Adolescente conversava há dois meses com homem no Discord antes de desaparecer; “família não sabia”, diz delegada

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Por Cilas GontijoJornal Opção

Adolescente conversava há dois meses com homem no Discord antes de desaparecer; “família não sabia”, diz delegada

Após três dias de angústia, a família de Ana Clara, de 13 anos, que desapareceu após manter contato com um homem de 19 anos pelo aplicativo Discord, recebeu a notícia de que a adolescente havia sido localizada. O caso ganhou repercussão depois que a jovem deixou uma carta de despedida para a irmã. A partir do desaparecimento, a Polícia Civil iniciou uma série de diligências para localizar a adolescente e identificar a pessoa com quem ela mantinha contato.

As investigações apontaram que Ana Clara e o jovem conversavam havia cerca de dois meses. Por meio de diligências internas, externas e de inteligência policial, os investigadores conseguiram identificar o suspeito, além de descobrir onde ele morava e trabalhava. Segundo a Polícia Civil, após ser localizado e preso, o jovem inicialmente negou saber onde a adolescente estava, mas posteriormente indicou o endereço onde ela poderia ser encontrada.

Em entrevista exclusiva ao repórter Cilas Gontijo, do Jornal Opção, a delegada Aline Lopes detalhou como a investigação chegou ao suspeito, falou sobre a relação mantida entre ele e a adolescente pela internet e explicou os próximos passos do caso.

A delegada também fez um alerta aos pais sobre o uso de celulares, aplicativos e redes sociais por crianças e adolescentes. Segundo ela, o caso chama atenção para a necessidade de os responsáveis conhecerem os aplicativos utilizados pelos filhos e acompanharem com quem eles mantêm contato no ambiente virtual.

Cilas Gontijo: Delegada, como vocês chegaram até esse rapaz?

Aline Lopes: No início, foram várias informações que estavam circulando, tudo muito aleatório na internet. Hoje, cada pessoa fala uma coisa. Então, a gente estava trabalhando com o que a família tinha nos apresentado de uma maneira muito silenciosa, para realmente não atrapalhar.

Fizemos diversas diligências, tanto internas como externas, diligências de inteligência policial que não podem ser detalhadas, porque isso prejudica o trabalho da polícia. Mas foi através dessas diligências que nós conseguimos identificar essa pessoa com quem ela vinha conversando no Discord, identificar quem era ele e o local onde ele estava, onde ele morava e onde ele trabalhava.

Após chegar até ele, localizarmos e prendê-lo, foi possível que ele identificasse o local onde a Ana Clara estava. No princípio, ele tentou negar, fingiu que não sabia de nada, mas, quando percebeu que nós sabíamos do que estávamos falando, ele apontou. Ele não ofereceu nenhum tipo de resistência e apontou o local onde ela estava.

Cilas Gontijo: A senhora falou que, cerca de uma hora antes da prisão, ele tinha ido para esse local. Onde eles estavam antes? Ele falou?

Aline Lopes: Segundo ele, estava procurando uma casa para alugar. Então, a gente não sabe, por exemplo, se ela estava junto com ele, porque, como o caso se tornou muito conhecido, se ela estivesse circulando ali com ele, provavelmente alguém teria reconhecido.

O que a gente acredita até agora é que ela estava no antigo imóvel onde ele morava, no bairro Encanto Sol. Hoje, ele saiu para alugar outra casa, conseguiu, desocupou essa outra casa, levou ela para esse barracão enquanto ele terminava o dia de serviço e, após o término do trabalho, ele a buscaria e então iriam para a casa que ele havia alugado.

Ele, inclusive, informou no trabalho que chegaria atrasado porque estava procurando uma casa para alugar.

Cilas Gontijo: Ele era de Anápolis?

Aline Lopes: Ele morava aqui em Anápolis. É natural de Vianópolis, mas já morava em Anápolis há algum tempo.

Cilas Gontijo: Ele trabalhava normalmente? Tem antecedentes criminais?

Aline Lopes: Nenhum tipo de antecedente. Trabalhava, fazia diárias, todo tipo de serviço de serralheiro, garçom, todo tipo de serviço, segundo ele. Hoje, ele estava fazendo uma diária de serralheiro.

Cilas Gontijo: Já havia muito tempo que eles vinham conversando?

Aline Lopes: Cerca de dois meses.

Cilas Gontijo: A senhora falou também que eles não se conheceram diretamente pelo aplicativo e que ele teria sido apresentado por amigos em comum. O que se sabe sobre isso?

