Argentina: 30 mil empresas fechadas desde a chegada de Milei ao poder

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Por Marcia Carmo — Brasil 247

O rumo econômico da Argentina costuma ser apontado como exemplo a ser seguido na visão da extrema-direita. Mas a realidade do país revela outra dimensão. Em entrevista ao Brasil 247, o economista Hernán Letcher, diretor do think tank ‘Centro de Economia Política Argentina’ (Centro Cepa), disse: “O governo argumenta que está organizando a macroeconomia com poucos efeitos na micro. Mas não concordamos”. Letcher citou dados econômicos e sociais que reforçam o questionamento do propagado sucesso do modelo econômico argentino. “A queda do salário real (de cerca de 10%), a perda de mais de 400 mil empregos públicos e privados e o fato de que um em cada três clientes argentinos está endividado mostram um quadro crítico do país. Além disso, há uma deterioração forte em segmentos da economia como o automotivo, o têxtil e o plástico, por exemplo. Nestes casos, o uso da capacidade instalada chega a ser menos que 40%”, disse.

Recessão

Nos últimos dias, o ministro da Economia da Argentina, Luis Caputo, tem reiterado que a economia do país não cairá em recessão. No entanto, a queda da atividade econômica de quase 3% (2,9%) em julho na comparação com junho deste ano, segundo dados oficiais, mostrou outro comportamento da economia argentina. O banco JP Morgan, dos Estados Unidos, que costuma ser um farol no mundo financeiro internacional, informou aos seus clientes uma projeção de recessão argentina no terceiro trimestre deste ano e estimou que o consumo dos argentinos crescerá apenas 0,4% em 2027 – longe dos 4% previstos pelo governo no projeto de orçamento de 2027.

“Situação crítica”

Para o economista Letcher, do Centro Cepa, de Buenos Aires, há motivos para preocupação com a realidade econômica e social argentina. Quando perguntado sobre como definiria em uma palavra o quadro atual, ele respondeu: “crítico”. O país está em crise, disse nosso entrevistado. “São dois trimestres de queda da atividade econômica. Uma recessão garantida. O governo está ansioso para atrair dólares. Mas o cenário internacional e a queda da economia aqui não contribuem para atender esta expectativa oficial”, disse Letcher.
           Ele afirmou que o cenário atual é de retração na arrecadação fiscal e os ajustes (‘motosserra’, como Milei gosta de dizer) implementados para organizar a economia não afastaram incertezas sobre os setores fiscais e, por sua vez, a inflação ainda é desafiante. A inflação é um problema antigo dos argentinos. O combate ao índice alto é uma das principais bandeiras de Milei que, oficialmente, retrocedeu, mas o economista observou que a base de cálculo subestima, por exemplo, o impacto real dos serviços públicos na inflação oficial.

Pobreza

Estatística que, por sua vez, não retrata a pobreza e indigência em sua totalidade. Segundo os últimos dados oficiais, a pobreza saltou de 28% para 32% no primeiro semestre deste ano na comparação com o semestre anterior. A indigência também subiu. Para o economista do Cepa, com uma base de cálculo atualizada, a pobreza seria de 38% ou 40%, como apontam consultorias especializadas, e não de 32%. Portanto, afirmou, similar a que foi registrada nos governos anteriores. “O governo Milei argumenta que tinha tirado 15 milhões de pessoas da pobreza, mas esse era um dado duvidoso. As cestas básicas de consumo, usadas nas estatísticas, não estão atualizadas. É preciso atualizar a base estatística porque ela é de 2004 e o país mudou muito nesse período”, disse. Ele afirmou ainda que apesar do severo arrocho, o governo deixará de cumprir, pela primeira vez, as metas estabelecidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O país contraiu uma dívida bilionária e recorde com o organismo na época do governo do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019).

Fechamento de empresas

 Segundo o Centro Cepa, a partir dos dados oficiais, 32 mil empresas argentinas fecharam as portas desde a posse de Milei em dezembro de 2023. “Este, sem dúvida, é um dos piores indicadores da administração Milei. São empresas geralmente pequenas dos setores de comércio, indústria e construção”, disse Letcher. Ele observou que o governo conseguiu evitar crises tradicionais na Argentina, como a cambial, e acrescentou que os setores da mineração, energia e agro registram dados positivos. “Mas eles não são geradores de mão de obra intensiva”, disse.

“Afinidade ideológica”

Quando perguntado sobre os motivos que levam a extrema-direita, incluindo o presidenciável e senador Flávio Bolsonaro, a apontarem a Argentina como exemplo a ser copiado, ele respondeu que percebe muito mais afinidade ideológica do que os efeitos positivos do modelo Milei.

Milei, aposentados e pessoas com deficiência

Ele lembrou, por exemplo, que setores das aposentadorias foram congelados e o programa de medicamentos grátis para aposentados sofreu forte ajuste. “Não só medicamentos grátis, mas o PAMI (equivalente ao INSS) já não oferece cadeiras de rodas grátis para cadeirantes”, disse.

Redes sociais

Ele mesmo fez uma pergunta durante a conversa com o Brasil 247 – “onde estão os protestos seguidos e em massa dos argentinos diante desta situação?” E respondeu: “Tenho a impressão que Milei continua fazendo uso muito eficiente das redes sociais e num momento em que um setor da sociedade é critico da politica como um todo”. Milei continua se apresentando como se fosse um ‘fora da política’, mesmo quase três anos depois da posse, com insultos costumeiros e públicos contra todos os que o criticam. “Ele aproveita esse ‘personagem’, mas isso não quer dizer que a vida econômica e social dos argentinos melhorou. E há questões de extrema crueldade como a sua decisão de (cortes de verbas) para pessoas com deficiência, que fazem parte do ajuste fiscal, que são inexplicáveis e inaceitáveis internamente, mas talvez chegue a ser aceitada pelo setor financeiro como se fosse a coragem de Milei até para este tipo de medida”, disse.

Milei, Trump e Eduardo Bolsonaro

Segundo o jornal La Nación, de Buenos Aires, Milei embarcará novamente na semana que vem para os Estados Unidos. A imprensa local estima que esta será sua vigésima viagem ao país governado por Trump desde que Milei chegou à Casa Rosada em 2023. Desta vez, a viagem será a Washington para apoiar o norte-americano na eleição legislativa de novembro nos Estados Unidos.

‘Retrocesso’

De acordo com o La Nación, Milei deverá se encontrar com Eduardo Bolsonaro – cotado para assumir o Itamaraty, caso seu irmão Flávio seja eleito. “Seria o maior retrocesso na nossa política externa e esperamos que isso não aconteça”, disse à reportagem uma alta fonte diplomática.

Fonte: Brasil 247

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