Artigo | Diário de uma relação com as milícias

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Por Catarina Duarte — Ponte

Entre você e a realidade

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Ao longo de mais de duas décadas de vida pública, Flávio Bolsonaro acumulou declarações, homenagens e relações políticas que ajudam a contar a história das milícias do Rio de Janeiro. Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, esta cronologia recupera episódios dessa trajetória, de 2003 a 2026.

Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, RJ, 24 de outubro de 2003 – O recém-eleito deputado estadual Flávio Bolsonaro aprova moções de louvor a um grupo de policiais militares pelos vários anos de corporação em que desenvolveram “sua função com dedicação, brilhantismo e galhardia”. Entre os policiais homenageados estavam Adriano da Nóbrega e Fabrício Queiroz. Adriano seria preso um mês depois por sequestro, tortura e extorsão com outros policiais também homenageados.

Batalhão Especial Prisional de Benfica, Rio de Janeiro, RJ, 9 de setembro de 2005 – Preso por homicídio, o PM Adriano da Nóbrega recebe nova homenagem proposta por Flávio Bolsonaro, mesmo encarcerado: a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria concedida pela ALERJ. Essa era a segunda visita de Flavio ao então tenente no presídio em Benfica.

Câmara dos Deputados, Brasília, DF, outubro de 2005 – Após a condenação de Adriano da Nóbrega, o então deputado federal Jair Bolsonaro discursa na tribuna da Câmara em defesa do tenente: “Na segunda-feira passada, pela primeira vez compareci a um Tribunal do Júri. Estava sendo julgado um tenente da Polícia Militar de nome Adriano, acusado de ter feito incursão em uma favela, onde teria sido executado um elemento que, apesar de envolvido com o narcotráfico, foi considerado pela imprensa um simples flanelinha. (…) É importante saber a quem interessa a condenação pura e simples de militares da Polícia do Rio de Janeiro, sejam eles culpados ou não”.

Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, RJ, 7 de fevereiro de 2007 – Em debate sobre as milícias na ALERJ, o deputado estadual Flávio Bolsonaro profere um discurso na tribuna: “Não se pode levar pro lado e simplesmente estigmatizar a milícia, em especial, os policiais que estão envolvidos nesse novo tipo de policiamento, vamos dizer assim. (…) Pergunte a qualquer morador que está numa comunidade dessas, dominada pelas milícias, se ele quer sair de lá, se ele não está feliz da vida (…). Eu gostaria de estar pagando R$ 20, R$ 30, R$ 40 pra não ter um carro furtado na minha casa”.

Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, RJ, meados de 2007 – O deputado estadual Flávio Bolsonaro nomeia o ex-policial Fabrício Queiroz e a esposa de Adriano da Nóbrega, Danielle Mendonça da Costa, como seus assessores parlamentares. Anos depois, em 2015, a mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, também ganharia um cargo no gabinete de Flávio.

Leia também: Como um ‘detalhezinho’ rejeitado por Flávio Bolsonaro atrapalha facções e desvendou a morte de uma juíza odiada por milicianos

Niterói, RJ, 12 de agosto de 2011 – Com 21 tiros, a juíza Patrícia Acioli é assassinada ao chegar em sua casa na região metropolitana do RJ. A juíza havia sido responsável pela prisão de mais de 60 policiais ligados a milícias e grupos de extermínio. No mesmo dia, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro escreveu no Twitter: “Que Deus tenha essa juíza, mas a forma absurda e gratuita com q ela humilhava Policiais nas sessões contribuiu p ter mts inimigos” (sic). Anos depois, 11 policiais militares seriam condenados pelo crime.

Batalhão Especial Prisional de Benfica, Rio de Janeiro, RJ, outubro de 2015 – Enquanto realizava uma inspeção surpresa em um batalhão prisional, a juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza foi cercada e agredida por policiais militares que estavam presos no local. Horas depois, o deputado estadual Flávio Bolsonaro saiu em defesa dos agressores em declaração à imprensa: “Ao serem tratados como bandidos por uma pessoa representando o Estado, se sentiram indignados”. A juíza averiguava denúncias de que os policiais recebiam regalias no presídio. “Não é nenhum excesso, não é nenhum privilégio”, disse Flávio.

Rio de Janeiro, RJ, 14 de março de 2018 – A vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson Gomes são assassinados no centro da cidade carioca. Seriam longos anos até que o mando do crime que chocou o Brasil fosse solucionado, apontando o envolvimento entre milícias, políticos e autoridades policiais do Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro, RJ, 12 de março de 2019 – O ex-PM Ronnie Lessa e o ex-militar Élcio de Queiroz são presos acusados de terem executado o assassinato de Marielle e Anderson. Ronnie foi preso em sua casa, no Condomínio Vivendas da Barra, onde era vizinho de Jair Bolsonaro. O mando do crime, porém, ainda não seria desvendado ali.

