Aliados de Flávio Bolsonaro veem reação desordenada e temem rejeição do eleitorado católico
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – A reação do candidato Flávio Bolsonaro (PL) às acusações de que defenderia a cassação do título de Nossa Senhora Aparecida como “padroeira do Brasil” provocou críticas e forte apreensão entre seus próprios aliados. Interlocutores do candidato avaliam que a campanha agiu de forma desordenada, abriu novas frentes de conflito ao tentar conter o caso e ainda não conseguiu estancar o desgaste a menos de uma semana do primeiro turno das eleições, segundo reportagem do jornal O Globo.
O principal erro estratégico apontado por interlocutores foi a acusação direta feita por Flávio de que pessoas ligadas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) teriam ajudado a disseminar a informação falsa. A declaração provocou uma reação imediata da entidade e, para esses aliados, transformou uma crise provocada por um conteúdo falso contra o candidato em um confronto com um braço da Igreja Católica.
A controvérsia ganhou força nas redes sociais na última quinta-feira (24), impulsionada por um debate sobre um projeto de lei arquivado há quase 20 anos que tinha o objetivo de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do país. As críticas de aliados de Flávio miram a estratégia adotada desde o início, apontando falta de coordenação: em apenas quatro dias, Flávio gravou vídeos, acionou a Justiça, mobilizou religiosos, envolveu a CNBB e depois mudou o tom.
Disputa judicial entre TSE e STF
A ofensiva judicial promovida pela campanha levou a controvérsia ao Supremo Tribunal Federal (STF). Na sexta-feira (25), o jurídico do candidato acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para pedir a remoção de publicações que faziam a associação. O ministro André Mendonça acolheu o pedido e determinou a indisponibilização dos conteúdos. A ordem alcançou 1.170 links indicados nas petições e anexos do processo, desde que reproduzissem o conteúdo delimitado pelo magistrado.
Entre as publicações atingidas estava uma do humorista Antonio Tabet que, sem citar Flávio nominalmente, publicou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e escreveu que a “família miliciana” havia decidido atacar a santa. Tabet recorreu ao STF, e o ministro Flávio Dino suspendeu no domingo (27) os efeitos da decisão de Mendonça sobre a publicação. Na segunda-feira (28), Dino remeteu a controvérsia ao plenário da Corte, enquanto o jurídico de Flávio apresentou novo recurso para tentar reverter a decisão, fazendo com que a tentativa de combater a informação falsa passasse a produzir uma disputa judicial entre decisões do TSE e do Supremo.
Transmissões, acusações e nota da CNBB
Em paralelo às medidas jurídicas, a campanha mobilizou religiosos. No sábado (26), o canal de Flávio no YouTube promoveu uma transmissão ao vivo com padres e representantes de outras religiões para rebater o conteúdo, contando com a participação do padre Salathiel de Souza, da Diocese de Jundiaí (SP), e do Padre Kelmon.
No domingo, o caso ganhou nova dimensão durante agenda em Goiânia, quando Flávio acusou publicamente membros da CNBB de terem contribuído para espalhar a informação falsa:
“O PT já estava há alguns dias tentando levantar essa fake news e conseguiu, com a ajuda de gente dentro da CNBB, infelizmente. Rapidamente se reverteu, porque a verdade está do nosso lado”, afirmou Flávio.
A CNBB reagiu horas depois. Em nota oficial, a entidade negou categoricamente ter produzido, autorizado ou participado da disseminação de informações falsas e cobrou provas da acusação:
“Atribuir à CNBB participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação, sem fatos e provas que sustentem tal afirmação, atinge injustamente a instituição e não contribui para a serenidade e a responsabilidade que devem caracterizar o processo eleitoral. A mentira não se combate com outra mentira”, afirmou a instituição.
Flávio não pretende pedir desculpas nem retirar a declaração. Auxiliares sustentam que há integrantes da CNBB com posições próximas ao PT e que a fala não exige retratação, embora reconheçam que não interessa transformar o caso em uma disputa mais ampla com a Igreja Católica às vésperas da eleição.
Mudança de tom e busca por contenção de danos
Na tarde de segunda-feira, em São Paulo, o candidato adotou outro tom. Evitou reiterar a acusação, agradeceu a manifestação da CNBB e apresentou a nota como uma confirmação de que a instituição não participou da disseminação do boato. A orientação passou a ser evitar novos embates e insistir que Flávio nunca defendeu qualquer medida contra Nossa Senhora Aparecida:
“Estava esperando a nota da CNBB e saiu hoje. Foi muito boa a nota dela, esclarecedora, porque confirma que essa questão de Nossa Senhora Aparecida, ela deixar de ser a padroeira do Brasil, era uma grande mentira, é a maior fake news dessa campanha”, disse o candidato.
Na segunda-feira à noite, Flávio participou do Santo Flow, um programa de entrevistas voltado ao público católico. A agenda ocorreu no momento em que a campanha busca reforçar a interlocução com esse eleitorado, mas ainda é considerada insuficiente por aliados para reverter o desgaste. A cobrança interna é por uma estratégia mais coordenada e voltada diretamente aos católicos, discutindo-se um encontro com padres, a colocação de um religioso como porta-voz de um direito de resposta e o fim de declarações que prolonguem o caso.
Impacto nas pesquisas e decisão sobre o debate
A preocupação com o eleitorado católico ocorre em um momento em que a pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira mostrou o presidente Lula (PT) ampliando numericamente sua vantagem nesse segmento. O presidente passou de 43% para 48% das intenções de voto entre os católicos, enquanto Flávio oscilou de 27% para 29%, considerando a margem de erro de três pontos percentuais. Segundo o Censo mais recente, 100,2 milhões de brasileiros se declaram católicos, o equivalente a 56,7% da população do país.
O receio da equipe de Flávio é que a crise interrompa uma sequência de semanas em que a campanha considerava ter colocado Lula na defensiva, sobretudo com a exploração das revelações envolvendo o STF, o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro. Na reta final, Flávio também intensificou os apelos pelo voto útil para tentar atrair indecisos e eleitores de outros candidatos de direita.
A repercussão do caso também entrou no cálculo sobre o debate da TV Globo. Flávio decidiu participar do confronto na quinta-feira (1º) mesmo que Lula não compareça — até a semana passada, ele condicionava sua presença à participação do presidente. A possibilidade de responder diretamente ao caso se for provocado pelos adversários foi um dos fatores determinantes para a mudança de postura.
Fonte: Brasil 247