Afuá, a cidade das bicicletas. Crônicas de Viagem XVIII
Por Cidade das Letras: literatura e educação — Brasil de Fato
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A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga, doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.
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Por Luciano Mendes de Faria Filho
Quem anda passando por esta coluna nas últimas semanas deve ter lido minha crônica anterior sobre as dores e as delícias para chegar a Afuá, a cidade das bicicletas. Saindo de Macapá às 2:50 da manhã, amanhecemos em Afuá, uma cidade (quase) em tudo surpreendente para quem vem da fumaça e do concreto em que estamos metidos cotidianamente (ainda que o Recife tenha os dois rios que desaguam na cidade para formar o Atlântico!).
Eu, confesso de pés juntos, que nunca ouvira falar da cidade de Afuá, no Pará, ainda que uma simples busca pela internet nos dê um montão de notícias sobre a cidade. Mas cheguei virgem de conhecimento sobre o sítio. Porque ninguém é de ferro, cheguei cedinho e fui tomar um café e comer uma tapioca no carrinho de uma simpática moça, bem na primeira pracinha que encontrei. Depois, perambular eu fui.
Como eu deveria saber, mas não sabia, na cidade é proibida a circulação de veículos automotores, mesmo aqueles tocados por energia elétrica. Então, ali, só bicicleta: bombeiros, táxis, carrinhos de compras e tudo o mais, só na pedalada. Um montão de mercadorias que chega no porto: bicicleta ou carrinho de mão. Bois esquartejados para os açougues: carinho de mão. Para isto a cidade conta, segundo informações, com uma frota de mais de 20 mil bicicletas, numa proporção de uma veículo para cada habitante do perímetro urbano.
O fato de a cidade ser toda ela organizada para as bicicletas dá uma organização muito especial e sui-generis para o tecido urbano. São quilômetros e quilômetros de ruas estreitas, nada mais do que um dos becos das grandes cidades brasileiras, divididas em duas pistas para o ir e vir dos camelos (me lembrei que, em alguns lugares em Minas Gerais, as pessoas se referem às suas bicicletas como camelos).
Dentre as inúmeras vantagens disso, diriam as pessoas mais debochadas, é que, a cidade prescinde de academia para exercícios físicos!
Brincadeiras à parte, postado na rua principal, naturalmente aquela que costeia o rio, você observa o ir e vir de toda a gente e de todas as bicicletas. É de fazer inveja a qualquer um destes “grupos de bikes” que existem Brasil afora. E, do mesmo modo, a gente observa dezenas de pequenas ruelas, parecendo pequenas artérias, que saem para todos os lados. Uma maravilha de se ver, ainda mais quando a gente está com tempo e sob a inspiração dos espíritos das águas e das matas.
Mas, lembrando de Ítalo Calvino e suas As cidades Invisíveis, não contei tudo ainda sobre Afuá. Tanto quanto saber que Afuá é a cidade das bicicletas, é necessário que a pessoa saiba que é, também, uma cidade sobre as águas. Afuá é, toda ela, como uma grande palafita construída sobre as águas do rio. É uma cidade onde as casas têm pernas e que, entre as ruas e as casas, há sempre uma ponte, quase sempre de madeira, mas as vi de cimento também. Fosse contadas todas estas pontezinhas que ligam as casas às ruas, e vice-versa, certamente Afuá seria a cidade com o maior número de pontes no Brasil e, quiçá, do mundo!
Madeira muita; água em abundância; rios por toda parte. E, é claro, também os barcos que representam, nas águas, aquilo que as bicicletas representam em “terra”: o meio de locomoção mais antigo e natural. Com a diferença, marcante, que os barcos, sobretudo as pequenas voadeiras, fazem um barulho tremendo quando passam, surpreendendo o silêncio que reina por toda parte.
Mas, mesmo com isto, é sempre bom ver a presença do SUS por todo o Brasil; e ali, bem às margens do rio, ele se materializa nas ambulâncias aquáticas para a assistência a população da cidade.
Depois de passear, de me perder pelas ruelas e andar de bicitaxi – claro que eu não iria perder a oportunidade -, observar os nativos jogando uma animada partida de sinuca e tomar uma cerveja gelada, estava na hora de voltar, pois neste particular, é também a maré que manda: 12 horas depois da partida de Macapá, ela nos autorizava a partir de Afuá. E lá fomos nós – porque já agora eu estava acompanhado – para a lancha, meio mais rápido do que o navio, de navegar pelas águas do Amazonas de volta à capital do Amapá.
As minhas companhias de volta: duas amabilíssimas Anas, irmãs gêmeas, que, partindo de carro de Natal, aportaram em Belém e lá deixaram seus veículos para, de navio, chegar a Macapá e, de lá, para Afuá. Ao contrário de mim, além de tomarem o navio em Belém, compraram redes. Se bem que, conforme me contaram, somente ficaram sabendo que precisariam de redes depois de entrarem no navio, em Belém. Por sorte, estava cedo e puderem descer, comprar os equipamentos “náuticos” e voltar a tempo de embarcar.
Viajantes animadas que são, me contaram, depois, os périplos da viagem de volta para Belém e, de lá, de volta para casa, passando pelo interior do Pará, do Maranhão e do Ceará. Tudo de carro! Me fizeram lembrar, saudoso, a minha viagem com o Tarcísio Mauro e Valter Bracht pela Chapada Diamantina. Aproveitei e contei para elas do nosso encontro com a Dona Adelina e da maravilha que é o encontro do Jequitinhonha com o mar, lá em Belmonte, na Bahia.
Em menos de 24 horas, havia conhecido um outro mundo, um Brasil tão pouco comum e tão diverso para a gente como nossas grandes cidades são pouco naturais e diversas para quem não vive nelas.
E nesses encontros e assombramentos mútuos vamos nos conhecendo e, quem sabe, nos integrando tanto quanto seja possível, sobretudo em nossas utopias de uma terra sem males, abençoada pelos espíritos das águas e das florestas. No final da tarde chegamos a Macapá. Me despedi das Anas e corri para “casa”, para os braços de minha amada que, chegando do Recife, tornou as viagens muito mais interessantes.
Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal
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Fonte: Brasil de Fato