Ana Elisa expõe o atraso da esquerda nas redes sociais e vira alvo de ataques

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Por João Paulo Alexandre — Jornal Opção

Ana Elisa expõe o atraso da esquerda nas redes sociais e vira alvo de ataques

Ana Elisa Santos Silva, de 21 anos, é uma jovem preta e periférica que foi eleita a mulher mais votada da história de Minas Gerais, além de ser a mais jovem já eleita no país. Com boa dicção, argumentos afiados e uma capacidade de comunicação que falta a boa parte da classe política, ela tem chamado a atenção de quem acompanha os conteúdos compartilhados por apoiadores de Lula da Silva (PT). Até mesmo os adversários estão de olho nela. E não é por acaso.

Nascida em 31 de agosto de 2005, em Divinópolis (MG), Ana Elisa é criadora de conteúdo nas redes sociais e conta com mais de 2 milhões de seguidores. Em número de votos, ficou atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL). É filha de uma mulher negra, professora e mãe solo.

Como grande parte dos brasileiros, Ana Elisa sabe o que é precisar se desdobrar para conciliar diferentes responsabilidades na busca por um futuro melhor. Estudante de Direito, atuava, até pouco antes das eleições, como estagiária no Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG), onde recebia uma bolsa de aproximadamente R$ 1,7 mil.

Mas o que mais chama a atenção não é apenas sua trajetória pessoal ou o desempenho nas urnas. É a disposição de criticar a própria esquerda, algo que muitos de seus representantes parecem evitar por receio de contrariar lideranças e estruturas partidárias consolidadas.

Em diversas entrevistas, a deputada federal classifica como um erro crasso o fato de políticos desse campo ideológico nunca terem conseguido dominar a narrativa nas redes sociais. E ela tem razão. Enquanto a direita compreendeu, há anos, que a disputa política também acontece nas telas dos celulares, boa parte da esquerda continuou presa a modelos tradicionais de comunicação, discursos engessados e estratégias que parecem ter parado no tempo.

O resultado está diante dos nossos olhos. A direita conseguiu transformar influenciadores em lideranças políticas, engajamento em mobilização e seguidores em eleitores. Já a esquerda, mesmo contando com estruturas partidárias robustas e figuras conhecidas nacionalmente, demorou a compreender que não basta estar presente nas redes sociais. É preciso saber se comunicar.

Ana Elisa conta que, ao receber o convite para disputar as eleições, ouviu que deveria ter cuidado, já que as redes sociais poderiam render curtidas, mas isso não necessariamente se converteria em votos. O resultado das eleições mostrou justamente o contrário.

Essa visão revela um dos grandes problemas da velha política, especialmente de setores da esquerda: a dificuldade de reconhecer que a maneira de fazer política mudou. Há quem ainda trate as redes sociais como um espaço secundário, destinado apenas à divulgação de agendas, fotografias e discursos institucionais. Enquanto isso, seus adversários disputam narrativas, conquistam públicos e estabelecem conexões diretas com o eleitorado.

E é justamente nesse cenário que Ana Elisa começa a incomodar.

Seu crescimento político e o engajamento nas plataformas digitais também vieram acompanhados de ameaças e ataques. O episódio merece atenção porque ultrapassa os limites de uma divergência ideológica. Discordar de uma parlamentar, questionar suas ideias ou confrontar seus argumentos faz parte da democracia. Ameaçá-la por sua atuação política é algo completamente diferente.

Há uma contradição preocupante nesse cenário. Uma jovem que conquistou espaço por meio da comunicação e do voto passa a enfrentar intimidações justamente por exercer o protagonismo que as urnas lhe garantiram. Independentemente da posição ideológica, ameaças não podem ser naturalizadas como consequência da exposição pública.

Também chama a atenção o fato de que Ana Elisa representa uma combinação que ainda provoca resistência em determinados espaços de poder: é jovem, mulher, negra, periférica e demonstra capacidade de disputar narrativas com políticos muito mais experientes.

Mas, aos poucos, ela vem mostrando que os jovens entendem do que falam, e muito bem. São notórias as mudanças nas redes sociais de Lula da Silva. A aparição do presidente em vídeos no formato de selfies já tem surtido efeito em termos de engajamento, chegando a 9,9 milhões de curtidas, comentários e compartilhamentos, segundo informações divulgadas pela jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.

Essa mudança evidencia algo que a esquerda deveria ter compreendido há muito tempo: comunicação política não pode se limitar a discursos elaborados para convencer quem já está convencido. É preciso dialogar com públicos diferentes, compreender a linguagem das plataformas e abandonar a ideia de que a relevância de uma mensagem depende exclusivamente da autoridade de quem a transmite.

Durante anos, a esquerda pareceu acreditar que a força de suas bandeiras seria suficiente para conquistar a atenção do eleitorado. Não foi. Enquanto seus representantes insistiam em fórmulas tradicionais, a direita ocupava espaços, criava personagens políticos e estabelecia uma relação direta com milhões de brasileiros.

A questão não é simplesmente produzir vídeos curtos ou acumular seguidores. É compreender que a comunicação deixou de ser um instrumento complementar da política para se tornar um dos principais territórios da disputa pelo poder.

Como será o mandato de Ana Elisa na Câmara dos Deputados? Só o futuro poderá nos dizer. O desempenho nas redes sociais, por si só, não garante uma atuação parlamentar consistente. Será necessário transformar popularidade em trabalho legislativo, capacidade de articulação e resultados concretos para a população.

Ainda assim, sua trajetória já expõe uma lição que parte da esquerda insiste em ignorar: não se pode desprezar uma geração inteira de eleitores apenas porque ela se informa, debate e participa da política de maneira diferente.

Estamos presenciando, inclusive, uma inversão nos discursos políticos. Setores da direita, frequentemente acusados de disseminar desinformação, agora também passaram a utilizar esse argumento para questionar adversários. Isso mostra como a disputa pela credibilidade se tornou parte central da batalha política nas plataformas digitais.

A direita deu um banho na esquerda nesse aspecto. Compreendeu mais rapidamente a força das redes, investiu em narrativas de fácil circulação e soube transformar comunicação em capital político. A esquerda, por sua vez, demorou a reagir e, em muitos momentos, pareceu mais preocupada em criticar a linguagem dos adversários do que em construir uma estratégia própria.

Ana Elisa pode representar uma mudança nesse cenário. Não porque seja capaz de resolver, sozinha, os problemas de comunicação de todo um campo político, mas porque demonstra compreender algo que dirigentes experientes ainda resistem a aceitar: a política mudou, o eleitor mudou e a maneira de estabelecer conexões também precisa mudar.

As ameaças que enfrenta tornam essa trajetória ainda mais preocupante. A democracia precisa garantir que novas lideranças possam surgir, disputar ideias e conquistar espaço sem que a intimidação seja utilizada como instrumento para silenciá-las.

Talvez o maior desafio de Ana Elisa não seja enfrentar a direita, mas convencer a própria esquerda de que é preciso abandonar velhos hábitos para continuar relevante. Afinal, não adianta reclamar da força digital dos adversários quando se passou tanto tempo desprezando o ambiente em que essa força foi construída.

A esquerda passou anos assistindo à direita dominar as redes sociais. Agora que surge uma jovem capaz de disputar esse espaço, resta saber se terá inteligência para ouvi-la ou se continuará refém de uma velha política que insiste em não compreender o presente.

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Fonte: Jornal Opção

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