A violência do golpe de Estado chileno contada pela perspectiva dos brasileiros que viviam lá

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Por pedrocamaraoFundação Perseu Abramo

Milhares de brasileiros perseguidos pela Ditadura Militar fugiram clandestinamente ou foram enviados para o Chile após serem presos e torturados pelo então governo brasileiro no final da década de 1960, início de 1970. Os brasileiros enxergavam o Chile como um oásis de esperança. O país era governado pelo médico socialista Salvador Allende.

Enquanto o Brasil vivia sob a repressão e a censura, quem chegava ao Chile se assustava com a liberdade de expressão e a defesa pública dos ideais de esquerda. Mas o alívio não durou muito. Em 11 de setembro de 1973, os militares chilenos, apoiados pelo governo dos Estados Unidos e do Brasil, colocaram em curso um dos mais violentos golpes de Estado ocorridos na América Latina. A história de vários desses brasileiros que viveram esse momento é contada pelo jornalista Paulo de Tarso Riccordi no livro “O exílio brasileiro no Chile de Allende – A intensa fatia de nossas vidas”, recém-lançado pelas Editora Coragem e Editora Fundação Perseu Abramo.

O livro-reportagem reconstrói as trajetórias de dezenas de brasileiros que estavam exilados no Chile e traz os depoimentos de parte deles. Em memória aos 53 anos da eclosão do golpe de Estado que resultou na morte de Salvador Allende, cercado e bombardeado por militares conspiradores, e na prisão, tortura e assassinato de milhares de pessoas, a revista Focus publica uma entrevista com o autor do livro, Paulo de Tarso Riccordi. Confira a íntegra:

Antes de mergulhar na produção do livro, qual a visão que você tinha do Chile do Allende e do período do golpe?

Paulo de Tarso Riccordi – A eleição, em 1970, do presidente Salvador Allende, com uma campanha e posterior formação de um ministério de perfil francamente de esquerda (PC e PS eram os maiores partidos do país), fizeram do Chile a Meca da esquerda mundial. Todos torcíamos pelo primeiro bloco comunista-socialista empossado por decisão das urnas. Acompanhávamos suas vitórias e temíamos o golpe de Estado que se manifestava a cada dia. Foram 1.042 dias em que lia tudo relacionado ao Chile e desejava estar em Santiago – como provavelmente toda esquerda mundial. Nos últimos anos da Unidade Popular, centenas de jovens franceses, italianos, espanhóis, estadunidenses e de toda América Latina foram para lá, numa espécie de “turismo de esquerda”. Um governo socialista pelo voto era uma ideia muito excitante.

O incrível era a ordem explícita do presidente Richard Nixon ao Departamento de Estado, à CIA, sua embaixada e ao governo ditatorial brasileiro para esmagarem o governo da UP, para que seu eventual sucesso não se tornasse um “mau exemplo” para os vizinhos.

O que levou você a querer se aprofundar sobre o tema dos brasileiros que estavam exilados no chile no momento do golpe?

Paulo de Tarso Riccordi – Em 2015, sentados na arquibancada do Estádio Nacional, meu amigo músico Raul Ellwanger me contou uma história, sedutora para qualquer repórter: na noite de 10 de setembro de 1973 ele foi com seu companheiro de apartamento Roberto “Bob” Metzger – exilado político como ele – ao estádio para assistir ao jogo-treino entre a seleção de futebol do Chile e um combinado de equipes do interior gaúcho. Dois dias depois “Bob” voltou lá… como preso político. Caíra na rede imediatamente após o golpe. Não é uma baita pauta jornalística?!

O “gancho” estava pronto. Já no dia seguinte mergulhamos na coleção de jornais da Biblioteca Pública de Santiago para pesquisar nos jornais daquela época.

Ao retornarmos a Porto Alegre, fiz as primeiras entrevistas com ex-exilados no Chile: o próprio Raul, Carlos Beust, Dirceu Messias, sua ex-esposa, a chilena María Isabel Ibarra Toro e o escritor e diretor de cinema, Tabajara Ruas.

Meu desafio era escrever algo novo sobre acontecimentos conhecidíssimos e, mesmo assim, conquistar a atenção do leitor.

Inicialmente pensei contar como um thriller – no ritmo e na forma – como exilados brasileiros viveram o dia 11 de setembro no Chile, tendo o golpe no Brasil pelas costas e a incerteza do dia seguinte. Seu susto, os temores, as estratégias de fuga, as prisões, novamente o terror. Muitos, se fossem presos, seriam devolvidos à ditadura brasileira e, certamente, mortos. Obviamente que para contar o dia 11 de setembro precisei recuar no tempo para explicar ao hipotético leitor quem eram esses personagens e por que estavam no Chile naquele dia.

