A vitória do Die Linke em Berlin e o avanço da extrema direita aprofundam a crise do governo de Merz

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Por Redação InternacionalEsquerda Diário

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A eleição dupla em Berlin e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental sacudiu de maneira drástica o mapa político alemão. Os resultados mostram um país polarizado e um governo central sem apoio.

A crise do governo central alemão liderado por Friedrich Merz se aprofunda, abrindo um cenário de instabilidade política e institucional na principal potência europeia, logo após os resultados deste domingo em Berlim, onde o Partido de Esquerda (Die Linke) venceu, e na região de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde a extrema direita da Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu novamente e a CDU, a direita social-cristã de Merz, ficou fora do parlamento regional ao alcançar menos de 5% dos votos.

Na capital alemã, Berlim, o Die Linke (A Esquerda, em alemão) alcançou um triunfo histórico ao ser convertida na força mais votada com 25,8% dos votos. A candidata do Die Linke, Elif Eralp, superou claramente o candidato governista da direitista União Democrata Cristã (CDU), Stefan Evers, que ficou em segundo lugar com 18,8%.

Após as eleições estaduais na Saxônia-Anhalt, onde a AfD obteve uma maioria quase absoluta com 43,8% dos votos, o resultado eleitoral em Berlim reflete a outra face da polarização política neste país: muitos consideram que votar pelo Partido de Esquerda (Die Linke) era um voto contra a direita, tanto contra a AfD como contra a CDU. Por consequência, a vitória do Partido de Esquerda foi muito mais contundente do que o previsto nas pesquisas. O partido social-democrata (SPD) e Os Verdes também tentaram capitalizar este sentimento na reta final, ainda que com menor êxito (14,4% os verdes e 12% o SPD).

Entretanto, isso não muda o fato de que a AfD obteve, de longe, seu melhor resultado até o momento na Câmara de Representantes de Berlim com 16% e existem fortes indícios de que a AfD obteve resultados superiores a 20% em alguns dos distritos periféricos.

Por sua vez, em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a extrema direita da AfD se impôs como primeira força com 37,9%-28,0% dos votos segundo as estimativas iniciais, o que representa um crescimento de 21,3% em relação às eleições de 2021, com o SPD, liderado pela Ministra-Presidente Manuela Schwesig caindo em segundo lugar com 37,5%-36,5%, colocando uma grande incógnita na definição do futuro governo da região. A grande derrota da jornada foi a governista CDU do candidato Daniel Peters, que sofreu um colapso de menos de 5% (perdendo mais de 8% em comparação com 2021), perdendo representação parlamentar regional, enquanto que o Die Linke caiu para 6,5% (comparado com os quase 10 pontos em 2021).

Germany, Forschungsgruppe Wahlen projection:

Others: 3.4%

Mecklenburg-Vorpommern regional election

AfD (ESN): 38.2% (+21.5)
SPD (S&D): 35.5% (-4.1)
LINKE (LEFT): 6.5% (-3.4)
GRÜNE (Greens/EFA): 5.7% (-0.6)
CDU (EPP): 4.9% (-8.4)
BSW (NI): 4.8% (+4.8)
FDP (RE): 1.0% (-4.8)

+/-… pic.twitter.com/cN5BORZ2tP

— Europe Elects (@EuropeElects) September 20, 2026

De conjunto, a soma dos partidos tradicionais que formam a coalizão do governo (CDU e SPD) perderam 14,8% em Berlim e 12,2% em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

A eleição em Berlin e a vitória do Die Linke: Uma alternativa ou uma nova conciliação com os que aplicam o ajuste?

O triunfo do Die Linke em Berlim, liderado pela candidata Elif Eralp, se apoiou em um voto de rechaço massivo contra a extrema direita da AfD e a gestão ajustadora da CDU. A campanha da esquerda institucional se conectou com o descontentamento popular ao se centrar na crise habitacional, prometendo teto para os aluguéis e a expropriação dos grandes consórcios imobiliários.

O Die Linke não só levou a cabo uma campanha contra a AfD, como também, com sua campanha por uma “metrópole vermelha” (em alusão à vitória eleitoral do prefeito de Nova York, Zoran Mamdani, no final do ano passado), prometeu advogar por aluguéis mais baixos, a expropriação de empresas imobiliárias, um transporte público mais acessível e cozinhas comunitárias. Dadas as medidas de austeridade cada vez mais estritas do governo federal, destinadas a financiar o histórico programa de rearmamento, esta alternativa pareceu atrativa para muitos. A vitória do Die Linke foi muito além do que foi previsto pelas pesquisas.

Contudo, a cúpula do Die Linke já está orientada a negociar para formar um governo de coalizão com o SPD e Os Verdes (coalizão chamada Vermelho, Vermelho, Verde). O SPD e Os Verdes são os pilares do rearmamento imperialista, da militarização e dos cortes orçamentários do governo federal. Para facilitar o entendimento com estas forças, a candidatura de Eralp retirou do seu plano de cinco pontos a expropriação dos consórcios imobiliários como Deutsche Wohnen & Co e interveio contra grupos solidários à Palestina por submeter-se à “razão de Estado”.A experiência histórica demonstra que as gestões anteriores de coalizões como a que propõe com o SPD e Os Verdes em Berlin terminaram aplicando cortes e ajustes, impulsionaram privatizações e traíram os mandatos populares.

