmo lugar em que discursava, no passado recente, foi palco das ações violentas da sua polícia contra estudantes adolescentes e professores. Além disso, o leitor do Esquerda Diário conhece bem todo o seu currículo. Contudo, o paradoxo de hoje é mostrar que, mesmo quando Alckmin almeja ser “democrático”, ele deixa visível sua essência reacionária. Esse é, sem dúvida, um dos fatores que explica como a extrema-direita se fortaleceu durante os 4 anos de seu governo com Lula.

Pelo menos, o discurso dele nos permite fazer uma analogia histórica com a primeira experiência fascista no Brasil na década de 1930 e, por essa via, extrair lições concretas para as batalhas de hoje. No microfone, Alckmin bradou: “-São Paulo não quer ditadura. Nosso ídolo não é o coronel Ustra. Nossos ídolos são os estudantes que morreram na ditadura: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo.”

O MMDC, o levante paulista de 1932 e o crescimento da AIB

Qual a pegadinha? Os estudantes citados por Alckmin não morreram na Ditadura Militar do torturador Ustra, mas sim foram os mártires nas manifestações em maio de 1932, que preconizaram o levante armado da burguesia paulista no mesmo ano. Ao contrário de ser uma “revolução constitucionalista”, como gostam de afirmar de forma uníssona todas as lideranças da direita, a tradicional e a bolsonarista, nada mais foi do que uma reação do estado ao perder sua hegemonia na federação para a fração da burguesia liderada por Getúlio Vargas. A morte dos quatro jovens deu origem não somente a ruas e monumentos na cidade, como também naquele momento resultou na formação da organização civil secreta MMDC, que operou como um braço paramilitar da Frente Única Paulista (FUP), composta pelo PRP e o PD, partidos que representavam os interesses da oligarquia cafeeira tradicional e seus dissidentes.

Com a derrota definitiva da burguesia paulista pelas tropas militares do Governo Provisório de Vargas, muitos ex-combatentes do levante, principalmente da elite agrária, decidiram se reorganizar através das bandeiras autoritárias do integralismo.

Semelhanças e diferenças do Integralismo e o PL

A crise de hegemonia aberta naquele momento teve aspectos muito semelhantes aos da atual. Entre 1932 e 1934, a AIB de Plínio Salgado passou por um crescimento significativo, também impulsionado pela ascensão do nazifascismo na Europa. Os 40 membros que participaram da primeira aparição pública da organização, em 1933, viraram quase 200 mil logo após as eleições constituintes de 1934.

Naturalmente, ao fazer comparações históricas desse tipo, é preciso identificar não apenas as semelhanças, mas também as diferenças. Ainda que o Integralismo de ontem e a ala de extrema-direita abrigada no PL de hoje operem no espectro ultraconservador, ambos possuem características estruturais distintas. A AIB defendia um modelo de Estado Corporativo, adaptando o fascismo italiano ao território nacional como um movimento centralizado e abertamente antidemocrático. Isso difere da atual coalizão eleitoral do PL que, embora mobilize pautas reacionárias, atua no interior do regime democrático-burguês e adota uma agenda econômica centralmente voltada a atender aos interesses neoliberais.

O PL de Valdemar da Costa Neto não nasceu bolsonarista. Nasceu do fisiologismo partidário do centrão, já abrigou inclusive o primeiro vice-presidente de Lula, José Alencar, e agora recebe o fenômeno social do bolsonarismo. A AIB, por sua vez, tem origem inspirada diretamente no regime de Mussolini. Ou seja, falamos aqui de duas variantes da extrema-direita, que derivam da crise orgânica, porém correspondem a uma etapa específica da luta de classes. Até novembro de 1937, a AIB teve uma relação de conveniência mútua com o Governo Vargas, sendo a gestação do Plano Cohen o auge dessa convergência de interesses. Através do forte sentimento anticomunista propagado pelos integralistas, Vargas conseguiu inflar o pânico na sociedade para conter a esquerda, pavimentando o golpe do Estado Novo.



A ação mais conhecida da FUA, eternizada no livro de Abramo, ficou conhecida como A Revoada dos Galinhas Verdes, em referência às vestimentas verde-oliva dos 8 mil integralistas, que dispersaram na Praça da Sé em 07/10/1934, quando a disciplina operária das organizações sindicais e partidárias das esquerdas prevaleceu. A contra-manifestação impulsionada pelos trotskistas foi vitoriosa e marcou um golpe profundo na imagem “viril e inabalável” que Plínio Salgado projetava da AIB. Estagnou seu crescimento e passou um longo período até realizar uma manifestação pública novamente.

A luta antifascista dos trotskistas no Brasil

Tudo isso significa dizer que a ascensão integralista era uma ameaça concreta, em meio à instabilidade geopolítica e as ações da classe trabalhadora, no calor recente da revolução russa. Enquanto, por um lado, o PCB passava por inúmeras crises na sua direção diante das orientações de Moscou, de outro lado, os trotskistas ganhavam posições nas lutas políticas internas e no movimento operário, em particular no sindicato dos gráficos de SP, a partir da forte greve de 1929.