Aline Lopes: Isso é uma informação que a gente ainda precisa confirmar, porque, a princípio, eles teriam se conhecido, o contato deles foi todo no Discord, a aproximação deles, o desenvolvimento desse “relacionamento”, entre aspas, foi no Discord. Mas surgiu uma informação de que ele teria sido apresentado a ela por uma amiga dela. Então, a gente ainda precisa confirmar isso.

Cilas Gontijo: Sobre a adolescente, a senhora conversou com a família sobre alguma situação de vulnerabilidade? Como era a convivência dela com a família? Havia algum motivo para ela querer sair de casa?

Aline Lopes: A família, claro, conta alguns episódios próprios da adolescência. A adolescência é uma fase difícil, em que há muito inconformismo, há aquela arrogância própria da adolescência, os pais tentam estabelecer limites, mas não foi reportado por ninguém da família e não teve nenhum incidente que motivasse ela a fugir de casa.

O que nos parece até agora seria realmente um deslumbramento com essa possibilidade de uma vida nova, uma pessoa, um primeiro amor, digamos assim, que a iludiu e a convenceu a abandonar a família, a sua casa, para viver uma aventura.

Cilas Gontijo: Ela comentou se sofreu algum tipo de violência?

Aline Lopes:Não. A violência, nesse caso, é presumida devido à idade, mas violência propriamente dita, não.

Cilas Gontijo: O que vai acontecer agora com esse rapaz?

Aline Lopes: Ele foi autuado em flagrante pelos crimes de estupro de vulnerável e cárcere privado, vai ser recolhido ao presídio e vai responder por esses crimes, provavelmente preso.

Cilas Gontijo: A senhora comentou que os pais não sabiam mexer no celular da menina e não tinham as senhas. Que orientação a senhora daria aos pais diante desse caso?

Aline Lopes: O quanto os pais puderem adiar entregar um celular na mão dos filhos é o mais indicado. Mas, se decidir entregar, pelo menos saiba mexer nesse aparelho, saiba quais os aplicativos que o filho quer baixar, pesquise antes de autorizar que o filho baixe determinado aplicativo, pesquise sobre ele.

O Discord não é um aplicativo que crianças e adolescentes devem usar. Ele foi criado com o objetivo de ser usado por gamers, por quem joga, mas hoje ele é utilizado para outra coisa. Então, não é um aplicativo que um adolescente tem que ter, muito menos de maneira desvigada. Se a menina vinha mantendo conversas privadas, ela trancava as conversas, nem se o pai mexesse ele ia achar.

Então, eu não digo isso para julgar essa família específica, não é isso, mas para que sirva de alerta. Os pais têm que ter a senha do celular dos filhos, eles têm que ter a senha dos aplicativos deles. Não indico criança ou adolescente ter rede social, porque isso abre um portal, você está expondo o seu filho para todo tipo de criminoso.

Então, até para a polícia trabalhar e ajudar nesse caso é difícil. A família não tinha senha de nada, não sabia nem que ela tinha Discord. Então, realmente é uma situação preocupante, que sirva de alerta para todos os pais, para que vigiem o celular dos seus filhos ou evitem fornecer um.

Foi um caso que teve um final feliz, mas, infelizmente, tem muitos que não são um final feliz. Infelizmente, quantos casos a gente vê de desaparecimento que às vezes não são solucionados e, cada vez mais, crimes sexuais na internet vitimando adolescentes, praticados também por adolescentes.

Isso me preocupa bastante porque, muitas vezes, os pais se preocupam só em evitar que o seu filho seja vítima. Mas o fenômeno que tem acontecido é que os adolescentes estão se tornando autores. Existe um fenômeno chamado dessensibilização. Os adolescentes estão perdendo a compaixão, eles não têm sensibilidade para as situações naturais do dia.

Então, uma situação violenta, ele é exposto constantemente a conteúdo violento, pornográfico, ele vai perdendo a noção de que aquilo ali é errado e vai se tornando cada vez mais apático em relação a isso. Ele não gera nenhum tipo de revolta, aquilo ali para ele é normal. Então, disso para ele começar a praticar crimes, já que aquilo ali para ele não é errado, é um pulo.

Cilas Gontijo: E tudo começa dentro de casa. Os pais precisam estar mais atentos?

Aline Lopes: Com certeza. Eu acho que, para essa família, foi um trauma muito grande, mas que sirva de alerta para todos nós, para que nós estejamos mais atentos, mais vigilantes, mas que a gente também reforce os laços com os nossos filhos.

Porque é muito triste você descobrir o seu filho numa situação dessa e descobrir que você não fazia ideia do que ele estava passando. Então, realmente, a gente tem que se aproximar mais dos filhos, estar mais atento, mais vigilante, para evitar que esse tipo de coisa aconteça.

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Fonte: Jornal Opção

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