ActionAid: fim da escala 6×1 é conquista histórica para a justiça econômica, racial e de gênero
Por Leonardo Sobreira — Brasil 247
247 – A ActionAid Brasil celebrou a aprovação, pelo Senado no dia 14 de outubro, da proposta que prevê o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de trabalho sem perdas salariais. Para a organização, a decisão representa um marco na garantia do direito ao descanso e à dignidade. A medida impacta, sobretudo, as mulheres negras, historicamente sobrecarregadas pela exaustiva combinação entre o emprego remunerado e as responsabilidades domésticas e de cuidado.
“A redução da jornada semanal de trabalho é uma das maiores expressões de justiça econômica no Brasil. Essa conquista tem especial importância para as mulheres negras, que historicamente desempenham jornadas exaustivas e são privadas do acesso a direitos constitucionais, como cultura, educação, lazer e esporte”, afirma Maryellen Crisóstomo, especialista em Justiça Econômica e Direitos das Mulheres na ActionAid Brasil.
A organização ressaltou que o tempo para descanso, estudo, autocuidado e participação política é distribuído de forma profundamente desigual no Brasil. O racismo e a desigualdade de gênero não apenas restringem as oportunidades dessas mulheres, mas também perpetuam a desvalorização do seu trabalho — seja no mercado formal, seja nas atividades invisíveis de cuidado que sustentam famílias e comunidades inteiras.
Neste cenário, a mudança também abre caminho para o reconhecimento e a redistribuição do trabalho de cuidado, exigindo responsabilidades compartilhadas entre Estado, empresas, comunidades, homens e mulheres. Iniciativas públicas — como a ampliação de creches, a garantia de educação integral e o apoio a idosos e pessoas com deficiência — tornam-se fundamentais para aliviar a sobrecarga feminina e fortalecer a autonomia das trabalhadoras.
“A redução da jornada de trabalho é uma grande oportunidade para a implementação da Política Nacional de Cuidados, envolvendo, de forma conjunta, todos os setores da sociedade”, destaca Maryellen.
Para a ActionAid, a aprovação reflete a força da mobilização popular por uma economia que priorize a vida e a dignidade. O próximo desafio é garantir a efetivação desse avanço, protegendo salários e direitos trabalhistas, sempre com a participação ativa daqueles que enfrentam as rotinas mais precárias de trabalho.
“Esse é o reflexo da força da sociedade civil organizada em prol da garantia de direitos sociais. Contudo, devemos seguir vigilantes para assegurar a efetivação da medida em todos os setores da economia, porque ela altera a dinâmica de uma estrutura que se sustentou na exploração da mão de obra da maioria da população brasileira, principalmente de pessoas negras”, conclui a especialista.
Fonte: Brasil 247