Por Washington Araújo — Brasil 247

Uma sociedade começa a entregar o futuro quando transforma o medo em argumento para a inação. No Brasil, a sucessão de crises, ameaças e mentiras produz esse efeito: gente capaz deixa de propor, comunidades reduzem o horizonte ao próximo susto, e o país passa a tratar a própria impotência como prudência. Esse recuo tem efeito político: reduz o número de pessoas dispostas a organizar uma resposta, cobrar instituições e defender as condições que tornam possível a vida comum.

Voltar ao passado é necessário para localizar responsabilidades, reconhecer erros e impedir que a memória seja falsificada. O problema começa quando a investigação se torna morada permanente e consome a energia que deveria orientar uma decisão no presente. Saber como chegamos aqui só cumpre sua tarefa pública quando nos ajuda a escolher o que faremos agora, com os recursos e limites que temos.

O que faço com minha força de vontade para mudar o país de hoje e aproximá-lo daquele que desejo para meus filhos e netos? Que parcela do meu tempo, do meu conhecimento e da minha coragem entrego a essa mudança? Que injustiça próxima posso enfrentar, em vez de apenas descrevê-la? Perguntas assim deslocam a vontade do terreno da intenção para o compromisso que pode ser visto e cobrado.

Força de vontade é a capacidade de sustentar uma finalidade quando o entusiasmo inicial diminui, ajustar o caminho diante dos erros e permanecer responsável pelo que se decidiu construir. Ela se aprende em atos repetidos: estudar quando seria mais fácil desistir, voltar a uma conversa difícil, defender alguém exposto, cumprir uma tarefa que ninguém aplaude. A perseverança dá duração ao propósito; a missão lhe dá direção.

Uma missão ganha peso quando ultrapassa o interesse individual e alcança a vida de outras pessoas. Quem ensina, cuida, escreve com honestidade, organiza um bairro ou enfrenta uma injustiça participa de uma obra que ninguém realiza sozinho. 

Nada de valor coletivo chega pronto, sem custo ou sem renúncia: é preciso tempo, disciplina, alianças e a disposição de refazer o trabalho quando o resultado fica aquém do necessário.

O sofrimento pode expor a diferença entre os valores que anunciamos e a maneira como tratamos os outros. Esse confronto às vezes queima certezas frágeis e limpa a intenção de vaidade, como um fogo que separa o metal do que não resiste ao calor. Mas a dor, por si só, não torna ninguém melhor; ela pode destruir. Seu sentido nasce do cuidado recebido, da escolha possível e da responsabilidade com que transformamos a experiência.

A vontade também depende das vozes que deixamos ocupar nossa intimidade. Há pessoas que recebem um grama de esperança e despejam uma tonelada de pessimismo. Quando alguém prepara a terra para plantar rosas e cravos, elas anunciam que a chuva destruirá as mudas; se as flores vencerem a chuva, o outono chegará; depois, as folhas mortas sujarão o jardim. A previsão de fracasso vira, para elas, licença para não plantar.

Que efeito esse discurso produz em quem o ouve todos os dias? A crítica honesta aponta riscos e ajuda a proteger as mudas; o cinismo repete os riscos até que ninguém queira tocar na terra. Afastar-se de relações que ridicularizam todo esforço pode ser uma decisão de preservação. Procurar pessoas que perguntam como fazer, oferecem uma mão e aceitam rever o plano cria condições para que a esperança deixe de depender de uma só pessoa.

A luta de Davi contra Golias conserva força porque põe frente a frente um guerreiro armado e um pastor que conhecia a funda. Davi recusou a armadura que o imobilizava, escolheu uma pedra e atingiu o gigante; a habilidade que havia treinado para defender o rebanho decidiu o confronto. O que essa história ensina sobre os gigantes de hoje e os recursos que ainda precisamos desenvolver?

Alguns gigantes têm rosto; outros se instalam em hábitos e instituições. A desigualdade tratada como destino, a mentira organizada para confundir o debate e a crença de que cada cidadão está sozinho reduzem a capacidade de resposta. Conhecimento, coragem e cooperação mudam essa escala: um gesto encontra outros, uma denúncia ganha prova, uma comunidade aprende a vigiar o poder. A vontade cresce quando encontra método e companhia.

