Apostadores resgatam recursos após fim das bets e buscam alternativas no exterior
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Com a proximidade do fim do prazo para resgate de recursos em plataformas de apostas on-line, as chamadas bets, previsto para segunda-feira (5), brasileiros que mantinham o hábito de jogar já começaram a sacar seus recursos acumulados. Para uma parcela dos apostadores, o momento atual é de transição e avaliação: enquanto alguns analisam novos projetos pessoais e profissionais, outros planejam migrar e continuar jogando em plataformas hospedadas no exterior. Entre os que pretendem manter a atividade, a principal preocupação envolve os riscos decorrentes da derrubada do arcabouço legal, provocada por medida provisória (MP) enviada pelo governo federal ao Congresso Nacional, que ainda passará por votação nos próximos meses, informa o jornal O Globo.
O especialista em ciência de dados Ricardo Berassolli, de 45 anos, atuava como apostador desde 2010 e tinha as bets como sua principal fonte de renda. Ele relembra que, antes do processo de regulamentação implementado em 2023, o cenário era de total incerteza sobre direitos e canais oficiais para resolução de eventuais problemas. Com o funcionamento das regras para o jogo legal no Brasil, Berassolli avalia que o ambiente havia ganhado estabilidade e proteção ao consumidor. “Sempre teve uma insegurança sobre onde reclamar os direitos. Estar regulamentado era ótimo porque havia órgãos de proteção”, afirma o apostador.
Após o anúncio da Medida Provisória proibindo a atuação das empresas no país, Berassolli providenciou a retirada total de seu saldo na única casa de apostas que utilizava. Segundo relatou, a própria empresa enviou um comunicado formal orientando o resgate do dinheiro e informando que saldos remanescentes seriam estornados após o encerramento do prazo oficial. Contudo, ele pondera que a nova realidade expõe novamente os apostadores, em especial os menos experientes.
“Voltou a ter um risco elevado de a pessoa fazer um depósito e, na hora de sacar, ter algum problema ou a casa simplesmente desaparecer”, avalia Berassolli.
A situação também impactou jovens que viam no setor uma alternativa financeira. João Victor Brasil, de 24 anos, morador de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, começou no universo das apostas logo após a pandemia da Covid-19, quando cursava o ensino médio. Na época, ele atuava como auxiliar de serviços gerais no Aeroporto Santos Dumont com carteira assinada, acordando diariamente às 5h para o trabalho. Conforme os ganhos nas plataformas aumentaram, as apostas passaram a ser sua principal renda, levando-o a mudar seus planos de carreira.
“Perdia um dia inteiro só com o trabalho. Quando comecei a ganhar, em média, o equivalente a um salário mínimo por mês com as apostas, não fazia sentido financeiro voltar para um emprego CLT”, explica João Victor.
O jovem reconhece, no entanto, a inconstância inerente à modalidade de jogo. “É uma renda variável. Tem mês que você ganha um valor e, em outro, não ganha nada”, pondera.
João Victor mantinha valores depositados em sete plataformas de apostas. As companhias notificaram os clientes de que as retiradas seriam permitidas até a próxima segunda-feira, e que eventuais saldos remanescentes seriam transferidos de forma automática para as contas bancárias cadastradas. Ele já efetuou o resgate em cinco empresas sem sobressaltos e ainda possui R$ 1,7 mil distribuídos nas duas plataformas restantes, montante que pretende sacar antes do encerramento da data limite estabelecida pelo Poder Executivo.
O ex-auxiliar expressa frustração com o encerramento repentino das operações e a falta de previsibilidade na transição das regras. “A gente sentia que era a única coisa em que era bom de verdade. E isso acabou de uma hora para outra, sem aviso prévio”, desabafa. Diante da nova realidade jurídica, João Victor estuda voltar às salas de aula e retomar os estudos acadêmicos. Atualmente, ele também mantém sociedade com um amigo em um estabelecimento de vestuário, embora a loja ainda não configure sua principal fonte de renda.
Fonte: Brasil 247