Aline Bei revela novidades sobre novo livro em visita a Goiânia: “Agora eu estou adentrando uma adolescência como artista”

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Por Tathyane Melo — Jornal Opção

Aline Bei revela novidades sobre novo livro em visita a Goiânia: “Agora eu estou adentrando uma adolescência como artista”

A escritora paulistana Aline Bei, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira contemporânea, participou do projeto Literatura no Centro – Diálogos Acadêmicos nesta terça-feira, 13, na sede da Academia Goiana de Letras (AGL), em Goiânia. Antes da palestra, ela concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Opção e revelou que já iniciou a escrita de seu próximo livro. 

Segundo a autora, o novo trabalho nasce de uma transição pessoal e artística em que, depois de encerrar o que chama de “trilogia involuntária” – formada por ‘O peso do pássaro morto’, ‘Pequena coreografia do adeus’ e ‘Uma delicada coleção de ausências’ –, ela sente que concluiu uma espécie de infância como artista e agora adentra uma nova fase. “Agora eu estou adentrando uma adolescência como artista”, afirma. Ainda que prefira manter sigilo sobre o processo criativo, por acreditar que ele “precisa ser sigiloso, para que possa crescer, se modificar”, Aline adianta que essa adolescência artística é o que tem norteado a escrita do novo romance.

Formada em Letras e com passagem pelo teatro antes de se dedicar à literatura, Aline construiu uma voz singular na ficção brasileira ao misturar prosa e poesia, frases curtas, espaços em branco e uma disposição das palavras na página que carrega significados além do texto. Questionada sobre como descobre a forma de narrar cada história, explica que começa sabendo muito pouco do que vai escrever. “Eu, como uma primeira leitora, mas também uma espécie de pessoa que descobre o livro, que desenterra o livro de um lugar, porque eu também tenho a impressão que esse livro já existe em algum espaço, e o que eu faço é dar passagem, descobrir de que matéria é feita esse mistério”, revela. 

Segundo ela, o livro começa a persegui-la pelos personagens, mas sem um mapa emocional prévio. Em ‘Pequena coreografia do adeus’, por exemplo, o primeiro gesto em direção à protagonista Júlia Terra foi o coturno. A personagem usa botas dentro de casa, o que despertou na autora uma reflexão sobre vulnerabilidade e proteção. “Uma pessoa que fica com botas pesadas em casa é porque, provavelmente, vive num ambiente onde ela precisa se armar, onde ela precisa se proteger e, inclusive, está calçada para fugir”, interpreta.

Aline também recorre à sua formação teatral para compor personagens. Ela conta que adora a palavra “laboratório”, técnica que o ator utiliza para entrar no universo do personagem. “A gente tem que fazer uma pesquisa de campo para descobrir o repertório cultural, emocional desse personagem”, diz. Para ela, mais do que o enredo, é o tom do trabalho que sustenta a narrativa. “Eu acho que a literatura se ocupa muito do como”, pontua, destacando que histórias comuns podem se tornar especiais dependendo do modo como são narradas.

Ao comentar ‘O peso do pássaro morto’, romance que acompanha uma mulher dos 8 aos 52 anos atravessando perdas, violências e silêncios, Aline explica que a transição entre as idades foi um desafio que só aprendeu a realizar depois de ‘Pequena coreografia do adeus’. Ela conta que a ideia de acompanhar uma vida em várias fases surgiu após a leitura de ‘Aos 7 e aos 40’, de João Carrascoza, livro em que a linguagem funciona “como uma pele que envelhece”. A autora quis experimentar um recurso semelhante em sua própria escrita. “Eu já tinha percebido dentro da minha escrita que eu tenho obsessões com a infância, com o crescimento, com a juventude e com o amadurecimento”, confessa. 

Sobre a ausência de nome da protagonista, revela que imaginou que o nome se revelaria durante a composição, o que não aconteceu. “Eu entendi que ela não ter nome era parte da identidade dela, que dialoga com esse anonimato de uma maneira muito radical, porque tudo que acontece com ela poderia até acontecer com qualquer uma de nós”, reflete. Para Aline, o anonimato amplia a solidão da personagem e torna essa solidão política.

“Era muito importante que pessoas que já tinham uma ideia pré-concebida do que é o exercício da perda para uma mulher, ao invés de entrar no livro com as suas ferramentas intelectuais, ela pudesse deixar isso tudo no chão e, de repente, se ver no corpo dessa mulher. E mudar de opinião, e perceber que não é tão fácil dizer, porque o que acontece com a mulher do pássaro é que o silêncio é a grande violência da vida dela”, disse. 

Além disso, Aline Bei questiona a cobrança social para que mulheres vítimas de violência falem a qualquer custo e defende que a literatura pode propor outra escuta. Segundo a escritora, “não é fácil dizer, porque muitas vezes o coletivo é inóspito”, já que o ato de narrar envolve camadas familiares, sociais e emocionais que nem sempre oferecem apoio ou acolhimento. Nesse sentido, ela explica que a obra não trata a mudez como omissão, mas como experiência compartilhada. “O pássaro propõe esse silêncio como uma experiência coletiva”, afirma Aline, ao defender que, ao ouvir com atenção quem viveu situações de violência (ou ao reconhecer as próprias vivências cotidianas), as pessoas possam “exercitar com mais empatia e alteridade a intelectualidade”.

Aline Bei em entrevista com equipe do Jornal Opção | Foto: Reprodução

A escritora também aborda o intervalo entre terminar uma obra e começar outra. Segundo ela, o processo é marcado por um trânsito suave, mas manchado pelos livros anteriores. “Eu chamo meus três primeiros livros de trilogia, uma trilogia involuntária, porque a priori não era um plano fazer isso, mas eu percebo que todos os meus livros carregam um pouquinho uns dos outros”, explica. Aline diz que não cristaliza descobertas e mantém o movimento. “Meus livros precisam se escutar”, afirma, ressaltando que se preocupa com a construção de uma obra, e não com livros isolados “como se fossem surdos”.

Sobre o momento político e social do Brasil, em que as vivências femininas são constantemente questionadas, Aline defende a importância de um coletivo de escritoras. “Eu me sinto inserida nesse coletivo e me sinto mais fortalecida, inclusive, porque somos muitas e cada vez mais”, diz. Para ela, não basta ler seu trabalho isoladamente: é preciso ler as contemporâneas, ouvir escritoras e artistas para montar “um mosaico de possibilidades do que esse feminino é, foi e pode se tornar”. 

A autora afirma que suas histórias íntimas propõem que certas dores nunca mais aconteçam. “É uma tentativa de começar essa ponte, de alguma forma”, declara.

Ao ser questionada sobre quando percebe que um livro está pronto para ser publicado, Aline responde que é uma questão de escuta. “Um livro vai avisando quando ele está no momento ideal para ser publicado, isso não quer dizer que ele está pronto”, pondera. Segundo ela, quando o texto fica “muito dono de si” e as mudanças passam a ser irrisórias ou até piorar a potência da obra, é hora de encerrar. “Já não há mais nada que o seu gesto possa fazer por aquele trabalho, está na hora de encerrar”, afirma.

Por fim, Aline revela que sua maior referência na literatura é Clarice Lispector. E conta que nunca planejou ser escritora: o desejo de infância era ser atriz. “Eu não sabia que eu desejava ser escritora, não passava pela minha cabeça”, admite. O contato com a escrita veio na faculdade de Letras, quando conheceu pessoas da mesma idade que escreviam. “Isso mudou tudo, porque eu percebi que eu também poderia fazer isso. E aí comecei a fazer e nunca mais parei”.

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Fonte: Jornal Opção

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