A história de Viktor Frankl exige cuidado. Psiquiatra vienense, foi deportado em 1942 com a esposa Tilly e os pais para Theresienstadt, onde seu pai morreu de exaustão. Em 1944, Frankl, Tilly e sua mãe foram levados a Auschwitz; sua mãe foi assassinada, Tilly foi transferida para Bergen-Belsen e morreu ali, e ele seguiu para Kaufering e Türkheim, campos ligados a Dachau. Seu irmão Walter e a esposa também foram mortos em Auschwitz. 

Em Theresienstadt, Frankl ajudou a organizar uma equipe de apoio psicológico para os prisioneiros recém-chegados em crise. Em Türkheim, já doente de tifo, recompôs em papéis escondidos o manuscrito confiscado pelos nazistas. O campo foi libertado em 27 de abril de 1945. Ao voltar a Viena, Frankl soube da morte da esposa, da mãe e do irmão; amigos o ampararam e o ajudaram a retomar a escrita. A obra que reconstruía permaneceu como uma tarefa concreta em meio à perda. 

O que podemos aprender com Frankl? A busca de sentido e a responsabilidade por uma tarefa podem orientar alguém submetido a circunstâncias extremas; o cuidado entre pessoas pode sustentar escolhas possíveis. É preciso preservar a brutalidade que o cercava: seleções, fome, doença e decisões dos algozes submetiam a vida dos prisioneiros à violência e ao acaso. A sobrevivência de Frankl não serve para julgar quem morreu nem oferece fórmula capaz de salvar todos os prisioneiros.

A história de Pandora ajuda a nomear aquilo que se espalha quando o poder é exercido sem responsabilidade. No poema Os Trabalhos e os Dias, Hesíodo apresenta Pandora como a primeira mulher: os deuses a formaram e cada um lhe deu um dom, origem de seu nome. Depois que Prometeu roubou o fogo para os humanos, Zeus a enviou como presente a Epimeteu. Prometeu advertira o irmão a recusar dádivas de Zeus; Epimeteu aceitou. Em sua casa havia um grande vaso fechado. Quando Pandora ergueu a tampa, doenças, fadigas e sofrimentos se espalharam entre os mortais. 

O texto antigo fala em vaso, um grande recipiente de armazenamento; a expressão “caixa de Pandora” se firmou mais tarde e passou a designar qualquer gesto que libere problemas difíceis de conter. No Brasil de hoje, a imagem alcança orçamentos secretos, milicianos, notícias falsas e desinformação em escala industrial, corrupção de altas autoridades da República, tentativas de golpe de Estado, negacionismo científico e a apropriação partidária da fé e dos símbolos religiosos.

Esses males ferem bens concretos: o dinheiro público, a segurança, a confiança nos fatos, a democracia, a ciência e a liberdade religiosa. Nomeá-los exige coragem; enfrentá-los requer instituições que prestem contas, jornalismo que apure, cidadãos que verifiquem e grupos que se recusem a converter a mentira em identidade. Hesíodo deixa Elpis, a esperança, no vaso, mas o significado desse gesto permanece discutido. Para nós, ela só terá valor público se sair do nome e entrar no trabalho.

A vontade pode converter indignação em energia sem deixar que a raiva escolha o alvo. Penso numa usina hidrelétrica: a água represada encontra canais, move turbinas e chega às casas como luz. Também a tristeza de um país pode ser organizada em tarefas, estudo, cuidado e pressão pública. Que usina podemos construir com a força que ainda temos? Como fazer essa corrente iluminar corações e mentes, em vez de alimentar apenas a exaustão?

Ao terminar esta leitura, cada leitor pode responder a três perguntas concretas: que tarefa assumirei nesta semana, com quem a farei e em que dia começarei? 

A resposta precisa sair do papel e prosseguir depois da primeira dificuldade, porque a República não se recompõe por desejo, nostalgia ou indignação sem consequência. Se entregarmos aos cínicos o poder de definir o que é possível, cederemos também a linguagem com que o futuro será narrado. Para filhos e netos, deixaremos as consequências do que fizermos e do que adiarmos; ainda podemos decidir quais delas terão a marca da nossa ação.

Fonte: Brasil 247

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