Salvador, Bahia, 9 de fevereiro de 2020 – Foragido após ser apontado como chefe do “Escritório do Crime”, o miliciano Adriano da Nóbrega é morto em confronto com a PM baiana. Adriano chegou a ser considerado suspeito de envolvimento no assassinato de Marielle e Anderson e, segundo sua defesa, temia ser morto em queima de arquivo. A esposa e a mãe de Adriano já não trabalhavam na assessoria de Flávio Bolsonaro desde novembro de 2018, quando surgiram as primeiras suspeitas sobre o esquema de“rachadinha” no gabinete.

Atibaia, São Paulo, 18 de junho de 2020 – Após cerca de dois anos de sumiço em meio a investigações, Fabrício Queiroz é preso em um imóvel de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro. Queiroz foi acusado de participar do esquema de rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro na ALERJ, cometendo crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa. Esposa e filha (esta última acusada de ser funcionária fantasma) também integravam o gabinete e foram investigadas. O processo, porém, acabou anulado por erros processuais. Queiroz ainda disputaria eleições em 2022 e 2024.

Leia também: ‘Queiroz é peça-chave’ para ligar família Bolsonaro às milícias e morte de Marielle, diz sociólogo

Niterói, Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 2021 – A menina Ana Clara, de apenas 5 anos, brincava na porta de casa, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, quando foi atingida por um tiro de fuzil disparado pelo PM Bruno Dias Delaroli. Apesar de ter sido inicialmente preso, o PM passou a responder pelo processo em liberdade. Três anos depois, quando a Justiça determinou que o caso fosse encaminhado ao júri, o então senador da República Flávio Bolsonaro, passou a integrar a equipe de defesa do PM como advogado, chegando a assinar um recurso ao STJ. O caso segue sem julgamento até hoje.

Senado Federal, Brasília, DF, 10 de maio de 2023 – Em reunião da CCJ do Senado que debatia projeto de lei que criminalizava as milícias, Bolsonaro defendeu uma emenda que limitava o conceito de milícias à exploração de serviços básicos, na tentativa de excluir os esquadrões da morte desse tipo de crime. Após críticas, Flávio se defendeu: “E sabe que lá atrás, milícia era qualquer prédio onde moravam dois, três policiais militares e não deixavam vender droga na frente do prédio. Começou assim. Aí depois a coisa foi tomando vulto (…)”.

Rio de Janeiro, RJ, 24 de março de 2024 – O deputado federal Chiquinho Brazão é preso junto com seu irmão, Domingos Brazão, conselheiro do TCE-RJ, ambos acusados de serem mandantes do assassinato de Marielle e Anderson. O ex-chefe da Polícia Civil do RJ, Rivaldo Barbosa, também foi preso por participar do planejamento. As prisões foram possibilitadas pela delação do miliciano Ronnie Lessa, responsável pela execução dos assassinatos.

Rio de Janeiro, RJ, 9 de maio de 2024 – A Polícia Federal prende Robson Calixto da Fonseca, o “Peixe”, PM reformado e ex-assessor de Domingos Brazão, acusado de participar da organização criminosa dos irmãos Brazão. Outro mandado é cumprido contra major Ronald, acusado de monitorar a rotina de Marielle no planejamento de seu assassinato. Ronald havia sido homenageado por Flávio Bolsonaro em março de 2004 por uma ação que deixou três mortos na Maré.

Rio de Janeiro, setembro de 2026 – São reveladas pela imprensa mensagens trocadas entre Peixe” e uma secretária parlamentar do gabinete do senador Flávio Bolsonaro. Nas mensagens, obtidas por investigação do Ministério Público do RJ e da PF, “Peixe” pediu o envio de verbas para uma ONG localizada na Taquara, bairro dominado por milícias no RJ. As conversas se estenderam por cinco meses. Em uma delas, “Peixe” chama Flávio de “nosso Senador”. As investigações revelaram que, em 2023, Flávio Bolsonaro enviou uma emenda parlamentar de quase R$ 200.000,00 ao projeto social da ONG indicada por “Peixe”.

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Brasil, 25 de outubro de 2026 – O Brasil vai às urnas para decidir quem será o seu próximo presidente da República. Flávio Bolsonaro disputa o segundo turno da eleição presidencial contra o ex-operário Luiz Inácio Lula da Silva.

Algumas das falas e dos discursos citados neste artigo foram retirados do livro “A República das Milícias” (Todavia, 2020), do jornalista Bruno Paes Manso.

Almir Felitte é pesquisador e autor do livro “História da Polícia no Brasil: estado de exceção permanente?” (Autonomia Literária, 2023).

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Fonte: Ponte

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