A urna no divã
Por Ediel Ribeiro — Brasil 247
Todos estão de acordo que a direita odeia a urna eletrônica, mas ninguém sabe, de fato, porque. Nem eles.
Odiava. Acho que depois do último domingo, não odeia mais. A suprema ironia de tudo isso: durante 30 anos, toda a família Bolsonaro foi eleita através da urna eletrônica.
Andei pensando tanto nisso que, na noite passada, sonhei que, depois das eleições, uma urna eletrônica foi parar no divã de um psicólogo.
– O que te traz aqui hoje? – perguntou o psicólogo.
– Baixa auto estima. Eu gosto tanto da família Bolsonaro, ajudei todos eles a se elegerem e eles não gostam de mim – lamentou-se a urna – Acredita que um bolsonarista, passou cola no meu número três – concluiu.
– Sério? – indignou-se o psicólogo.
– Um eleitor da extrema direita digitou os números com o cano de uma arma. Pensei que ia morrer. Outro, arrancou o número três do meu teclado – concluiu a urna.
– Imagino seu sofrimento. Deve ter sido duro para você receber votos de Renan e Carlos Bolsonaro, dois cariocas que só conhecem o aeroporto de Santa Catarina – perguntou o psicólogo.
– Pior foi receber o voto de uma mulher que odeia as mulheres, as feministas, os gays, as lésbicas e até os índios. E, pior, defende o direito dos homens de agredirem as mulheres e nega que exista feminicídio no Brasil. Tive que aguentar tudo isso – concluiu a urna.
– Pior é receber votos de Nikolas Ferreira, Zema, Flávio Bolsonaro, Renan, Carluxo e Pavanato, políticos que nunca fizeram nada pelo país, né? – lamentou o psicólogo, com um sorriso.
– O que me deixa mais triste é receber voto de trabalhadores que votam em quem quer acabar com os direitos trabalhistas; de aposentados votando em que quer acabar com o reajuste nas aposentadorias; de doentes votando em quem quer acabar com o SUS; de estudantes votando em quem quer privatizar as escolas públicas e acabar com as universidades gratuitas; de motoristas de Uber e Táxi votando em quem quer privatizar a Petrobrás; de religiosos votando em quem trai a mulher e frequenta orgias; de patriotas votando em quem se comprometeu a entregar nossa floresta e nossas riquezas para o EUA; de gente que vota em miliciano que diz que vai acabar com o crime organizado. Por que acontece isso? – quis saber a urna.
– Acontece porque o pobre de direita acha que pertence a elite. Acham que vão frequentar ilhas, comprar iates, jet sky e vão participar das orgias do Vorcaro, com 120 mulheres, quando, na verdade, vão pra fila do osso – diz o psicólogo.
– Mas por que os bolsonaristas não gostam de mim e eu gosto deles?
– Você tem dissonância cognitiva – disse o psicólogo.
– O que é isso? – quis saber a urna.
– A dissonância cognitiva é o desconforto mental e a tensão psicológica experimentados por uma pessoa quando ela mantém, ao mesmo tempo, duas ideias, crenças ou valores contraditórios, ou quando realiza um comportamento que vai contra o que ela pensa. Por exemplo: a pessoa acredita firmemente que o bolsonarismo pode destruir o país, mas continua votando na extrema direita.
A dissonância cognitiva nada mais é do que a indisposição de analisar a verdade a partir das evidências. Geralmente são pessoas frustradas. Frustradas religiosamente, sexualmente, intelectualmente ou profissionalmente. E o movimento bolsonarista transformou essas pessoas frustradas, vistas por seus pares de forma negativa, em patriotas. Em defensores do Brasil.
Se você perguntar a uma pessoa da extrema direita o que ela defende, ela vai dizer: defendo a liberdade, defendo o patriotismo, defendo a defesa do nosso povo, defendo propósitos.
Então, essas pessoas têm no bolsonarismo um propósito pra vida. Elas não precisam mais, por exemplo, fazer uma faculdade para entender sobre direito, sobre constituição. Elas vão na internet, pegam informações, colocam no grupo de whatsapp e não precisam ser validadas por um professor de uma universidade, porque eles, no próprio grupo, se validam.
Então, chega um momento em que a atuação desse grupo do zap fundamenta a identidade dessas pessoas e quando essas pessoas vêem uma verdade factual, como por exemplo que elas podem estar colocando em risco sua vida e a das pessoas de sua comunidade, eles ainda assim dizem: use as redes sociais. Porque se elas forem pela verdade factual e perceberem que isso é um absurdo, elas se descaracterizam, porque o sentido da vida delas passou a ser essa afirmação política desse grupo. Então, eles rejeitam a verdade porque se eles aderirem a verdade eles perceberão que eles não são defensores da pátria, eles na verdade, são só pessoas frustradas -concluiu o psicólogo.
– E pensar que ainda tem o segundo turno – lamentou-se a urna.
Fonte: Brasil 247