O Partido de Esquerda não pode apoiar a greve estudantil contra o serviço militar obrigatório e, ao mesmo tempo, assumir as consequências financeiras do rearmamento militar alemão. Os exemplos dos governos estaduais de Bremen e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental também demonstram isso: em 2025, os ministros do Partido de Esquerda votaram no Bundesrat (Conselho Federal) a favor dos empréstimos do governo federal para o rearmamento em nome de uma maior “inversão”.

O mesmo ocorre na luta contra a AfD: um olhar para Turíngia, onde o Partido de Esquerda ocupou o cargo de Ministro-Presidente até dois anos atrás, mostra que a coalizão Vermelho-Vermelho-Verde não só não conseguiu frear o ascenso da AfD, como também suas políticas governamentais suavizaram o caminho para seu ascenso. Hoje, a AfD obtém nas pesquisas de Turíngia níveis similares aos da Saxônia-Anhalt.

Frente a esta perspectiva, setores críticos e jovens – como a Linksjugend [‘solid], a ala de juventude do Die Linke em Berlin, e também a juventude em Neukölln – afirmam que é necessário se opor a este acordo de coalizão com os verdes e os social-democratas. Também apresentaram candidaturas rebeldes, ainda que com uma posição mais ambígua, como a de Vedi Emde no distrito de Neukölln.

Como afirmam nossos companheiros e companheiras do Klasse Gegen Klasse, parte da rede internacional do Esquerda Diário na Alemanha: “aqueles que se opõem à entrada do Partido de Esquerda em um governo deste tipo devem assegurar que as negociações da coalizão sejam discutidas e votadas exaustivamente em todos os grupos locais e organizações de base do Partido de Esquerda. É necessária uma campanha enérgica para que o maior número possível de membros do Partido de Esquerda vote contra a aceitação do acordo de coalizão na votação interna. Todos os candidatos do Partido de Esquerda eleitos à Câmara de Representantes com uma campanha “rebelde”, como a de Vedi Emde, devem declarar publicamente que votaram contra um governo de conciliação com verdes e social-democratas”.

O que está acontecendo com a extrema direita? O avanço da AfD

O avanço da AfD não se limita a Berlin – onde superou os 20% nos distritos periféricos –, mas sim consolida uma hegemonia reacionária no leste da Alemanha. Após atingir a maioria absoluta na Saxônia-Anhalt com 43,8%, a AfD volta a ganhar em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental com cerca de 38% dos votos, o que levou a sua líder estadual, Alice Weidel, a proclamar que a ultra direita já é a força mais consolidada.

Este crescimento é o produto das políticas de ajuste, militarismo e perseguição contra a imigração implementadas pelos partidos do governo. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, ainda que a campanha do SPD de “voto útil” contra a extrema direita chegou a evitar a maioria absoluta da AfD, o SPD perdeu 47.000 votos que migraram diretamente para a ultra direita. Cinco anos de governo conjunto entre SPD e Die Linke nesse estado não serviram para deter a AfD, pelo contrário, desgastou a própria esquerda institucional (Die Linke caiu para 6,7%) por sua adaptação à gestão do Estado.

O resultado eleitoral deixa Merz encurralado e a crise da coalizão de governo

Os resultados eleitorais representam um novo golpe contra o chanceler Friedrich Merz (CDU). O afogamento da CDU em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e a derrota em Berlim deixam sua liderança bastante debilitada, reabrindo as especulações sobre uma crise no gabinete, uma mudança de chanceler ou o colapso prematuro da coalizão de governo com o SPD. Embora oito ministros da CDU tenham o apoiado publicamente, a fragilidade do Executivo está no seu ápice.

Apesar de qualificar os resultados como um “desastre”, Merz compareceu ante a mídia para ratificar seu plano de ajuste contra a classe trabalhadora sob a consigna: “as reformas têm que chegar”. Seu programa pretende elevar a idade de aposentadoria, flexibilizar a jornada de trabalho e cortar gastos na saúde e prestações sociais, buscando apresentar cinicamente este ajuste como um “antídoto contra o veneno autoritário”.

Respaldado pelo ministro social-democrata Lars Klingbeil, Merz tenta sustentar um governo que opera como um verdadeiro “zumbi político”, encurralado pelo descontentamento das massas golpeadas pela inflação e pela guerra.

Os resultados eleitorais confirmam o avanço da extrema direita, que não pode ser freado com pactos secretos com os partidos do ajuste e da guerra como o SPD ou Os Verdes. A votação expressiva do Die Linke em Berlim reflete a disposição de milhares de trabalhadores e jovens para enfrentar a direita e a extrema direita. No entanto, essa energia não deve ser desperdiçada administrando os cortes e ajustes desde as instituições do Estado.

A tarefa do momento é construir uma oposição combativa por baixo, organizada nos locais de trabalho, escolas e universidades. As próximas jornadas de luta – como a ação nacional do sindicato de metalúrgicos IG Metall no dia 21 de setembro, a greve escolar contra o recrutamento e o serviço militar no dia 25 de setembro e as manifestações contra os cortes sociais no dia 26 de setembro – podem ser o ponto de partida de um movimento nas ruas para frear os ataques de Merz-Klingbeil e derrotar a extrema direita.

Fonte: Esquerda Diário

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