Áreas protegidas movimentam bilhões e seguem fora do debate eleitoral

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ELEIÇÕES

Erika Guimarães

10/9/2026 11:01

Ano eleitoral é ano de promessas. Porém é raro vermos promessas sobre questões ambientais ou climáticas, tanto no âmbito estadual como federal, mesmo diante dos eventos climáticos extremos que já afetam o cotidiano do eleitor brasileiro em todos os Estados. Neste ano, o período eleitoral coincide com o Super El Niño, cujos efeitos sobre temperatura e regime de chuvas já são perceptíveis. Diante desse cenário, o compromisso dos candidatos com as áreas protegidas deveria ocupar lugar de destaque na agenda, não apenas pelo papel que exercem na adaptação climática e na mitigação da crise climática, mas porque a biodiversidade brasileira é também um ativo econômico: sustenta a produção agroindustrial, gera empregos e é condição para a saúde e o bem-estar da população.

Um estudo lançado neste ano pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) e o coletivo Abrolhos para Sempre, mostra que a pesca, o turismo e as unidades de conservação marinhas e costeiras movimentaram R$ 1,9 bilhão em 2024 na região dos Abrolhos, entre o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo.

O mesmo estudo aponta que essas áreas protegidas foram responsáveis, direta ou indiretamente, por 29.163 empregos e pela injeção de R$ 536,3 milhões nas economias locais no mesmo ano, cerca de 30% dos empregos e 28% da economia ligada à pesca e ao turismo na região. Um exemplo concreto: o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos recebeu 16.912 visitantes em 2024 e injetou quase R$ 7 milhões na economia local.

Em escala federal, o retorno é ainda mais expressivo. Para cada R$ 1 investido em unidades de conservação, o retorno econômico gerado pela cadeia do turismo foi de R$ 15,60, o que em 2025 representou R$ 20,3 bilhões de contribuição ao PIB. Ao todo, as unidades de conservação federais geraram R$ 40,7 bilhões em vendas e R$ 9,8 bilhões em renda para as famílias, segundo a quarta edição do estudo sobre Contribuições do Turismo em Unidades de Conservação Federais para a Economia Brasileira, do ICMBio.

Os benefícios não se limitam ao turismo. Um segundo levantamento revela o papel dessas áreas como solução baseada na natureza para o enfrentamento da crise climática: a proteção legal da Amazônia evitou a emissão de 104 milhões de toneladas de CO2, volume equivalente ao total emitido pela aviação doméstica americana em 2020, que responde por cerca de 17% das emissões da aviação doméstica mundial. Entre 2008 e 2020, as áreas protegidas da Amazônia, as unidades de conservação, as terras indígenas e os territórios quilombolas, reduziram o desmatamento na região em 21%. Desse total, aproximadamente 264 mil hectares correspondem a unidades apoiadas pelo ARPA (Programa de Áreas Protegidas da Amazônia), o maior programa de conservação de florestas tropicais em curso, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e responsável pela consolidação de 120 unidades que cobrem 62 milhões de hectares na Amazônia.

A biodiversidade brasileira é também um ativo econômico.

Esses dados integram um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e pela Universidade de Bonn, que buscou quantificar o impacto do ARPA na redução do desmatamento e das emissões de CO2 na Amazônia brasileira entre 2008 e 2020, reunindo evidências sobre a eficácia do programa e de seu mecanismo de investimento.

Essa realidade está sendo possível porque, há 26 anos, uma lei mudou a forma como o país protege seus ecossistemas. A criação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), em 18 de julho de 2000, reorganizou a gestão de florestas e áreas marinhas em todos os biomas brasileiros. Desde então, o número de unidades de conservação saltou de 1.053 para 3.185, cobrindo hoje 2,6 milhões de km², o equivalente a 20% do território nacional. Esse sistema é estratégico para que cidades brasileiras enfrentem uma crise climática que já não é mais hipótese, mas realidade sentida em diversas regiões do país.

Ainda assim, persiste um discurso recorrente em debates eleitorais: o de que o Brasil “protege florestas demais” ou “já conserva adequadamente sua biodiversidade”. Os números contradizem essa tese. Segundo o Observatório do Clima, o país destina hoje mais terra à agropecuária (245 milhões de hectares) do que à conservação (216 milhões de hectares).

O que esses números mostram, em conjunto, é que conservar e desenvolver não são caminhos opostos. Proteger a natureza gera empregos, movimenta a economia, fortalece a segurança climática e sustenta a qualidade de vida de milhões de brasileiros. Em ano eleitoral, cabe ao eleitor cobrar dos seus representantes um compromisso concreto com a ampliação e o fortalecimento das áreas protegidas do país. Num mundo cada vez mais pressionado pela crise climática, essas áreas deixam de ser apenas espaços de conservação para se tornarem infraestrutura essencial, para a sobrevivência, o bem-estar e a prosperidade do país. Um Brasil mais verde é, também, um Brasil mais resiliente e preparado para o futuro.

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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Fonte: Congresso em Foco

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