Após morte de jogador de 18 anos em Goiás, especialista alerta para AVC em jovens: “Não é da minha idade” pode atrasar diagnóstico
Por João Reynol — Jornal Opção

A morte do jogador de futebol Thiago Reis Dias, de 18 anos, após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), em Goiás, acendeu um alerta para a ocorrência da doença entre pessoas mais jovens. Embora seja frequentemente associado à população idosa, o AVC também pode atingir jovens e exige atendimento imediato.
Ao Jornal Opção, o neurocirurgião Marcos Spadoni explica que os casos registrados entre adultos jovens têm aumentado e que, nessa faixa etária, as causas podem ser diferentes daquelas mais comuns em pacientes idosos.
As possíveis origens também variam de acordo com o tipo de AVC. No isquêmico, que ocorre quando uma artéria responsável por levar sangue ao cérebro é obstruída, algumas das causas investigadas em jovens são o forame oval patente — uma abertura entre as cavidades do coração presente desde o nascimento —, dissecções das artérias do pescoço e o uso de determinadas substâncias.
O médico também chama atenção para a combinação entre tabagismo e uso de anticoncepcionais, que pode aumentar o risco. Já no AVC hemorrágico, caracterizado pelo rompimento de um vaso sanguíneo no cérebro, aneurismas cerebrais estão entre as possíveis causas investigadas.
Investigação pode ser mais ampla entre jovens
Devido à variedade de fatores que podem estar relacionados ao AVC em pessoas mais novas, Spadoni explica que a investigação costuma ser mais extensa nessa faixa etária.
Entre os exames que podem ser solicitados estão o ecocardiograma, utilizado para verificar a presença de forame oval patente, e a angiorressonância das artérias do pescoço e do crânio. Exames de sangue também podem ajudar a identificar alterações na coagulação e doenças autoimunes. Dependendo do caso, uma triagem toxicológica também pode fazer parte da investigação.
“Mesmo com essa investigação completa, em cerca de um a cada três casos não se encontra uma causa definida”, explica o neurocirurgião.

Como identificar um AVC?
Um dos principais riscos nos casos envolvendo jovens é a demora para reconhecer os sintomas. Segundo Spadoni, muitas pessoas não consideram inicialmente a possibilidade de um AVC justamente por associarem a doença à população mais velha.
Para facilitar a identificação dos sinais, o especialista cita a sigla SAMU: Sorriso, Abraço, Música e Urgência. O método ajuda a reconhecer alterações repentinas na face, perda de força nos braços e dificuldades na fala. Diante de qualquer um desses sintomas, a orientação é buscar atendimento de urgência imediatamente.
“A cada minuto sem tratamento, cerca de 2 milhões de neurônios são perdidos. Quanto mais rápido o atendimento, maior a chance de usar a medicação trombolítica ou o procedimento de retirada do coágulo (trombectomia)”, explica.
Em casos selecionados, segundo o médico, a trombectomia pode ser realizada até 24 horas após o início dos sintomas. Por isso, acreditar que alguém é “jovem demais” para sofrer um AVC pode atrasar o diagnóstico e o início do tratamento.
“Em jovens, o problema é o atraso no reconhecimento: muitos não associam os sintomas a um AVC por acharem que ‘não é da minha idade’”, alerta.
Tratamento muda conforme a idade?
Apesar das diferenças nas possíveis causas, a idade, por si só, não altera os critérios utilizados no atendimento de emergência, segundo o neurocirurgião.
“No momento da emergência, o tratamento é igual — os critérios para medicação ou retirada do coágulo não mudam por causa da idade”, afirma Spadoni.
A principal diferença aparece após o atendimento inicial. Entre pacientes jovens, a investigação sobre a origem do AVC tende a ser mais ampla devido à diversidade de fatores que podem estar envolvidos. A estratégia para prevenir um novo episódio também é definida a partir da causa identificada.
“A diferença aparece depois: a busca pela causa é mais extensa no jovem, e a prevenção de um novo AVC é ajustada ao que foi encontrado”, conclui.
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Fonte: Jornal Opção