Como jornalista e como militante de esquerda, ao longo da vida tive tempo de conhecer em todo país mais de uma centena de ex-exilados e presos políticos. Em 2015 aí estavam minhas fontes e personagens do livro.

Em onze anos, 73 concordaram em ser entrevistados por mim. Também recolhi depoimentos de outros, cerca de 20, prestados à Comissão Nacional da Verdade e a algumas das comissões estaduais. Li entrevistas prestadas para dissertações e teses universitárias, reportagens em jornais e revistas, artigos e livros de memórias de ex-exilados, assisti dezenas de documentários e reportagens de TV chilenos, filmados e escondidos da ditadura por ciosos cinegrafistas.

Desde a primeira linha, idealizei como público jovens de 25 anos, que era a idade média da maioria dos exilados do período do governo Allende. Eu precisava ao mesmo tempo contar, situar e explicar para alguém com pouco conhecimento sobre esse fato. O objetivo foi dizer: olha, isso aconteceu com quem podia ser teu colega, amigos teus, contigo mesmo, não com “personas” da História. Isso podia ter sido com a sua turma, se tivessem vivido nos anos 1970.

Com o tempo, reuni um acervo muitas vezes maior do que poderia publicar. Então precisei categorizar o que publicaria. Descartei analisar o governo da Unidade Popular, contar seus conflitos e ameaças, sobejamente estudado. Fiz esse recorte: contar a filhos e netos como viveram os brasileiros que, entre 1964 e 1974, escolheram o Chile como sua casa e os chilenos como sua família. Mostrar seu cotidiano.

Escolhi o formato livro-reportagem e organizei sincronicamente as narrativas, ao invés de publicar uma coletânea desarticulada de entrevistas dos protagonistas ou mesmo adotar o formato de um livro histórico.

Preferi a grande reportagem. Sua técnica é muito boa para a apresentação dos fatos.

Nunca alguém consegue ver todo um fato, ou percebê-lo completamente. Cada narrador fala a partir de onde e como o viveu.

Mas quanto mais protagonistas falarem desde seu lugar sobre o mesmo acontecimento, essa multiplicidade de visões mais nos aproximará do acontecido, como num mural de pedaços de azulejos. E, formalmente, organizar sincronicamente muitas vozes proporciona um ótimo ritmo narrativo.

Você, como jornalista, também acompanhou de perto a repressão e a censura da ditadura militar brasileira. Estava no Rio Grande do Sul, onde havia muita repressão. O que você tem a dizer sobre esse período, como alguém que viveu a repressão, como cidadão, e a censura, como profissional da imprensa?

Paulo de Tarso Riccordi – Toda a censura é um crime contra os cidadãos. Mas a censura se exerce mais pelo silenciamento do que pelo corte de notícias. Em grande parte dos veículos de comunicação, a censura se expressa com mais efetividade através do veto dos patrões a assuntos e a pessoas do que os cortes dos censores, estrito senso. Na ditadura podíamos escrever tudo o que os patrões não proibissem… E seus interesses sempre são mais amplos que os dos milicos.

Nos anos 1970, eu trabalhava na Folha da Manhã, jornal da Companhia Jornalística Caldas Júnior, propriedade de Breno Caldas, à época a quinta pessoa mais rica do país, amigo íntimo dos ditadores, que o visitavam em sua fazenda.

Minha noiva, também jornalista, e eu ajustamos a data de nosso casamento para setembro de 1973 para aproximarmos nossa lua de mel da eleição presidencial na Argentina e nos candidatarmos a ir a Buenos Aires fazer a cobertura. A resposta foi direta: o Dr. Breno se opõe ao Perón e não haverá cobertura. Só a notícia seca, pela curta reprodução de “telegramas” de agência de notícias.

Tentamos então a variante Chile, pois desde o início do ano eram insistentes os boatos sobre a iminência de um golpe de Estado contra Allende. Também foi recusada. Aqui nunca saiu nenhuma matéria sobre os exilados brasileiros, tratados como “terroristas” nas notícias distribuídas pela própria polícia política.

Você conheceu ou conhecia pessoas que viviam na clandestinidade e que acabaram fugindo para o Chile, especificamente?

Paulo de Tarso Riccordi – À época, nenhum que eu conhecesse pessoalmente. As amizades – dezenas – e camaradagem política se criaram depois de seu retorno ao Brasil, após a Anistia.

