Alta dos combustíveis amplia protestos na Europa e fortalece extrema-direita
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – A disparada dos combustíveis e a pressão sobre o custo de vida ampliam os protestos na Europa e fortalecem partidos de extrema-direita antes das eleições previstas para 2027 em países como França, Itália e Polônia.
Segundo reportagem da Reuters publicada nesta terça-feira (20), a insatisfação econômica também dá força a propostas de retomada das compras de petróleo e gás da Rússia, em contestação à política europeia de apoio à Ucrânia.
A guerra entre dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada em fevereiro, agravou as dificuldades de governos que já enfrentavam inflação, baixo crescimento e restrições orçamentárias. De acordo com estimativa da Comissão Europeia citada pela Reuters, o conflito impôs custos de cerca de 100 bilhões de euros à Europa, em razão das perturbações no comércio e nos mercados de energia. Os preços da gasolina aumentaram aproximadamente 140%, enquanto os do diesel dobraram.
Na França, a combinação de insatisfação com os serviços públicos e perda de poder de compra desembocou em alguns dos distúrbios mais graves das últimas décadas. Manifestações que começaram contra a deterioração das instalações escolares nos subúrbios ao norte de Paris se expandiram, em meio a saques e incêndios. Em Limoges, um prédio da prefeitura do século XIX foi destruído pelo fogo.
Em Nantes, o manifestante Quentin Leviloux, de 21 anos, relacionou sua participação à dificuldade de arcar com as despesas cotidianas. “Por que estou aqui? Bem, simplesmente porque acho o custo de vida atual verdadeiramente assustador”, afirmou.
“Basta pensar nas pessoas que ganham pouco mais que o salário mínimo, quando se considera o custo dos alimentos, do combustível e de tudo o mais. É assustador o quão incrivelmente caro tudo ficou.”
Em pronunciamento no fim de semana, o presidente francês, Emmanuel Macron, reconheceu as “reivindicações legítimas” dos manifestantes contra a alta do custo de vida e dos combustíveis, mas condenou a violência. “Nunca devemos confundi-los com aqueles que destruíram, vandalizaram e saquearam”, declarou.
Combustíveis ganham peso na eleição francesa
A crise energética passou a ocupar posição central na disputa presidencial francesa de abril de 2027. Ao mesmo tempo, o governo enfrenta um déficit orçamentário crescente e pressão dos mercados de títulos públicos, fatores que dificultam a resposta às reivindicações.
Marine Le Pen, do partido de extrema-direita Reunião Nacional e apontada como favorita na corrida, defende uma forte redução do imposto sobre valor agregado que incide sobre os combustíveis. A proposta tem amplo apoio popular e repercute especialmente entre seus eleitores de áreas rurais e semirrurais, onde o automóvel costuma ser indispensável para os deslocamentos.
O dirigente de um dos partidois de esquerda Jean-Luc Mélenchon também colocou o preço dos combustíveis entre os principais temas de sua campanha.
“A alta dos preços dos combustíveis é claramente uma questão que impulsiona Marine Le Pen”, disse Gilles Ivaldi, cientista político da Sciences Po. “Acho que essa é uma questão que ela domina há bastante tempo.”
Segundo pesquisas do instituto Elabe mencionadas pela Reuters, os índices de avaliação de Le Pen melhoraram desde o início da guerra com o Irã, enquanto os de Macron recuaram. Para Ivaldi, as preocupações com o poder de compra se tornaram “um dos principais motores da política populista” na Europa.
Agricultores e caminhoneiros bloqueiam estradas na Itália
Na Itália, o encarecimento do diesel afeta a produção agrícola e o transporte de mercadorias. Em Gela, na costa sul da Sicília, agricultores levaram tratores às ruas para denunciar que o custo de operar as máquinas se tornou proibitivo.
“Cultivamos a terra, colhemos dívidas”, dizia uma das faixas exibidas no protesto.
“Estamos completamente parados”, afirmou Arcangelo Gambino, representante dos agricultores da província de Caltanissetta. “O custo [do combustível] mais que dobrou.”
Bloqueios organizados por caminhoneiros, agricultores e trabalhadores do setor siderúrgico interromperam o transporte em partes do sul italiano. As ações contribuíram para a falta de combustíveis em algumas localidades e provocaram preocupação com o abastecimento dos supermercados.
No norte do país, Milão registrou confrontos no domingo durante manifestações contra a precariedade dos serviços públicos e o aumento do custo de vida. Houve lançamento de pedras contra policiais e saques a lojas.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, também enfrenta a concorrência de uma nova legenda de extrema-direita, o Futuro Nacional. Liderado pelo ex-general Roberto Vannacci, o partido defende restabelecer os vínculos de fornecimento de gás com a Rússia.
AfD usa inflação para pressionar governo alemão
Na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD) lidera as pesquisas nacionais após avançar nas eleições locais. Um levantamento divulgado neste mês mostrou que o custo de vida ocupa, pelo quinto ano consecutivo, o primeiro lugar entre as preocupações dos alemães.
A inflação do país atingiu em setembro o maior nível em quase três anos, com alta de 14,9% nos preços da energia. O resultado fortaleceu os ataques da AfD ao governo do chanceler Friedrich Merz.
O partido defende retomar as relações energéticas com Moscou e apresenta o apoio alemão à Ucrânia como uma política prejudicial à própria economia, em um momento de dificuldades para empresas que dependem de grandes volumes de energia.
Jan Steckel, professor de economia política das mudanças climáticas da Universidade Técnica de Munique, afirmou que experiências anteriores indicam uma relação entre preços elevados de energia e mobilização eleitoral em favor da AfD.
“Os partidos populistas frequentemente apresentam os custos da energia como evitáveis e os atribuem a escolhas de política governamental […] em vez dos choques geopolíticos subjacentes que os provocam”, explicou.
“Esses choques geopolíticos são […] muito mais difíceis de explicar. E acho que é por isso que os partidos no poder frequentemente enfrentam dificuldades.”
Na Polônia, a preocupação com as contas de energia também ajuda a ampliar o apoio à Confederação da Coroa Polonesa, de extrema-direita. Seu líder, Grzegorz Braun, propõe a retomada das compras de petróleo e gás russos.
Ao defender essa posição ao lado de políticos da AfD em Lubmin, na Alemanha, ponto de chegada dos gasodutos danificados Nord Stream, Braun declarou: “Adoro o cheiro de gás russo pela manhã”.
Insatisfação se espalha por outros países
As manifestações alcançam outros pontos do continente, com reivindicações que combinam renda, moradia e serviços públicos. Em Lisboa, dezenas de milhares de pessoas marcharam no sábado contra os baixos salários, os custos habitacionais e o encarecimento das despesas diárias, aumentando a pressão sobre o governo português de centro-direita.
Na Espanha, o despejo de uma mulher de 87 anos desencadeou protestos nacionais contra a escassez de moradias e a alta dos aluguéis. A mobilização contribuiu para a convocação de eleições antecipadas para novembro.
A Bélgica também registrou manifestações. Na Albânia, grandes atos expressaram insatisfação com a percepção de corrupção no governo, a falta de empregos e a baixa qualidade da educação.
O novo choque energético se soma ao desgaste econômico acumulado desde a pandemia e à crise provocada pela invasão russa da Ucrânia, em 2022. Nesse cenário, políticos tanto da direita radical quanto da esquerda radical passaram a defender a reaproximação energética com Moscou como forma de reduzir custos, colocando sob pressão o consenso europeu em torno do apoio a Kiev.
Fonte: Brasil 247