A LCI, alinhada à Oposição de Esquerda Internacional (antecessora da IV Internacional), constituiu-se como uma organização independente do PCB, em outubro de 1933, resultado de quatro fatores estratégicos fundamentais: a-) a capitulação do stalinismo ao nazifascismo, na orientação sectária do III período pela Internacional Comunista (IC); b-) a elaboração das teses fundacionais de Mário Pedrosa e Lívio Xavier sobre a formação do capitalismo brasileiro; c-) a conquista do sindicato dos gráficos de SP, após as derrotas nas greves dirigidas pelo PCB; d-) e o chamado para uma coligação das esquerdas na Frente Única Antifascista (FUA), a partir das publicações do jornal O Homem Livre.

O PCB, imerso em crises políticas e diretrizes sectárias, recusou participar da FUA. Em contrapartida, a Liga Comunista (LCI) obtinha importantes êxitos com sua política de frente única, angariando novos quadros e reunindo na coligação diversos sindicatos e organizações operárias da esquerda, como os socialistas e correntes anarquistas. Mário Pedrosa e Fúlvio Abramo estavam entre os principais organizadores d´O Homem Livre, veículo que se tornou o porta-voz oficial da e onde foi divulgado o manifesto da FUA ao povo brasileiro:

“O fascismo significa a miséria, a opressão, o espezinhamento das consciências. Começa por destruir todas as organizações do proletariado e acaba por se tornar o senhor absoluto, “integral”, que não respeita ideologias, que não admite divergências. Nem comunistas, nem socialistas, nem anarquistas, nem democratas, poderão existir sob o seu jugo.” (O HOMEM LIVRE, 1933, p. 6)

A cada novo comício, a influência da LCI pressionava ainda mais a luta política interna no PCB. Em São Paulo, a militância do Comitê Regional — que mais tarde passaria a ser liderada abertamente por Hermínio Sacchetta — sofria forte atração pela tática unitária, culminando na quebra da diretriz nacional do partido para combater os integralistas ao lado da FUA em 1934. O movimento antifascista crescia em outras capitais do Brasil, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte, enfrentando a brutal repressão policial do governo Vargas, que sufocava as lideranças da coligação com prisões sucessivas.

A ação mais conhecida da FUA, eternizada no livro de Abramo, ficou conhecida como A Revoada dos Galinhas Verdes, em referência às vestimentas verde-oliva dos 8 mil integralistas, que dispersaram na Praça da Sé em 07/10/1934, quando a disciplina operária das organizações sindicais e partidárias das esquerdas prevaleceu. A contra-manifestação impulsionada pelos trotskistas foi vitoriosa e marcou um golpe profundo na imagem “viril e inabalável” que Plínio Salgado projetava da AIB. Estagnou seu crescimento e passou um longo período até realizar uma manifestação pública novamente.

Além disso, o resultado do conflito foi determinante para a relação de forças da conjuntura da época. Vale lembrar que Vargas, nesse momento, já iniciava a sua diplomacia de barganha política e econômica com as nações que viriam a compor o Eixo e os Aliados, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. A desarticulação da AIB (Ação Integralista Brasileira) impôs limites concretos à ascensão mais decisiva do fascismo no Brasil.

Um pequeno exemplo, da dimensão estratégica da Frente Única operária defendida por Trotsky, na França, Alemanha e na Itália contra a ascensão do nazifascismo. Países onde os conflitos foram muito duros e que realçaram pela negativa os erros cometidos pela orientação stalinista. A resposta da IC a eles foi um giro para o extremo oposto da linha ultra-esquedista, adotando invariavelmente a tática da Frente Popular, que orientava os PC’s a realizar uma aliança de classe com a burguesia para combater as ditaduras e governos bonapartistas.

Da Frente Popular à Frente- Ampla

Essa fórmula de conciliação da Frente Popular será a herança do stalinismo clássico, posteriormente assimilada pela social-democracia e partidos como o PT, e cobra um preço alto nos dias de hoje. Nela, renuncia-se à independência de classe, em qualquer enfrentamento com a extrema-direita. Enquanto a burocracia sindical pacifica os trabalhadores, toda a direita têm portas abertas para entrar na Frente Ampla, por interesses específicos e alheio às aspirações democráticas e econômicas da classe trabalhadora.

Durante os quatros últimos anos do governo de Lula-Alckmin isso se manifestou por completo. As reformas neoliberais de Temer e Bolsonaro foram integralmente preservadas. Haddad comandou um escritório na Faria Lima com o Arcabouço Fiscal, impondo tetos na saúde, educação e avançando nas privatizações. O PR de Tarcísio e o PP de Derrite tiveram seus assentos ministeriais garantidos no Palácio do Planalto. E quando chega nas eleições, oferece-se ao trabalhador uma única saída, o voto, e ainda condicionado ao apoio político a esse projeto, que já deu inúmeras provas, a mais recente no primeiro turno, de ser um empreendimento fracassado para derrotar o bolsonarismo.

Por isso que, nesse contexto, é mais do que oportuno resgatar a memória da classe trabalhadora. Trata-se, sobretudo, de retirar conclusões que preparem o verdadeiro combate, e não fazer súplicas vergonhosas para a direita tradicional, como o MBL. A força da juventude e da classe trabalhadora que já mostrou ser capaz de dispersar os “galinhas verdes”, tem as mais plenas condições de agora botar pra correr os “patos amarelos”.

Fonte:

Memorial da Democracia

Referências Bibliográficas:

Jornal O Homem Livre

A Revoada das Galinhas Verdes- Fulvio Abramo

Fonte: Esquerda Diário

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