Foi difícil do ponto de vista emocional fazer as entrevistas? Tanto para você ouvindo as histórias, quanto para os entrevistados tendo que lembrar o que passaram?

Paulo de Tarso Riccordi – Dramático sempre é, e será, falar sobre a tortura. Ela passa da “técnica” de extração de informações para chegar à expressão do sadismo; do exercício da dominação e busca da quebra da personalidade; ao uso do corpo de presos e presas como satisfação do militar/policial; a manifestação do Mal para si próprio. Sadismo é a palavra. E nisso está um ponto que sempre se quer evitar: o estupro. Principalmente o tabu do estupro masculino.

Alguma das histórias te causou mais impacto?

Paulo de Tarso Riccordi – Muito terríveis são os relatos da tortura de militantes mulheres muito jovens na Base de Fuzileiros Navais da Ilha das Flores, em São Gonçalo. A Comissão Nacional da Verdade registra que cerca de duzentas pessoas foram torturadas lá. A duração, as “técnicas” e os locais são aterradores e revoltantes. E ainda a “casa da morte” de Teresópolis, no Rio de Janeiro, criada exclusivamente para fazer desaparecerem os corpos de presos.

É vergonhoso que esses crimes tenham sido cometidos por agentes públicos pagos pelos cidadãos, servidores do Estado, militares em sua maioria, realizados em quartéis e delegacias de polícia, por dentro da hierarquia.

As prisões, torturas, mortes e desaparecimentos foram executados com conhecimento e ordem do mais alto escalão do Estado. Por isso é correto que sejam enquadrados como crimes imprescritíveis, imperdoáveis e não anistiáveis.

Teve histórias que você precisou deixar fora do livro? Pode mencionar algumas, se for o caso?

Paulo de Tarso Riccordi – Os originais chegaram a 1.052 páginas, das 510 publicadas. Mas o não publicado não afetou muito, porque está dito por outras vozes. Na Folha da Manhã aprendi a “pentear a matéria”, a “cortar por dentro”, isto é, reduzir o número de palavras de cada frase, preservando a informação. Sempre é possível reduzir uns 30% do todo apenas dessa forma. Depois, se três, quatro fontes contam o mesmo fato, de locais e pontos de vista diferentes, o redator sintetiza, abandonando as citações. Dá para cortar mais um tanto de palavras. Mas, embora conservando informações e dados, é muito doloroso cortar falas em primeira pessoa. Se perde muito da luz e cor narrativa.

Qual é a sua visão sobre a violência dos militares chilenos? O que você acha que gerou tanta violência?

Paulo de Tarso Riccordi – A explicação mais recorrente é que os militares (e a CIA) presumiam que os partidos da Unidade Popular tinham mais armas e mais gente treinada para guerra do que faziam questão de dizer. Os militares se prepararam para enfrentar uma resistência ativa muito maior. E, além disso, estavam determinados a matar Allende e seus ministros, os líderes e os comandos intermediários dos partidos de esquerda. Uma “higienização” política completa.

Agora, fazendo um paralelo com a atualidade, é no mínimo curioso que o nome do movimento fascista chileno “Patria Y Libertad” seja tão parecido com o lema bolsonarista “Pátria, família e liberdade”. O que você acha dessa semelhança?

Paulo de Tarso Riccordi – Todos os golpes se assemelham, desde sua preparação: infiltração de agentes em todos os níveis do Estado e das organizações políticas; a organização de milícias civis (em 1964 era o CCC – Comando de Caça Comunista) financiadas por empresários; disseminação de falsas notícias pelos meios de comunicação para fortalecer sentimentos antigoverno, criando base de apoio golpista; cooptação do Congresso Nacional; financiamento da oposição; sabotagem ao fornecimento de alimentos e medicamentos, ou fazer a economia “gemer” para o povo apoiar o golpe e pedir o golpe; envolver a ala direitista das igrejas (Marcha da Família com Deus pela Liberdade). A “greve” empresarial dos caminhoneiros no final do governo de Bolsonaro me assustou muito, por reconhecer o método.

Outro paralelo é a ação dos Estados Unidos. Atuaram para impor todas as ditaduras na América do Sul, caçaram a esquerda e agora, fazem o mesmo utilizando ferramentas de distorção da realidade no regime democrático. É um exemplo de que a história está apenas se repetindo, mas com visuais diferentes?

Paulo de Tarso Riccordi – A única diferença é que agora valem-se também da forte rede neopentecostal.

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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