Apostas online atingem 20,4% dos estudantes do Ensino Fundamental e Médio no país, diz estudo

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Por Leonardo SobreiraBrasil 247

247 – Embora as plataformas de apostas online sejam estritamente proibidas para menores de idade, 9,5% das crianças de 11 anos ouvidas em um levantamento de âmbito nacional afirmam já ter feito apostas. Essa proporção cresce de forma proporcional à idade: no total, 20,4% dos alunos entrevistados nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio relatam já ter recorrido aos jogos online.

Os dados são de pesquisa da Frente Parlamentar Mista de Educação em parceria com o Equidade.info, realizada em 191 escolas do ensino básico de todo o país. Conforme o levantamento, o percentual dos estudantes que afirma já ter apostado chega a 32,3% aos 17 anos e a 40% entre aqueles com 18 anos ou mais e que 1 a cada 3 estudantes do Ensino Médio já teve experiência com bets.

O levantamento aponta uma expressiva diferença de gênero.

Do total de estudantes pesquisados, 27,8% dos meninos afirmam já ter feito apostas online, em comparação com 12,6% das meninas. Esse abismo se amplia conforme avança a trajetória escolar: no Ensino Médio, 41,7% dos rapazes já apostaram — mais que o dobro dos 19% registrados no Ensino Fundamental II. No 3º ano, o índice dispara para 49,7%, o que significa que praticamente um em cada dois estudantes do sexo masculino nessa série já teve experiência com as bets. Em contrapartida, a proporção entre as alunas permanece estável ao longo dos anos, mantendo-se em torno de 13%.

Segundo a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), presidente da Frente Parlamentar Mista da Educação, causa enorme preocupação constatar que crianças de apenas 11 anos já mantêm contato com as plataformas de apostas e dão início aos jogos de azar.

“Estamos falando de uma prática que pode comprometer a saúde financeira e o desenvolvimento de uma geração inteira. A Bancada da Educação tem o compromisso de olhar para esse problema a partir de evidências e ajudar a construir políticas públicas que protejam crianças e adolescentes. A parceria com o Equidade.info nos permite justamente dar visibilidade a uma realidade que muitas vezes é invisível e, a partir dos dados, propor medidas concretas”.

O pesquisador, Guilherme Lichand,  professor de Educação da Universidade de Stanford e responsável pela supervisão da pesquisa, ressalta: “Os números geram incômodo e muitas outras perguntas. Essas apostas estão concentradas em eventos esportivos, sobretudo futebol? Como crianças e adolescentes descobrem essas plataformas? Como contornar as restrições de idade, problema comum tanto aos sites de apostas esportivas quanto às redes sociais?”.

A proporção de estudantes que já apostaram é praticamente idêntica entre as redes de ensino.

Os números chegam a 20,4% nas escolas públicas e 20,5% nas privadas. Contudo, há divergências no balanço financeiro relatado. Nas instituições públicas, destaca-se o percentual de alunos que afirmam ter ganhado mais do que perdido (7,4%) e daqueles que não sabem precisar o saldo entre ganhos e perdas (7,7%) — este último interpretado por especialistas como um sinal de descontrole financeiro. Por outro lado, nas escolas privadas, sobressai a parcela dos que assumem ter perdido mais do que ganharam (9,5%).

Enquanto um nível socioeconômico elevado eleva a propensão para o jogo, a escolaridade dos pais atua como um fator de proteção: o levantamento aponta que os alunos mais vulneráveis são justamente aqueles que vivem em lares com maior acúmulo de bens, mas cujos pais não possuem ensino superior.

“Os dados ajudam a entender o perfil típico do estudante que aposta online: menino, frequentando o Ensino Médio, de famílias que têm alguma renda disponível, mas cujos pais não cursaram o Ensino Superior. É deste público de onde vem a maior parte do volume enorme de recursos”, detalha Lichand.

Além de expor os alunos aos jogos, o estudo alerta para a dificuldade de parte deles em dimensionar os próprios resultados financeiros:

Quatro em cada dez apostadores não sabem precisar se lucraram ou tiveram prejuízo nas plataformas. No total de entrevistados, 7,4% afirmam ter ganhado mais do que perdido, 5,2% relatam prejuízos superiores aos ganhos e 7,6% admitem desconhecer o balanço. Os dados revelam, ainda, que a educação financeira isolada não basta para prevenir a exposição às bets — alunos de escolas com índices mais altos de letramento financeiro apresentam maior propensão a apostar e menor controle sobre o fluxo de caixa. Por fim, a pesquisa buscou mensurar o impacto econômico da prática: a partir dos valores declarados e de projeções para quem não soube informar o saldo, estima-se que as perdas agregadas possam ultrapassar a marca de R$ 1 bilhão entre o público investigado.

Com base na estimativa do Banco Central de que as perdas com as bets alcançaram R$ 62,5 bilhões em 2025, o levantamento adota esse dado como parâmetro e projeta diferentes cenários para dimensionar o impacto financeiro agregado entre os estudantes.

Entre as recomendações, a pesquisa propõe a adoção de medidas sistêmicas de proteção, como o aumento da tributação sobre as transações nas plataformas, o endurecimento de restrições à publicidade e salvaguardas direcionadas prioritariamente a menores de idade.

O estudo reforça, ainda, que abordagens focadas unicamente na mudança de comportamento individual são insuficientes para conter o avanço do problema.

“Uma reação comum a problemas com apostas é culpabilizar os indivíduos. As plataformas costumam sugerir lembretes sobre perdas passadas ou limites auto impostos sobre valores apostados no futuro como intervenções promissoras para moderar o seu uso. Os estudos acadêmicos sugerem que essas soluções não funcionam. Em vez disso, a proibição de propaganda e impostos relevantes sobre valores transacionados pelas bets colocam a responsabilidade nos atores corretos e têm efeitos comprovados sobre redução do risco de exposição”, conclui Lichand.

Realizada entre agosto e setembro de 2026, a pesquisa ouviu 1912 estudantes, por meio de entrevistas presenciais e questionários estruturados. O levantamento integra a parceria firmada em 2024 entre a Frente Parlamentar Mista da Educação e o Equidade.info para produzir dados capazes de subsidiar políticas públicas para uma educação básica mais justa e igualitária.

Fonte: Brasil 247

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